Domicio Pinheiro/ Estadão
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Ugo Giorgetti: Oitenta anos do Rei Pelé

No aniversário de Pelé, imagens de sua carreira como o melhor jogador de futebol da história

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 08h38

Meu caro Pelé, eu também estou ficando velho e confesso que sinto em mim um sem número de mudanças. Não vou cometer a grosseria de perguntar se também você sente essas incômodas transformações, porque seria uma forma de nos colocar no mesmo patamar, o que é inconcebível. O que eu queria lhe dizer é que já está bem longe o tempo em que eu exigia que você fizesse, pensasse e falasse exatamente o que eu queria ouvir da sua boca. 

Queria que você falasse de política, de racismo, do governo, das injustiças sociais... isso é, queria que você falasse em meu nome, se arriscasse em meu nome, se insurgisse em meu nome. Comparava você a Muhammad Ali, ele também um ídolo incomparável, que arriscava até a prisão e a perda do título para fazer o que achava correto. Eu não levava em conta a diferença de países entre o seu País e o dele, reconhecia os riscos dele, mas nunca os seus. O que era absurdo, porque você corria riscos e muitos. 

Assim como eu, você passou muito tempo de sua vida adulta sob uma ditadura. Você nunca se rebelou, nem eu. Aceitamos com diferenças de cerrar os dentes mais forte ou menos forte o governo que nos impunham. Por que eu achava que você estava à salvo de punições que poderiam me atingir? Não acho verdade que quem cala consente. Quem cala, às vezes, não pode falar, simples assim. Tem medo e se recolhe, porque a ditadura causa medo, pois ninguém está ao abrigo da lei, mas à disposição do arbítrio. 

Mesmo quando você esboçava um gesto ou palavra, eu entendia mal. Lembro da noite dos mil gols quando você, agarrado a uma bola, lançou uma mensagem de salvação das crianças do Brasil. A cena me pareceu patética. Mal sabia eu que um dia chegaria em que um discurso daqueles seria alvo das maiores acusações nas redes sociais, e não só nelas. Mal sabia eu que chegaria um dia em que aquele discurso poderia destruir uma reputação e prejudicar uma carreira. Mesmo do maior jogador do mundo. 

Muita água passou sob a ponte Pelé, e hoje compreendo meu erro. Você não tinha obrigação de fazer coisa alguma, a não ser jogar bola. Porque essa era a contribuição maior que você poderia dar. E sabe quando ela me apareceu nitidamente? Agora, no meio dessa pandemia. Começaram os canais, na falta do futebol no campo, a reprisar partidas memoráveis, jogos incríveis, conquistas gloriosas. E claro, você reapareceu. Reapareceu depois de tantos anos na forma de um garoto, depois de um homem feito, fazendo o diabo num campo de futebol. E, principalmente, nos fazendo ver o que perdemos. 

Sua volta exibida várias vezes, para que cada um apreciasse seu talento, sem mais a paixão das velhas disputas, mas apenas fruindo a incomparável beleza de seu futebol. É isso que aprendi sobre você tantos anos depois. Tinha visto tudo aquilo, mas nunca sob a luz do País que hoje me cerca. E sob essa luz você adquire mais força. Com seu futebol, passamos melhor aqueles anos duros?

Logo a pandemia falsamente acabou e, talvez mais perigosa do que nunca, trouxe o futebol real de volta e com ele você voltou para os arquivos das emissoras. O que mais me choca é ouvir o que diz hoje a maioria dos jogadores de futebol e então, pasme Pelé, sinto falta das suas frases, das suas declarações e opiniões que eu tanto condenava. Como eram sábias diante do que vejo por aí! O lado bom é que se a lenda está momentaneamente dormindo nos arquivos das TVs, o ser humano está aí vivíssimo e fazendo 80 anos. Você é, foi, e será, tenho certeza, o maior jogador de futebol de todos os tempos. E o tempo ajuda consolidar essa verdade, Pelé.

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