Troca de promotora da tragédia em Oruro incomoda diplomatas brasileiros

Saída da fiscal Abigail Saba do caso dos corintianos detidos na Bolívia pode atrasar ainda mais o processo

Gonçalo Junior e Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Um dia após os parlamentares da Comissão de Relações Exteriores do Senado e diplomatas brasileiros criticarem as condições em que os 12 corintianos estão presos em Oruro, temendo pela sua integridade física, a fiscal de investigação Abigail Saba, que acompanhava o “caso Kevin” desde o início, foi afastada do processo.

Ontem, a embaixada brasileira informou que Abigail seria substituída por causa de um “rodízio dos promotores”, de acordo com a versão oficial do Ministério Público boliviano. O novo fiscal de investigação será Alfredo Santos.

Embora a mudança pareça, à primeira vista, uma vitória da diplomacia brasileira, a troca causou irritação e estranheza já que Abigail vinha acompanhando todas as investigações desde o dia 21 de fevereiro, quando foram presos os 12 corintianos acusados de envolvimento na morte do torcedor Kevin Espada, atingido por um sinalizador na partida entre San Jose e Corinthians, pela Taça Libertadores.

“Essa mudança demonstra a incerteza do governo boliviano quanto ao rumo das investigações”, afirma o senador Ricardo Ferraço, presidente da Comissão de Relações Exteriores, e que esteve em Oruro na segunda-feira. “Nós precisamos de celeridade nesse processo. É hora de agir com rapidez. A mudança vai trazer ainda mais incerteza para os brasileiros”, completa.

Eduardo Saboia, ministro conselheiro da embaixada brasileira em La Paz, também mostrou desapontamento e preocupação. “É uma situação muito estranha já que estamos no meio de um processo”, avalia.

O principal temor das autoridades brasileiras é mais um atraso no processo. O novo fiscal pode pedir novas investigações, depoimentos adicionais e solicitar um prazo maior para analisar as provas, enfim, terá de “pegar o bonde andando”, expressão utilizada por um dos diplomatas.

O Ministério Público de São Paulo já encaminhou para o Itamaraty as informações que haviam sido solicitadas por Abigail Saba (cópia do vídeo em que o torcedor de 17 anos assume a autoria do disparo em entrevista ao Fantástico e a ficha de antecedentes criminais dos corintianos presos). Por outro lado, a justiça brasileira aguarda os trâmites burocráticos para que a cooperação entre as justiças seja concretizada. Os promotores também não receberam cópias do processo já que nenhuma prova do crime está no Brasil.

Abigail Saba era considerada “linha-dura” pelos diplomatas brasileiros na condução das investigações. Em entrevista à Rádio Estadão, por exemplo, logo após a prisão dos brasileiros, Abigail colocou em dúvida a confissão feita no Brasil pelo menor de 17 anos e disse que não cederia “às pressões políticas e diplomáticas no tratamento do caso”.

PROBLEMA DIPLOMÁTICO

Ferraço reafirmou a necessidade de o governo brasileiro agir com firmeza no caso que avaliou como “questão diplomática”.

A próxima providência da comissão do Senado será agendar uma reunião com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, provavelmente na semana que vem, para decidir as medidas que o governo brasileiro poderá tomar para agilizar o andamento do processo. Desse encontro deve participar também o presidente do Corinthians, Mario Gobbi.

A assessoria do clube confirmou que no dia 2 de abril o dirigente corintiano se reunirá com Antônio Patriota, ministro das Relações Exteriores.

Após a visita a Oruro, os parlamentares identificaram outro complicador na prisão dos corintianos, que transcende a questão jurídica.

Os torcedores seriam objeto de barganha política pelo governo boliviano pelo fato de o Brasil ter concedido asilo político a um senador da oposição, Roger Pinto, asilado há mais de 300 dias na embaixada brasileira em La Paz. 

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