Três pedidos para 2018

O futebol brasileiro carece de melhores jogadores, árbitros bons e segurança nos estádios

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2018 | 04h00

Calhou de a coluna cair no primeiro dia da nova temporada. E para não dizerem que dei W.O., resolvi listar alguns pedidos particulares para o nosso futebol em 2018. Digo pedidos porque nada disso depende de mim, a não ser testemunhar minha indignação do que vi sobre o assunto no ano passado – e estou muito feliz que ele tenha passado, de fato. O futebol brasileiro conviveu com alguns de seus maiores fantasmas em 2017, de modo a passar doze meses assombrado. A violência apavorou. 

A temporada de selvageria nos estádios e em seus arredores, Brasil afora, pode ser resumido em seu último ato, na final da Sul-Americana entre Flamengo e Independiente, no Maracanã. O estádio no Rio foi tomado de assalto por flamenguistas, perto de 7 mil, de acordo com números estimados, em todos os seus guichês, portões e catracas. Ninguém foi dado como morto por milagre, porque as cenas foram fortes, de torcedores pisando em torcedores para entrar e tentar ver o jogo. A polícia, acuada como toda a cidade, nada pôde fazer a não ser se proteger e bater sem distinção. Se pudesse fazer um pedido, seria pelo fim desta violência nos nossos estádios. Jamais vou me conformar com nossa falta de competência para resolver o problema. Em São Paulo, teremos mais uma temporada de clássicos com torcida única. 

Em campo, nossa maior assombração foi com a bola nos pés, e logo no País que tantos craques teve ao longo de suas cinco conquistas mundiais e mais de 100 anos de bola rolando. Como jogamos mal. Os melhores atletas negaram fogo. E formamos times horrorosos. Elegemos jogadores que já passaram do ponto e que, em outras épocas, jamais teriam sidos escolhidos como os melhores. Nem mesmo os bons elencos funcionaram. Eles ouviram mais vaias do que aplausos. Testemunhamos partidas de dar dó. Passamos a reverenciar cobrança de lateral na área como se isso fosse uma jogada construída. Não é. Atira-se a bola e vê no que dá. Inventamos ainda a “tática” de entregar a bola ao rival. Talvez para errar menos com ela nos pés. Se pudesse fazer um segundo pedido, pediria mais talento ao futebol brasileiro. Simples assim. Erramos passes de metros.

Tanta gente jogando mal com os pés contagiou até quem usa a boca para comandar as partidas. Boca, braços e gestos. E olha que não me refiro a bom senso nem ao cumprimento das regras. Nossos árbitros foram tão confusos quanto os ataques dos nossos times. Foram muitas bolas para fora, longe do gol. Apitamos até o que não vimos. E, quando vimos, nos faltou confiança para apitar. Fomos dedurados pelas imagens de TV, agora no jogo.

Os assopradores brasileiros foram confusos até no uso do árbitro de vídeo, essa novidade que tomou o futebol por todos os cantos do mundo, mas que não será capaz de solucionar as injustiças de uma disputa de 90 minutos. Nem deveria. O árbitro de vídeo veio para resolver erros clamorosos, como diria o comentarista, desses que todos ficam falando por dias ou semanas. Quer um exemplo? A mão do atacante Jô contra o Vasco no Campeonato Brasileiro.

Mas não é esse o ponto da nossa fraca arbitragem. A falta de profissionalização é um problema de anos, assim como a carência de bons árbitros. Pudesse fazer um terceiro pedido para 2018, pediria a formação de árbitros mais regulares no futebol brasileiro, menos enrolados e mais inteligentes até, com personalidade, que não tentassem levar tudo no grito, desconfiados, inseguros e desrespeitados desde o sinal da cruz quando entram em campo.

Sei que não são pedidos simples. Ocorre que não podemos abrir mão deles por mais um ano. O futebol brasileiro depende disso, e de muito mais, claro, como o fim da corrupção, ganância, desonestidade... 

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