Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Trem-bala russo vira atração turística na Copa do Mundo

Moderna composição percorre em 4 horas trajeto de 635 km entre Moscou e São Petersburgo, as duas maiores cidades do país

Gonçalo Junior, enviado especial / São Petersburgo, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 05h00

Escolhido como um dos símbolos de uma Rússia moderna, o trem-bala se tornou uma atração turística à parte na Copa, especialmente para os brasileiros. O trajeto de 635 quilômetros entre Moscou e São Petersburgo, percorrido em quatro horas, é um dos destaques dos pacotes entre as cidades-sede. Para o povo russo, é uma alternativa às viagens aéreas e motivo de orgulho nacional. Exatamente às 6h45 da manhã gelada de terça-feira, o modelo Velaro Rus 756 branco, azul e vermelho parou na plataforma central, dentro da estação de metrô Oktiabrskaya, a mais antiga da capital Moscou. Muita gente registra sua chegada com o celular. 

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São 30 minutos para o embarque de 800 passageiros - o número pode chegar a mil. Os dez vagões do comboio vão percorrer os 635 quilômetros de distância entre as duas maiores (e mais belas) cidades russas. 

Uma comissária com um inglês correto e sem sotaque confere as passagens com cuidado e indica o vagão certo. O trem Sapsan tem três classes. A primeira é parecida com o setor mais caro de um avião. Poltronas reclináveis, serviço de alimentação, kit de viagem e DVD. Tem até uma cabine para reuniões executivas com poltronas altas de couro preto. 

A classe business também tem bancos de couro, lanches e bebidas à vontade e acesso à sala vip nas estações de trem. A classe econômica, que cobra cerca de 2.500 rublos (R$ 150), tem poltronas de tecido. Não dá para recostar o banco para trás. Não há tomadas, mas o Wi-Fi é gratuito mediante cadastro e funciona bem - não caiu durante toda a viagem. O lanche não está incluído na passagem. Discretamente, uma senhora ruiva, na casa dos 30 anos, pegou na bolsa marrom um sanduíche com pão preto, o mais apreciado por aqui. O vagão restaurante é uma alternativa e cobra 150 rublos (R$ 8,80) por um café expresso. Há uma outra opção de trem, com paradas, que faz o mesmo trecho em nove horas. 

 

Um grupo de brasileiros se esparrama em boa parte do vagão 17C da classe econômica. Eles compraram um pacote para assistir aos jogos da Copa e acabaram se reunindo ali. Tem gente de Goiânia e Ribeirão Preto. A viagem de trem foi decisiva para que a arquiteta Lucia Rodrigues comprasse os três jogos do Brasil na primeira fase. 

Um pacote para assistir à Copa completa sai, em média, por ¤ 13 mil (R$ 56 mil). O valor por fase estava em ¤ 7 mil (R$ 30 mil). A Guinter Tour, um das maiores agências de viagem da Rússia, oferece o passeio como um dos destaques do seu pacote. “Durante a Copa, o Brasil vai jogar em São Petersburgo e Moscou, o que fez com que esses dois destinos se tornassem obrigatórios. Nas duas cidades, a estação de trem fica na região central, o que facilita o deslocamento”, diz o empresário Henrique Bardallo, proprietário da agência que vendeu 150 pacotes turísticos para a competição. 

SÍMBOLO

O trem-bala é um símbolo de avanço tecnológico do país. Isso já começa com o nome poético que recebeu: Falcão Peregrino, o animal mais rápido do mundo, capaz de atingir os mesmos 300 km/h do trem. A primeira viagem do Falcão foi realizada em 2009 pelo então primeiro-ministro Vladimir Putin. Recado político. O trem é administrado pela RZD, a empresa estatal responsável pelas ferrovias na Rússia. É, portanto, um símbolo do próprio país. Suas cores são as mesmas da bandeira russa. “O tempo determina novos padrões de qualidade de vida”, informa o folheto entregue pela comissária. 

Os brasileiros dizem que o trem é diferente do avião em um aspecto importante: é possível ver as paisagens. Curiosamente, elas fazem a ponte entre o futuro que corre sobre os trilhos e o passado que passa na janela. A Rússia se mostra também como um país agrícola, com agricultores plantando para viver. Plantações. Gado. Rios. Vegetação. Rússia rural. 

As paradas são rápidas, de menos de um minuto. São apenas três no percurso. Os passageiros são orientados a descer com rapidez para não atrasar a viagem. “A gente não tem trens de qualidade para fazer viagens longas no Brasil. Deveria ter. Todo mundo depende muito das estradas. Foi um absurdo o que a gente viveu com a greve dos caminhoneiros”, diz Bardallo.

A velocidade média do trem é de 250 quilômetros por hora, mas pode chegar aos 300 km/h do falcão. Olhando na janela, tudo passa rapidinho. Não dá tempo de ler uma placa. Em russo? Só a primeira letra. Realidade na Europa, Estados Unidos e Japão, os trens de alta velocidade seguem um percurso mais reto, sem curvas fechadas. Dá para andar tranquilamente dentro dele sem ficar segurando os corrimãos. Os trens conseguem correr tanto porque os trilhos são contínuos, sem emendas. 

Pontualmente às 11 horas, o falcão “pousa” na estação de Glavny, em São Petersburgo. A paisagem volta a ser urbana, com edifícios suntuosos e prédios históricos. A comissária deseja que possa nos reencontrar em breve. Outro trecho do folheto que ela entrega diz que o “futuro anda de trem”. 

 

 

 

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