JF Diorio/AE - 27/7/2000
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Túlio Maravilha não desiste nunca

Aos 42 anos e em busca do milésimo gol, atacante estreia neste domingo na Quarta Divisão

Raphael Ramos, Jornal da Tarde

06 Maio 2012 | 15h05

SÃO PAULO - Exibido desde sempre, Túlio Maravilha, 42 anos, acostumou-se a estar nas manchetes dos jornais. A última foi sobre os indícios de seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso pela Polícia Federal em fevereiro durante uma operação cujo objetivo era desarticular a exploração de máquinas caça-níqueis em Goiás, mas que acabou atingindo governadores e o Congresso Nacional. O jogador é acusado de ter recebido R$ 30 mil de Cachoeira e ainda ter oferecido a contratação do contraventor como funcionário fantasma de seu gabinete durante o período em que foi vereador em Goiânia. "A política ficou no passado. Eu não tenho nada a falar sobre isso", esquiva-se Túlio quando perguntado pelo JT sobre as denúncias contra ele.

Mas quando o assunto é futebol, aí ele fala - e pelos cotovelos. Túlio adora discorrer sobre o seu currículo recheado de números, conquistas e histórias bizarras. E também sobre o projeto do milésimo gol - segundo suas contas nada confiáveis, é claro. Para alcançar essa marca que só Túlio parece levar a sério, ele foi parar no Tanabi Esporte Clube, pequeno time que leva o nome da cidade de 25 mil habitantes localizada na região oeste do Estado, a 477 quilômetros da Capital. Ele será a grande atração da Quarta Divisão do Campeonato Paulista, que começa neste fim de semana - ontem foram disputados os primeiros jogos.

A competição é praticamente um torneio de várzea (mas com o carimbo da Federação Paulista), tamanha a precariedade dos estádios e a ruindade das equipes. Só na primeira rodada, quatro jogos serão disputados com portões fechados à torcida porque os estádios não foram liberados. E uma partida teve de ser cancelada depois de o Olé Brasil anunciar sua desistência do campeonato.

Túlio fará a sua estreia oficial no Tanabi hoje, às 10h, contra o AEA-Araçatuba, no Estádio Municipal Prefeito Alberto Victolo. A expectativa na cidade é enorme. São esperadas pelo menos cinco mil pessoas na partida. "Aqui todo mundo só fala desse jogo", conta Irineu Alves Ferreira Filho, presidente do Tanabi.

Ele resolveu contratar Túlio após ver o atacante anunciar pelo Twitter que estava procurando clube depois de encerrado o seu contrato com o CSE de Alagoas. "Sempre admirei o futebol do Túlio, então resolvi ajudá-lo a chegar ao milésimo gol. Liguei para ele e em dez minutos de conversa fechamos o negócio", diz Irineu.

O acordo prevê que Túlio receberá R$ 10 mil por jogo. Até agora ele já disputou dois amistosos e marcou quatro gols com a camisa do clube. "No primeiro jogo, o pessoal de uma concessionária de carros da cidade foi quem deu o dinheiro. No segundo, alguns comerciantes da região se uniram e conseguiram juntar os R$ 10 mil. Para esse terceiro jogo, também estamos tentando arrecadar o dinheiro com uma turma. O clube não tem dinheiro", conta o presidente.

Mas vale tanto esforço? "Lógico. Nossa cidade é pequena e muita gente nunca nem tinha ouvido falar nela. Agora todo mundo conhece Tanabi por causa do Túlio", justifica Irineu. E, de fato, o atacante mexeu com a rotina da cidade. Na sua primeira visita a Tanabi, desfilou em carro aberto pelas ruas do centro e atraiu a atenção até de moradores de municípios vizinhos.

"A minha missão hoje é divulgar o clube em que estou, a cidade e os patrocinadores. Não tem visibilidade melhor do que o futebol e eu sou essa vitrine para todo mundo explorar", explica Túlio, sempre imodesto.

Ele, no entanto, está longe de participar do cotidiano da pacata Tanabi. Uma das imposições que fez para assinar com o clube foi que se apresentasse ao treinador apenas às sextas-feiras - o resto da semana o atacante passa no Rio de Janeiro, onde mantém a forma em uma academia. "É claro que não vou correr os 90 minutos, como um garoto de 20 anos. Minha condição física atual me permite correr apenas 15 metros para dar o pique em direção ao gol. O que vai valer mesmo é a experiência, o posicionamento e a presença de área. É isso que faz a diferença."

Para o veteraníssimo goleador, nem mesmo a falta de entrosamento com os seus novos companheiros pode atrapalhar. Qualquer tipo de problema será compensado com o faro de gol, que, segundo ele, continua em dia. "Com mais de 20 anos de profissão, a gente já sabe todas as questões de parte tática ou de esquemas de jogo. O que eu preciso é fazer um treinamento especial na academia, com musculação e força, para aguentar o ritmo dos jogos e marcar os gols."

Os campos esburacados e acanhados que terá pela frente na Quarta Divisão não parecem incomodar Túlio. "Depois de 2003, 2004, quando rodei por vários clubes pelo Brasil, joguei em muito campo pequeno. Estou acostumado."

Túlio realmente acumulou quilometragem de sobra nessa sua saga insana em busca do milésimo gol. Depois de ser o destaque do Botafogo na conquista do até hoje único título brasileiro do clube carioca, em 1995, e defender a Seleção Brasileira na Copa América daquele ano, ele nunca mais conseguiu ter rendimento de "craque", status que ganhou da torcida alvinegra.

Assim, passou a perambular por clubes das mais diversas divisões e estados. Sempre vivendo das glórias do passado, chegou a jogar fora do País - passou, por exemplo, por Újpest, da Hungria, Jorge Wilstermann, da Bolívia, e Al-Shabab, dos Emirados Árabes Unidos.

Quanto mais fraco o adversário, melhor. Afinal, ele teria mais chances de acumular gols para chegar ao milésimo. E Túlio não tem nenhuma vergonha em assumir isso. "Minha meta é chegar ao milésimo gol. Não tenho mais o objetivo de conquistar títulos ou ser artilheiro. Meu currículo já está pronto, falta só o milésimo gol para fechar com chave de ouro."

Esse tão sonhado gol ele quer marcar pelo Botafogo. Seria uma espécie de prova de gratidão ao clube que o tornou famoso. Pelas suas contas, já marcou 990. Quando faltarem sete, ele deixará o Tanabi e passará a defender um time formado por atletas das categorias de base do Alvinegro. A ideia é fazer uma excursão pelas regiões Norte e Nordeste do País e deixar o "grand finale" para o Engenhão.

Como bom marqueteiro que é, Túlio já planeja até o lançamento de uma série de produtos relacionados ao seu feito. "Vai ter camisa, boné e chaveiro do gol mil. Quero também ter uma marca de preservativos. Será a camisinha Maravilha."

Depois, seus planos são continuar trabalhando no futebol, mas como comentarista em alguma rádio ou emissora de televisão. "Quero mostrar toda a minha experiência para as câmeras, microfones e os telespectadores do Brasil todo", diz Túlio, com muito mais jeito para humorista do que jogador de futebol.

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