Jorge Adorno/Reuters
Jorge Adorno/Reuters

Três anos após queda de cartolas, América do Sul volta a ser alvo de escândalos

Peru, Uruguai e Colômbia voltam a conviver com suspeitas de ilegalidades

Jamil Chade / Correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 05h00

Três anos depois da queda dos cartolas do futebol e às vésperas da sentença de José Maria Marin nos EUA, o futebol sul-americano voltar a ficar atolado em escândalos de corrupção. Dois dos quatro representante da Conmebol estão sob suspeita, enquanto novas revelações sugerem que a troca de favores entre dirigentes e membros de governos não acabou com a operação realizada pelos americanos em 2015. 

Há três anos, uma operação do FBI indiciou um total de 40 pessoas por esquemas de corrupção no futebol. A maioria era composta por dirigentes sul-americanos que, em grande parte, admitiram os crimes. Um dos poucos a se declarar inocente foi José Maria Marin, ex-presidente da CBF. Ele foi condenado em 2017 por seis crimes e, no dia 22, receberá sua sentença final de uma corte americana. 

A operação ainda levou a região sul-americana a viver uma mudança importante no comando das associações nacionais, com novos líderes que assumiram prometendo mudanças. Mas a realidade tem sido diferente e novos escândalos voltaram a eclodir. 

Um dos casos mais polêmicos abalou o Uruguai. Gravações de conversas entre o ex-presidente da Associação Uruguaia de Futebol, Wilmar Valdez, e o empresário Walter Alcántara sugeririam favorecimentos em contratos para instalações no Estádio Centenário, em Montevidéu. Valdez ainda insinuou que o Ministério do Interior teria recebido subornos para que a empresa DDBA fosse escolhida para instalar aparelhos de segurança no estádio. 

A empresa negou qualquer irregularidade e Valdez, num comunicado à imprensa, explicou que havia sido alvo de um extorsão, que era inocente e que estava se afastando para que o caso pudesse ser elucidado. O cartola indicou que já abriu um processo contra o empresário. 

Já o governo emitiu uma nota em que esclarece que a escolha pela tecnologia a ser implementada seria “competência exclusiva” da AUF.  O caso chegou até o vice-ministro do Interior, Jorge Vázquez, irmão do presidente do país, Tabaré Vázquez. Segundo o comunicado do governo, o número 2 do ministério “se reuniu com o Procurador-Geral da Nação, Jorge Díaz, para se colocar à disposição”.

Mas a gravação levou Valdez a renunciar no dia 30 de julho, um dia antes das eleições que o reconduziriam a mais um mandato. Ele era um dos representantes da Conmebol na Fifa. O Ministério Público assumiu as investigações e as eleições foram adiadas. 

No Peru, suspeitas também recaem contra o presidente da federação local, Edwin Oviedo. Também numa gravação, a conversa entre ele e o juiz da corte suprema Cesar Hinostroza sugere que o magistrado teria ido para a Copa do Mundo na Rússia à convite do cartola. 

Os áudios apareceram no contexto de investigações sobre a atuação da empresa brasileira Odebrecht no país vizinho.  Oviedo se recusou a pedir afastamento do cargo e declarou que “nunca ofereceu ingressos, acomodação ou qualquer benefício impróprio a juízes e investigadores”. Num comunicado, deixou claro que somente iria renunciar se a Justiça declarasse que ele cometeu crime. Mas pelos menos cinco diretores da federação pediram demissão. 

Acusado de tráfico de influência, Hinostroza garante que viajou com seus próprios meios.  Outro representante sul-americano na Fifa, o colombiano Ramón Jesurún, também é alvo de suspeitas. Ele é investigado pela Superintendência de Indústria e Comércio do país por suposto desvio de 42 mil ingressos de jogos da Colômbia nas Eliminatórias da Copa junto com o ex-presidente da federação, Luis Bedoya, também indiciado por corrupção pelo FBI em 2015. 

A denúncia aponta que nove jogos da seleção colombiana teriam registrado o desvio de milhares de ingressos, revendidos com um ágio de 350% pelos dirigentes e que teriam faturado US$ 4,5 milhões. Para o investigador Felip Robledo, encarregado do caso, “o desvio massivo e revenda apenas poderiam ter ocorrido com a ação da federação”. “Tivemos ações deliberadas e omissões deliberadas da federação e seus executivos.”

Jesurun declarou que a Federação “aceita e acata os temas da Justiça”. Mas alertou que a imprensa publicou a história como se fosse “um feito concluído”. “Estamos apenas no início de uma investigação. O futebol colombiano é limpo”, garantiu. 

Procurada, a Fifa se limitou a dizer por meio de um porta-voz, que “como regra geral, o Comitê de Ética não comenta sobre alegações ou potenciais processos”. 

 

 

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