Alex Silva
Edinho comanda treinamento do Tricordiano Alex Silva

Na terra de Pelé, Edinho treina time em que avô brilhou

Edinho assume Tricordiano, do sul de Minas e reúne três gerações da Família Real

Gonçalo Junior, enviado especial a Três Corações, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2017 | 17h00

O museu “Terra do Rei” é um dos pontos turísticos mais visitados de Três Corações, cidade do sul de Minas onde Pelé nasceu. Lá estão objetos, fotos, reportagens, quadros e documentos, cada cantinho da vida de Pelé. Também forram as paredes branquinhas os feitos do pai de Pelé, Dondinho, ex-jogador do time da cidade, o Atlético de Três Corações, por volta de 1930 e 1940. A visita ao museu também vale pelas coisas que ele ainda não mostra.

Uma sala vazia, em reforma, espera as fotos e documentos da história que está sendo feita agora com a contratação de Edinho, filho de Pelé e neto de Dondinho, como técnico do Tricordiano, novo nome do Atlético de Três Corações. A família real, a mais importante do futebol mundial, agora, está completa com avô, pai e filho. Quem disse que museu só vive de passado?

“A primeira sensação de treinar o Tricordiano é de orgulho. A gente revive a história e o legado. Meu pai não jogou no clube, mas ele é da cidade. Foi meu avô, Dondinho, quem vestiu essa camisa e pisou nesse campo. É a memória do meu avô que vive dentro de mim na hora do trabalho”, disse o técnico Edinho ao Estado.

O mais legal é a maneira como Edson Cholbi do Nascimento fala tudo isso. Ele tem um vozeirão, mais grave que o do pai, fala olhando no olho. Na tarde quente de segunda-feira, antes do treino, está no meio do gramado onde o avô brilhou. E o discurso, claro e coerente, bambeia ao falar do antepassado que morreu em 1996 aos 79 anos. João Ramos do Nascimento era ídolo em Três Corações. Em 1939, fez cinco gols de cabeça no clássico contra o Yuracan de Itajubá. Foi herói da conquista da Taça Guaraína em 1941, um dos xodós do acervo do museu.

Outra imagem memorável é uma montagem fotográfica que reúne avô, pai e filho. “Isso nunca mais vai acontecer. É o filho do Rei, na terra do Rei, vestindo a camisa do avô. Quero deixar minha marca no clube não só por essas questões, mas também por aquilo que a gente vai construir”, diz.

Edinho começou a construir sua história neste sábado, na estreia no Campeonato Mineiro, contra o Uberlândia. O diretor de futebol Henrique Sales, responsável por uma reformulação total com a contratação de 25 jogadores, sonha com um lugar entre os quatro melhores do Estado. Meta difícil. Uma vaga na Série D seria o plano B.

O gestor ambiental Edson Gregório, que visitou o museu na segunda-feira, vê outros objetivos na contratação de Edinho. “A vinda dele pode trazer mais patrocínios e atrair empresas para apoiar o time e cidade.”

CASA

Pelé esteve quatro vezes em Três Corações. A última foi em 2012 na inauguração da Casa Pelé, uma réplica do lugar onde ele nasceu. Construída a partir das memórias de Dona Celeste Arantes do Nascimento e seu irmão Jorge, mãe e tio de Pelé, a casa recria o ambiente de 1940, data de nascimento do Rei. Os móveis e objetos foram adquiridos em fazendas, brechós e antiquários. O rádio toca músicas da época; o fogão a lenha e as lâmpadas de baixa voltagem embalam uma volta ao passado. Edinho esteve na inauguração.

Voltando às raras visitas de Pelé, muita gente vê um saldo devedor. Torcedores esperam que a presença de Edinho na cidade facilite o contato com o presidente de honra do Tricordiano. “A presença do Edinho é uma grande oportunidade para resgatar o vínculo do Pelé com a cidade”, diz o secretário de Comunicação, Altair Nogueira.

Pelé pode voltar à cidade ainda no Campeonato Mineiro. Apesar dos problemas de saúde, ele prometeu ao filho ver um dos seus jogos caso o Tricordiano avance às fases finais.

Pai e filho se falam com frequência. Edinho conta que não costuma pedir conselhos táticos ao Rei, mas que o contrário acontece. “É um grande reconhecimento ele me perguntar sobre futebol.”

Edinho ainda não comprou uma casa em Três Corações e faz apenas o trajeto treino/hotel/treino.“Fui recebido como um filho.”Amigos contam que ele nem conseguiu comer quando foi ao principal restaurante da cidade, tamanha a quantidade de selfies que teve de tirar com os tricordianos.

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Edinho ainda sofre preconceito após prisão

Filho de Pelé afirma que ainda sofre preconceito como treinador após problemas com a justiça

Gonçalo Junior, enviado especial a Três Corações, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2017 | 17h00

Edinho afirma que ainda sofre preconceito por ter ficado preso por um ano e meio depois de ter sido condenado por lavagem de dinheiro e associação ao tráfico de drogas em 2005. “Já sofri muito preconceito, inclusive profissionalmente. Tenho até hoje. Não tenho provas de verdade, mas portas fecharam, tive de reconquistar esse espaço como eu estou fazendo”, disse.

Edinho foi preso com outras 17 pessoas pela Operação Indra em junho de 2005, acusado de ligação com uma organização de tráfico de drogas comandada por Ronaldo Duarte Barsott, o Naldinho, na Baixada Santista. Sua pena foi de 33 anos e quatro meses de prisão.

O ex-goleiro foi solto ao obter um habeas corpus no Superior Tribunal Federal (STF). Porém, em fevereiro de 2006, o Ministério Público o denunciou por lavagem de dinheiro, o que resultou em nova prisão, 47 dias após conseguir a liberdade.

Edinho obteve o direito de permanecer em liberdade graças a nova decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Pode trabalhar normalmente, mas não tem permissão para deixar o País. “A dinâmica da nossa Justiça é muito morosa. Ela é viva e ainda existe, os processos estão em andamento. Acima de tudo, eu tenho a consciência muito tranquila da minha total inocência em relação às acusações que foram feitas”, afirma.

Depois de ter sido membro da comissão técnica do Santos, Edinho treinou o Mogi Mirim e o Água Santa. Acredita que a experiência de um ano e meio na prisão serve como lição de vida. “Eu fui acusado de lavagem de dinheiro, é um crime técnico. Tem de ter números, contas, algum volume de dinheiro que foi daqui para lá e de lá para cá, algum subsídio para suportar a acusação e não tem, nunca houve isso. Fica muita frustração de ter de lidar com isso.”

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