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Tribunal Arbitral do Esporte suspende Platini por 4 anos

Decisão pode representar o fim da carreira do cartola francês

Jamil Chade, correspondente em GENEBRA, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2016 | 07h08

A carreira de dirigente esportivo de Michel Platini sofreu um duro abalo. O Tribunal Arbitral dos Esportes (TAS) o suspendeu por quatro anos, numa decisão final sobre um caso que vinha se arrastando por mais de seis meses e que havia impedido o francês de ser candidato à presidência da Fifa

Com todos os recursos esgotados nas entidades esportivas, Platini agora entrega seu cargo de presidente da Uefa e não poderá sequer estar na Eurocopa, que começa no próximo mês em seu próprio país. A decisão ainda o impedirá de concorrer às próximas eleições da Fifa, marcadas para 2019. Em tese, o francês poderia disputar o pleito apenas em 2023. Mas pessoas próximas ao ex-jogador confessaram ao Estado que ele pode abandonar a carreira de cartola, mesmo anunciando que vai levar o caso à Justiça comum - algo raro na história do TAS.

No ano passado, a Fifa puniu Platini com oito anos de suspensão depois das revelações de que ele recebeu cerca de US$ 2 milhões (R$ 6,99 milhões) em pagamentos por parte de Joseph Blatter, nove anos depois dos supostos serviços que prestou para a Fifa. Além de ter escondido da direção da entidade, Platini foi acusado de ter colaborado com uma falsificação das contas da Fifa ao não registrar esse pagamento que deveria ser realizado. Isso por causa do fato de ele não apenas ter prestado o serviço, mas também ocupar o cargo de vice-presidente da entidade.

A suspeita é de que os US$ 2 milhões (R$ 6,99 milhões) foram dados por Blatter para Platini em 2011 para evitar que o francês entrasse na corrida presidencial daquele ano e fosse uma ameaça para o suíço. Originalmente, a punição sobre o francês havia sido de uma suspensão de oito anos do futebol. Joseph Blatter também foi punido e passou até mesmo a ser investigado pelo Ministério Público Suíço por gestão desleal. 

Mas Platini, assim como Joseph Blatter, recorreu da decisão nos próprios órgãos da Fifa. A punição foi mantida, mas por sua contribuição ao futebol mundial, a suspensão foi reduzida para apenas seis anos. Na prática, a punição não apenas o tirou de qualquer atividade do futebol, mas principalmente o impediu de concorrer para a presidência da Fifa, em eleições realizadas no final de fevereiro. De uma forma inusitada, quem acabou vencendo o pleito foi o braço direito de Platini, Gianni Infantino, que jamais imaginou que seria sequer candidato ao cargo. 

Mas o francês decidiu, ainda assim, ir além e recorrer ao TAS. Seu argumento era de que fora vítima de processo político da Fifa, justamente para impedir que ele fosse o novo presidente da entidade.  

ARGUMENTOS

Mas o TAS confirmou a pena, mesmo reduzindo a punição para quatro anos. Segundo a entidade, o contrato de trabalho de Platini com a Fifa, assinado em 1999 e válido até 2002, previa um pagamento anual de US$ 300 mil (R$ 1,05 milhão). "Não foi até 2011, quatro meses antes das eleições na Fifa, que a entidade pagou US$ 2 milhões (R$ 6,99 milhões) para Platini", alertou a decisão do tribunal.

A corte apontou que, nas audiências, Platini justificou que o pagamento de US$ 1 milhão (R$ 3,49 milhões) por ano havia sido um acordo dele com Blatter, ainda em 1998. Mas o tribunal indicou que "não ficou convencido da legitimidade do pagamento de US$ 2 milhões (R$ 6,99 milhões), que apenas foi reconhecido por Platini e Blatter, e que ocorreu mais de 8 anos depois da relação de trabalho". 

Segundo o tribunal, não existe nenhum documento justificando tal acordo e, além disso, Platini passou a se beneficiar de um sistema de aposentadoria que "não lhe correspondia". Por esses motivos, Platini foi condenado por "tirar vantagens indevidas" dos recursos da Fifa e por violar o Código de Ética da entidade. A decisão foi tomada de forma unânime pelos três juízes que avaliaram o caso. O Tribunal, porém, optou por reduzir a punição de seis para quatro anos, o equivalente a um mandato como presidente da entidade. "A decisão original (de oito anos) era severa demais", apontou.

Ainda assim, a corte justificou a decisão apontando que Platini desempenhava "funções superiores" na Fifa" e diante do impacto que teve na "reputação" da entidade. Para os juízes, seu comportamento não foi "nem ético nem leal". O francês ainda precisa pagar uma multa de US$ 60 mil (R$ 209 mil). 

RESPOSTA

Platini, mesmo derrotado, não abandonou suas críticas ao processo. Em um tom irônico, ele aponta que a suspensão de quatro anos, "por azar", o impede de entrar na corrida para as eleições na Fifa marcadas para 2019. Ele ainda promete levar o caso adiante, ainda que essa opção seja considerada como a mais improvável. Pelas regras do Tribunal, um caso pode parar na Justiça comum. Mas apenas para que se julgue o procedimento, e não a matéria. Platini indicou que adotará essa estratégia. 

"Vou continuar meu combate diante dos tribunais suíços por provar minha inocência nesse caso", disse. "A vida sempre me reservou belas surpresas. Estou disposto a vivê-las", indicou. Platini, porém, admite que abandona a partir de agora o cargo de presidente da Uefa. A entidade irá convocar no dia 18 de maio novas eleições para escolher um novo presidente. Para o francês que foi um dos melhores jogadores do mundo, com três bolas de ouro, o resultado de hoje pode ser na prática o fim de uma carreira na política do esporte e um alerta da parte das autoridades de que ninguém está acima da lei. O próximo a ser julgado será Blatter. Mas a condenação de Platini já aponta para a direção que o processo do suíço poderá ter. 

O caso ainda tramita no Ministério Público da Suíça e tanto Blatter quanto Platini podem ser punidos penalmente. 

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