Raphael Ramos/Estadão
Estádio do Corinthians ainda está em obras Raphael Ramos/Estadão

Um ano depois da Copa, estádios brasileiros ainda têm problemas

Itaquerão não está 100% pronto, público do Maracanã cai por causa dos preços e faltam jogos importantes em outras arenas

Paulo Favero e Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 07h00

Exatamente um ano atrás Brasil e Croácia davam o pontapé inicial da Copa do Mundo. Passado esse tempo, o País se vê diante de uma crise na gestão das arenas, seja para colocar mais público nas arquibancadas, para receber jogos ou para finalizar obras que eram para ter terminado ainda em 2014.

No Itaquerão, por exemplo, é possível ver muitas áreas inacabadas. No prédio Oeste, concebido para ser o mais luxuoso, um andar inteiro – o oitavo – ainda está fechado para reformas. A ideia é que o setor seja uma espécie de shopping center e, assim, gere muita receita para o clube.

Mas somente na última partida do Corinthians no estádio, no dia 31 de maio, contra o Palmeiras, é que foram inauguradas as primeiras lanchonetes fixas do local. Antes, havia apenas bares provisórios em que se vendiam lanches frios. As lojas no conceito megastore previstas no projeto original ainda não saíram do papel.

O luxo das escadas rolantes e banheiros com piso de mármore e telas de tevê nas pias contrasta com muita poeira, andaime, sacos de cimentos e tubulações à mostra. A promessa da diretoria e da construtora Odebrecht era que as obras ficariam prontas em janeiro. Depois o novo prazo foi maio. Agora, não há previsão de quando o estádio ficará 100% pronto.

O palco de abertura da Copa custou R$ 1,1 bilhão. A partir do mês que vem o Corinthians terá de pagar os empréstimos feito durante as obras. Ao BNDES, serão prestações mensais de R$ 5 milhões. A partir de dezembro de 2016 deverão ser pagos mais R$ 5 milhões por mês do financiamento feito com a Caixa Econômica Federal.

O dinheiro não sai do caixa do clube. Toda a arrecadação de bilheteria, publicidade, venda de camarotes e até estacionamento do estádio vai direto para um fundo responsável por pagar essas prestações. A arrecadação média de cada jogo tem sido de cerca de R$ 2 milhões brutos. Mesmo com protestos de parte da torcida, principalmente as organizadas, a diretoria já avisou que não vai diminuir o preço do ingresso. Se a arrecadação cair muito, há o temor de que o clube não consiga quitar os empréstimos. O prazo é de 12 anos.

Duas receitas são consideradas fundamentais nos próximos anos: os naming rigths da arena e os CIDs (Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento). Com a venda do nome do estádio, o clube espera faturar R$ 400 milhões, mas diante da dificuldade em encontrar interessados já admite a possibilidade de diminuir a pedida.

Os CIDs foram emitidos pela Prefeitura no valor de R$ 420 milhões. O problema é que o Ministério Público contesta na Justiça o incentivo fiscal dado à obra e, por isso, não tem havido empresas dispostas a comprar os papéis. Uma coisa de que o Corinthians não pode reclamar é de ausência de público – problema frequente em outros estádios da Copa, principalmente por causa do ingressos caros no melhor “padrão Fifa”. Mesmo em locais que costumavam ter grande presença de público, como Maracanã e Mineirão, as arquibancadas vazias dão uma nova paisagem aos campos.

A maior reclamação dos clubes é que concessionárias e federações locais ganham uma fatia cada vez maior nas rendas dos jogos, o que faz com que as equipes evitem atuar nos estádios da Copa.

E em algumas arenas de cidades que não possuem times na Série A, como o Mané Garrincha (Brasília), Arena das Dunas (Natal) e Arena Amazônia (Manaus), a dificuldade maior tem sido atrair jogos importantes para dar uso aos estádios.

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Copa do Mundo, só uma grande festa

Nesta sexta se completa um ano da abertura da Copa no Brasil e fica claro que era apenas uma grande festa, pois o Mundial não veio para mudar o transporte público, as cidades ou a realidade do País. É uma certeza que fica e que tem de ser aprendida para os Jogos Olímpicos. Eu não consigo aceitar que a modernização dos aeroportos, por exemplo, tem a ver com a Copa. Isso era necessário com ou sem ela.

Pedro Trengrouse, professor de MBAs FGV, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 09h39

Um outro ponto é que o futebol brasileiro não aproveitou a Copa para se reestruturar. Tivemos a construção de novas arenas, mas vemos agora que o futebol nacional está com dificuldade de levar público para os estádios. Por outro lado, as federações estão cada vez mais ricas enquanto os clubes cada vez mais pobres.

Acredito que diante desse grande escândalo de corrupção no futebol, o que fica claro é que por trás das entidades esportivas existe uma estrutura ultrapassada. Um choque de democracia, transparência e controle social é fundamental. O sistema precisa mudar. Um dos legados é a certeza que essa estrutura não serve para o século 21. 

Quem precisa comprovar o legado da Copa são os governantes, que têm de provar que suas promessas foram cumpridas. Inclusive, como parâmetro, podemos pensar no caso da Baía de Guanabara. Desde a Eco-92 que prometem a despoluição. Mas até hoje não ocorreu e não será feita para a Olimpíada. O povo brasileiro já devia ter aprendido isso. A gente mora aqui e merece os investimentos no dia a dia. Não é só porque vai ter um evento internacional que precisamos arrumar a casa.

Acho que é possível esperar uma grande festa nos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro, com muitos estrangeiros, mas talvez com menos empolgação em comparação à Copa, porque o futebol é uma paixão nacional. (Pedro Trengrouse, professor de MBAs e FGV)

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Seleção troca Felipão por Dunga após o 7 a 1 contra a Alemanha

Mas fracasso na Copa provoca apenas essa mudança na comissão

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 09h21

Pulverizada pela Alemanha com o 7 a 1 e empacotada pela Holanda por 3 a 0, a seleção brasileira não passou por uma revolução após a Copa. José Maria Marin, ainda na presidência da CBF, e o vice Marco Polo Del Nero despacharam Felipão por volta da meia-noite do dia 13 de julho de 2014, poucas horas depois de os alemães levantarem a taça no Maracanã.

Com a queda de Felipão, a CBF resolveu entregar o comando ao ex-goleiro Gilmar Rinaldi que assumiu o cargo de diretor de seleções ainda na condição de empresário na atividade de compra e venda de jogadores. Rinaldi resgatou Dunga, esquecido desde a queda na Copa de 2010 quando o Brasil foi eliminado pela Holanda nas quartas.

A volta de Dunga, em parceria com Rinaldi, causou estranheza entre os treinadores. A maioria era favorável à realização de um congresso para definir o rumo, entre outros temas relevantes, da seleção. “Poderíamos fazer um fórum, um amplo debate, para discutir que caminho deveríamos seguir”, disse Vanderlei Luxemburgo, logo após a Copa.

“Apesar de a ferida ainda estar aberta, estamos dispostos a colaborar com um congresso nacional para propor soluções ao futebol brasileiro”, disse Carlos Alberto Parreira, um dos comandantes da seleção ao lado de Felipão no Mundial. Um ano depois, nenhum congresso foi feito. Nenhuma nova proposta surgiu. A CBF deu as rédeas a Dunga e à espera de bons resultados. Dunga emendou dez vitórias em dez jogos amistosos, com um grupo de “sobreviventes” da Copa e novatos. Na CBF, Marin, antes de ser preso na Suíça, fez o seu sucessor Marco Polo Del Nero. (Luis Antônio Prósperi)

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