Valery Hache / AFP
Valery Hache / AFP

Um ano após a morte de Maradona, tamanho e destino da herança deixada pelo astro ainda são incertos

Diego teria construído fortuna de US$ 100 milhões (R$ 560 milhões) distribuídos em 12 países; site Celebrity Net Worth aponta que há um patrimônio líquido estimado de US$ 500 milhões (R$ 2,8 bi)

Luciana Rosa / Buenos Aires, especial para o Estadão

25 de novembro de 2021 | 08h00

Que Maradona levou uma vida de excessos não é nenhuma novidade. O talento para o futebol fez com que pudesse financiar uma vida de luxo e excentricidades, na Argentina ou em qualquer lugar. A desordem do camisa 10 argentino com relação à sua vida pessoal viu-se refletida na relação conturbada com as drogas e na quantidade de filhos que lhe restaram por reconhecer ainda após sua morte, são seis, ou aqueles que puderam contar com seu sobrenome no registro apenas depois da intervenção da Justiça.

Com um patrimônio de cifra incerta, o que se especula, com base nos negócios que mantinha, é que o craque deixou uma fortuna estimada de US$ 100 milhões (R$ 560 milhões) distribuídos em 12 países. 

Já uma estimativa do site Celebrity Net Worth, baseada no cálculo de ativos, aponta que Diego Maradona tinha um patrimônio líquido de US$ 500 milhões (R$ 2,8 bi) no momento de sua morte. O portal especializado em dar detalhes sobre a fortuna de famosos, baseia-se em "análises financeiras, estudos de mercado e fontes internas" para chegar aos seus cálculos. A família não comenta sobre esse assunto. 

A publicação remarca que Maradona ganhou dezenas de milhões de dólares em salários e patrocínios durante sua carreira como jogador e treinador e que grande parte dessa riqueza foi produzida em sua passagem pelo Napoli, da Itália. Segundo reportagem veiculada no jornal americano The New York Times em 1990, o jogador faturava uma média de US$ 13 milhões por mês entre salário e patrocínios.

Já a relação de bens publicada no portal Infobae deste ano, soma a isso empresas de roupas nos Estados Unidos, ações em hotel de luxo em Cuba, dinheiro guardado no México, onde trabalhou como técnico e também na Venezuela, onde foi comentarista esportivo. Diz ainda que o craque contaria com fontes de renda na China, provenientes de suas escolas de futebol baseadas no país. Em Dubai, além de carros de luxo, haveria duas caixas fortes de conteúdo desconhecido.  

DÍVIDAS

Apesar de ser uma máquina de gerar dinheiro e propaganda, Maradona era muito bom também em gastá-lo. Por sua generosidade com os amigos e a falta de uma administração regrada de seus bens, muitos são os que especulam que o craque tenha morrido praticamente pobre. Quando perdeu a vida, aos 60 anos, em 25 de novembro de 2020, Maradona era técnico do Gimnasia y Esgrima. 

Além disso, em 2005, o governo italiano afirmou que o craque devia cerca de 26 milhões de euros de sonegação de impostos. Essas taxas teriam tido origem em sua passagem pelo Napoli e que até hoje a dívida careceria de pagamento. Fontes próximas ao ídolo na Argentina afirmam que, ainda que a fortuna estimada seja suficiente para ficar em dia com o fisco italiano, pouco restaria para ser dividido entre seus herdeiros. 

DIVISÃO DA HERANÇA

Maradona tem atualmente cinco filhos reconhecidos, entre eles Gianinna, de 31 anos, e Dalma, de 33, ambas fruto do casamento de 20 anos com Claudia Villafañe, sua primeira mulher. O craque reconheceu também Diego Junior, de 34 anos, e Jana, de 24, após duras batalhas judiciais com suas mães. No caso do caçula, Diego Fernando, de sete anos, não foi preciso intervenção da Justiça para o reconhecimento em 2013. Maradona manteve, inclusive, uma boa relação com a mãe do garoto, Verónica Ojeda, após o término do namoro. 

Em 2019, o advogado de Maradona na época, Matías Morla, informou que o astro se responsabilizaria pela paternidade de outros três filhos gerados em relações casuais em Cuba, onde permaneceu por quatro anos para se reabilitar de seu vício em cocaína. Ele e o comandante Fidel Castro eram amigos. Existe outro processo em andamento na ilha caribenha pelo reconhecimento de um quarto filho cubano.

Já em território argentino, são dois os que brigam pela inclusão no clã Maradona: Santiago Lara, de 19 anos, e Magalí Gil, de 23. Ambos já entraram na Justiça para garantir sua inclusão na divisão da herança de Diego. Os advogados de Santiago pediram a exumação do corpo do jogador para que seja realizada a coleta de amostras que permitam a realização de exame DNA.

Enquanto não se define quantos são os herdeiros totais do camisa 10, sua herança ficará praticamente intocada, com exceção da realização de um leilão de bens que acontecerá em dezembro. A Justiça da Argentina autorizou que se vendam alguns de seus bens sem valor sentimental para a família para que, com esse dinheiro, seja possível financiar os gastos com a manutenção de todos os custos que precisam ser pagos enquanto ele viveu no país.

Segundo a Justiça, por mais que Maradona não tenha deixado um testamento e, em 2019, se tenha difundido um vídeo do craque afirmando que doaria toda sua fortuna e não deixaria nada para ninguém, sua herança irá para o bolso dos filhos. 

LEILÃO

Já pensou em ter uma cafeteira que foi utilizada por Maradona, um ralador, massageador de pescoço, umidor de charutos ou quem sabe poder exibir uma chuteira da coleção do craque argentino na pelada de domingo? Pois é, ainda que estes não sejam os principais objetos que vão a leilão no próximo dia 19 de dezembro, no que a administradora Adrian Mercado já anunciou em sua página web "O leilão do 10", eles estão entre as múltiplas opções de remate.

Logo após a liberação dada pela juíza Luciana Tedesco del Rivero, no último dia 15 de outubro,  começou-se a organizar o pregão que será aberto à participação de pessoas de qualquer parte do mundo através do streaming. Segundo o entendimento da juíza, o leilão de três veículos de luxo, dois imóveis e alguns objetos pessoais menores do ídolo que estão armazenados em containers neste momento, e estando todos os herdeiros de acordo, não fere o próximo movimento de distribuição da herança.

O responsável pela sucessão, Sebastián Baglietto, e o advogado de Jana Maradona selecionaram o que entrará no leilão, logo após a autorização dada pela juíza. "Selecionamos esteiras, escaladores, artigos de uso cotidiano que Diego mantinha em Dubai, televisores, roupas esportivas da marca que o vestia e algumas com a assinatura dele. Ficaram fora todos os prêmios, camisetas com a qual tenha sido presenteado e muito mais", explicou o advogado ao portal Infobae. 

Foram colocados à disposição uma casa localizada no bairro Villa Devoto, onde moravam seus avós, os pais do campeão mundial Dalma Salvadora Franco (conhecida no país como Doña Tota) e Diego Maradona (chamado carinhosamente de Don Diego). Uma BMW M4 "personalizada com luzes e sirene de patrulha policial" e com a insígnia "the 10" na pintura, estão entre os bens mais valiosos. 

PARA ONDE VAI O DINHEIRO?

Ainda é difícil calcular um valor total que a família deve arrecadar no leilão. No entanto, é possível chegar a uma estimativa tendo como base o valor das propriedades, como a casa que Maradona deu de presente aos pais, que estaria beirando os US$ 900 mil (R$ 5 milhões). Ou um apartamento em Mar del Plata que tem preço inicial de US$ 65 mil (R$ 364 mil).

Já com relação aos veículos, irão a prego uma mini van Hyundai H1 modelo 2018 com a qual Maradona costumava percorrer as ruas de Buenos Aires quando estava na cidade. Seu preço começa em US$ 38 mil (R$ 213 mil). O BMW M4, de 2019, com a assinatura do camisa 10 na lataria, tem um valor base de US$ 165 mil (R$ 925 mil). É um carro para excêntricos como Maradona, já que contém luzes e sirene, tal qual uma patrulha policial. 

Para aqueles que preferem não chamar tanto a atenção, está a outra BMW, uma 750I de 2020, taxada em US$ 225 mil (R$ 1,2 milhão). Um preço alto, mas justificado pelo escasso número de máquinas desse tipo na Argentina. Estima-se que existam apenas cinco no país, devido a dificuldade de importação.

Os fundos arrecadados deverão servir para "fazer frente ao pagamento das inúmeras dívidas existentes e dos gastos de conservação do resto do acervo, cuja estimativa se soma à planilha de gastos mensais" dos herdeiros, esclarece o documento assinado por Tedesco autorizando o leilão. O dinheiro obtido com a venda dos bens do craque não poderá ser dividido entre os herdeiros, seu único fim será para pagar dívidas e cobrir gastos, isso porque até fevereiro de 2022 rege uma proibição para utilizar o dinheiro da sucessão. A causa do bloqueio dos bens é a espera pela resolução da justiça com relação às investigações de paternidade de Diego com relação a dois jovens. 

PEÇAS DE FUTEBOL 

Com relação a peças esportivas, não há nada com um valor histórico particular, mas é possível encontrar coisas interessantes como uma coleção de camisetas dedicadas ao ídolo por clubes como Boca Juniors, River Plate, Manchester City, da seleção da Bulgária, ou do chinês Shangai Shenhua, da seleção argentina de hockey, do Club Jeonbuk, do Napoli, do Atlético Mineiro e uma versão de camiseta de treino da seleção brasileira. 

Estão também camisas do Boca autografadas por Palermo e Schiavi, ex-jogadores, uma regata Nike Advantage com a assinatura de Roger Federer, do tênis. Diversas bolas de futebol desenvolvidas pelo artista colombiano Mr. Bling dedicadas ao camisa 10 argentino. Alguns tênis esportivos e também chuteiras utilizadas pelo craque quando já não era mais jogador profissional.

Um dos objetos com um pouco mais de história talvez seja mesmo o quadro com o cartaz do documentário realizado pela Gazzeta Dello Sport e produzido pelo canal italiano RAI em 2006, com a assinatura de Maradona. 

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