Paulo Liebert/Estadão
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Três personagens

Jorge Jesus, Paulo Autuori e Dudu vivem situações muito distintas ao longo da quarentena

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

Temos um semi futebol por aí. Diria até um quase futebol, um futebol que se move indeciso entre o certo e o errado, entre o defensável e o totalmente reprovável. E no meio desse claro escuro movem-se alguns personagens bem diferentes entre si. O primeiro é o treinador do Flamengo, Jorge Jesus. É o personagem que tem a situação mais confortável dos três. Há mais de seis meses esse personagem surfa, merecidamente, na reputação que o Flamengo conquistou no último ano. Sua posição não lhe pede que ganhe mais jogos e campeonatos, já atingiu praticamente tudo o que poderia ganhar. Sua preocupação, portanto, é não perder. Não cair de posição e de status.

Qual é a melhor maneira de isso acontecer senão com o futebol paralisado? Faz tempo que o Flamengo não enfrenta qualquer grande adversário e isso conta a seu favor. Já que tudo está paralisado, os outros clubes também não modificam seus patamares para algo maior do que o ano passado. E o Flamengo, sem jogar, continua a bola da vez. De quebra, revelou-se que manda no futebol carioca, ou ao menos predomina inquestionavelmente.

Ao confrontar o que queria para o futebol, que era uma visão errada, com a visão, correta, de Fluminense e Botafogo, humilhou os dois obrigando-os a entrar em campo contra a vontade e ao contrário de todo bom senso.

Jorge Jesus contou até com isso para se reforçar. Fala-se em seu nome até no Barcelona. É o grande ganhador da paralisação, uma coisa, aliás, que não pediu e que talvez pessoalmente o incomode. Mas nem ele pode contrariar o destino ou o acaso.

Há, todavia, quem perdeu, mas em pé e de cabeça erguida. Não me refiro ao financeiro, mas ao aspecto moral. Paulo Autuori de novo mostrou sua independência de espírito, sua retidão de caráter que, aliás, o tornou um personagem singular, quase único, no futebol brasileiro. Entre os jogadores que orientou ao longo da carreira é praticamente uma unanimidade.

Pois, neste momento, Paulo Autuori se levantou justamente contra a federação carioca que, com total apoio do Flamengo, senão por iniciativa do Flamengo, decidiu tomar medidas que desconhecem esse período em que o coronavírus devasta o Rio de Janeiro implacavelmente. Os dirigentes de Botafogo e Fluminense foram contra, e mostraram sua contrariedade. Mas talvez de maneira não tão contundente como Autuori. Ele falou o que tinha que falar e bradou contra a insensatez. O resultado é que foi punido pela federação.

Mostrando o caráter que tem, queria impedir o Botafogo de recorrer da punição, o que felizmente não conseguiu. Deu-se mais uma vez algo comum e esperado de quem tem uma longa carreira sempre ao lado da coragem, do justo enfrentamento e da solidão que isso acarreta.

O terceiro personagem é Dudu. Esse também está perdendo nesse período que parece não ter fim. Virou notícia primeiro por um problema pessoal que, acho até, tem muito a ver com o desgaste do momento e a ansiedade da espera de que a profissão volte. A imprensa, como de hábito, não o poupou e as cenas foram repetidas, principalmente num momento de notícias esportivas escassas.

Ou, talvez não seja isso que abalou o estado de espírito do jogador, mas a consciência de que aos 28 anos está sendo tratado como veterano, talvez até dispensável.

Nem no futebol, antes, essa idade era considerada avançada. Agora é, e Dudu só tem a tímida proposta do Catar; na Europa é considerado velho. A Europa só se interessa agora por jogadores em idade de serem formados nos padrões de futebol europeus, para se tonarem jogadores europeus.

Não é o caso de Dudu, que, fruto da velha escola brasileira, já não poderia mudar mais nada de seu modo de jogar bola. Talvez esteja destinado a ser um daqueles ídolos só do Palmeiras, à maneira de Ademir da Guia ou São Marcos. E ser ídolo no Palmeiras é ser por toda a vida.

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