REUTERS/Jonathan Ernst
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Trump: o maior (e único) obstáculo para a Copa de 2026

EUA querem sediar o mundial conjuntamente com México e Canadá, mas esbarram nas vontades do presidente

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2018 | 07h00

Na semana passada, um dos maiores astros da história do futebol nos EUA, Landon Donovan, mandou um recado diretamente a Donald Trump quando foi apresentado como o novo jogador do time mexicano Leon: “não acredito em muros”. A mensagem era uma referência às promessas do presidente americano de construir a barreira entre o México e os EUA. 

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A frase levou os torcedores mexicanos à loucura. Mas, nos bastidores da cartolagem dos EUA, ela evidenciou um problema: Trump. O presidente é interpretado como um obstáculo real a ser superado se os americanos de fato querem sediar a Copa de 2026, ao lado de México e Canadá. 

Com mais de 40 estádios à disposição nos três países, promessas de renda inédita e uma infraestrutura invejável, a candidatura conjunta da América do Norte é considerada como a franca favorita para vencer a corrida por organizar a Copa, a primeira com 48 seleções. A outra opção é Marrocos, país que já tentou em quatro oportunidades sediar o evento, sem sucesso. 

A votação está marcada para ocorrer no dia 13 junho, em Moscou. Será também a primeira vez que todos as 209 federações nacionais votarão para escolher a sede da Copa, um privilégio que se limitava aos 24 membros do Comitê Executivo da Fifa e alvo de escândalo de corrupção. 

Mas, nos últimos meses, os comentários polêmicos de Trump sobre política externa começaram a contaminar a campanha que era considerada como “imbatível”. Ao chamar os países africanos de “buracos de merda”, há menos de dez dias, o presidente americano disseminou o pânico entre os cartolas dos EUA. Afinal, será da África que virão mais de 25% dos votos que decidem a eleição. 

Na sexta-feira, dia 2 de fevereiro, a Confederação Africana de Futebol (CAF) se reunirá e irá considerar um apoio dos 54 votos do continente para a candidutura do Marrocos. “Existe solidariedade na África”, disse ao New York Times na semana passada o presidente da Federação de Futebol de Comores, Hassan Waberi. “Nos sentimos insultados”, afirmou. “Os africanos apoiarão o Marrocos”, confirmou Kwesi Nyantakyi, vice-presidente da CAF.  

Mas Trump também criou problemas ao tentar criar barreiras para a entrada de imigrantes muçulmanos no país. Na Fifa, outros 15 votos fora da África são de países com maioria de sua população muçulmana. 

Na América do Sul, não existe ainda uma posição comum da Conmebol. Mas com as sanções americanas contra a Venezuela, um consenso poderá ser difícil. 

O mal-estar dos dirigentes americanos ficou ainda mais nítido quando, no início do mês, uma pesquisa de opinião revelou que a confiança do mundo em relação à liderança americana era a mais baixa de todos os tempos. Segundo o levantamento da Gallup em 134 países, apenas 30% dos entrevistados afirmam quer uma visão positiva do governo americano. Com Barack Obama, a taxa era de 48%. A mesma pesquisa revelou que o mundo confia hoje mais na Alemanha e na China que e Trump. 

Apesar do favoritismo total e de uma infraestrutura muito superior ao concorrente do Norte da África, o presidente da US Soccer (a federação americana de futebol), Sunil Gulati, sabe do desafio que Trump representa. Para ele, a candidatura “não é apenas sobre estádios e hotéis”. “É sobre a percepção que existe sobre os EUA e estamos em um momento difícil no mundo”, afirmou. 

“Apenas podemos controlar alguns fatores. Não podemos controlar o que ocorre na Coreia, com as embaixadas em Tel Aviv ou acordos climáticos”, disse o dirigente, em uma referência às polêmicas decisões política de Trump nos últimos meses. “Não podemos controlar a política”, admitiu Gulati, há poucos dias em Londres. 

Os organizadores da candidatura garantem o “total apoio de Washington” e também prometem que, se a Copa for levada à América do Norte, ela será a mais bilionária da história. Em dificuldades financeiras, a promessa de dinheiro soa como música nos corredores da Fifa.  

Mas, em março, outra exigência da entidade promete causar atritos. A Fifa pedirá que os governos garantam a suspensão de vistos para quem for ao torneio em 2026, medida que irá no sentido contrário da política de Trump de endurecer as condições de entrada no país. 

Pelas contas dos americanos, eles terão de somar 104 votos para serem escolhidos. Mas fontes ligadas à candidatura de Marrocos acreditam que existe um espaço para roubar alguns votos da candidatura dos EUA. 

Para isso, o governo marroquino já contratou um dos maiores especialistas em comunicação, Mike Lee, que levou o Rio de Janeiro a ganhar os Jogos de 2016 e garantiu a Copa do Mundo para o Catar em 2022. 

Os marroquinos alegam que apenas não ficaram com a Copa de 2010 por conta de um pagamento de US$ 10 milhões que os sul-africanos fizeram para comprar votos na Fifa. 

Dentro da entidade, porém, há quem duvide da imparcialidade do presidente Gianni Infantino. Um de seus principais cabos eleitorais, em 2016, foi justamente Gulati, que agora quer uma retribuição.

Além disso, existe um sentimento entre os dirigentes do Conselho da Fifa de que a entidade precisa compensar os americanos pela decisão de dar a Copa de 2022 ao Catar, e não para os EUA. 

PERIFERIA DA BOLA

Irrelevantes no futebol, foram justamente países da periferia do mundo da bola - muitos dos quais qualificados por Donald Trump como “países de merda” - que serviram como “currais eleitorais” para os últimos três presidentes da Fifa e foram decisivos em inúmeras votações na entidade. 

Quem inaugurou a estratégia foi João Havelange. Em 1974, ele venceria as eleições para a presidência da Fifa apostando no apoio da África, Ásia e Oriente Médio. Em troca, prometeu que enviaria equipamentos esportivos às miseráveis federações nacionais e, acima de tudo, abriria novas vagas para os africanos na Copa do Mundo. A manobra funcionou e o perpetuou no poder por 24 anos. 

Seu sucessor, Joseph Blatter, reforçaria a mesma tática. Além de ampliar a Copa do Mundo para 32 times, o suíço criou um amplo programa de transferência de recursos da Fifa para as federações mais pobres. Com o dinheiro nem sempre alvo de uma auditoria, Blatter repetiu o feito de Havelange e acumulou vitórias nas urnas, sempre com ampla maioria entre os africanos. 

Desesperados, países europeus chegaram a questionar a forma pela qual as decisões eram tomadas na Fifa e lideraram uma tentativa de “golpe” contra Blatter. Mas, sem o apoio da África, foram obrigados a conviver com o suíço até 2015, quando seu reinado seria interrompido depois de uma intervenção do FBI.  

Em 2016, com a Fifa em seu pior momento, o então candidato Gianni Infantino era o símbolo do futebol europeu. Mas sabia que teria de ter o voto africano se quisesse ser eleito.

Ainda que se apresentasse como o modernizador da entidade, sua tática para convencer seu eleitores repetiu o receituário de Havelange: anunciou uma maior distribuição do dinheiro da Fifa para as pequenas federações e, de uma forma polêmica, ampliou a Copa do Mundo para 48 seleções. Dessas, pelo menos nove serão africanas. 

Resultado: Infantino foi eleito presidente da Fifa, superando supostos favoritos e mesmo representantes de países em desenvolvimento. 

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