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Um árbitro, finalmente

O árbitro sempre foi um dos personagens do futebol, de fazer sombra a jogadores

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 04h00

Vi Grêmio x Athletico-PR no campo do Grêmio pela Copa do Brasil. Fiquei curioso com a atuação do árbitro e, para me certificar do nome, fui ao Google. Havia várias informações sobre lances, gols, etc. Sobre o nome do juiz havia duas informações perdidas no meio dos relatos da partida. Uma chamando o juiz de Marcelo Henrique de Lima outra de Marcelo de Lima Henrique. Essa dualidade de nomes, talvez já corrigida, parece insignificante, mas não é. Revela a desimportância, menosprezo e superficialidade desse personagem do futebol.

No entanto, seja Marcelo Henrique de Lima, seja Marcelo de Lima Henrique, esse juiz me impressionou a ponto de ir pesquisar seu nome, que na hora da transmissão me escapou. Finalmente vi um árbitro em ação. Foi assim: André, avante do Grêmio, lançou-se área adentro e, acossado por um defensor, caiu. A torcida bradou e Renato Gaúcho, com sua habitual segurança, para não dizer arrogância, pôs-se também a bradar convocando, aos berros, que o juiz consultasse o VAR. 

O juiz, também aos berros, se recusou a aceitar a intimidação de Renato. Ao contrário, repetiu várias vezes: “Não foi nada!”. E fez o jogo seguir sem consultar VAR algum. Essa atitude me encheu de súbita alegria e esse árbitro subiu na minha consideração. Não sei se o VAR não lhe soprou nada no ouvido, o que teria feito enorme diferença.

Se o VAR o tivesse convidado para um exame do lance e ele tivesse recusado por convicção, subiria ainda mais na minha admiração. Não sei se seria possível esperar isso dele, ou de qualquer árbitro. Eu sempre espero. Mas digamos que o VAR não o tivesse advertido de nada. Ainda assim sua resposta a Renato foi imediata, irrevogável e não deixou margem a discussões. O jogo continuou sem nenhuma interrupção. 

Eu, pelo menos, não o vi levar a mão ao ouvido no gesto que ficou tão comum, mas sua atitude dá margem a que se pense que ele, árbitro, reagindo imediatamente à reclamação de Renato e da torcida, tenha influído no próprio VAR. Quero dizer que, ao ver sua segurança, os responsáveis pelo VAR tenham se inibido de o interpelar e talvez fazê-lo voltar atrás. Fez tudo com personalidade de juiz dos velhos tempos.

Restaurou por momentos esse personagem tão desvalorizado, tão subalterno, tão insignificante que se tornou o juiz depois do VAR. Se o ganho, com a chegada do VAR, foi a ilusão de justiça, a perda foi mais real para o futebol, pois perdeu-se um personagem do jogo. 

A beleza do futebol repousa sobre seus personagens. O árbitro sempre foi um dos mais proeminentes. Fazia sombra a jogadores famosos, sua entrada em campo era uma atração em si, acompanhada com ódio, reverência, respeito e até admiração pela torcida. Era uma atração a mais do futebol. Hoje é uma atração a menos. Essa é a verdadeira questão que o VAR coloca. Não é possível mais confiar em seres humanos, não é mais possível aceitar o erro. 

Erro, aliás não existe mais. O que existe é corrupção, isto é, erro intencional. É a moda do momento ver corrupção em tudo. E aí a máquina resolve. É típico de um país em que a responsabilidade pessoal é invariavelmente transferida para os outros.

O governo federal atribui seus erros à herança de governos passados, exatamente como fazem os governos estaduais e municipais. O futebol era uma rara exceção. Nele se via claramente quem tomava as decisões, quem assumia a responsabilidade na frente de todos. Essa exceção precisava acabar. Nada mais conveniente do que uma máquina para tomar decisões que evitamos tomar, não sabemos mais tomar ou temos medo de tomar. Por tudo isso agradeço a Marcelo Henrique de Lima, ou de Lima Henrique, falível, sujeito a erros, fraquezas, hesitações e incertezas, mas que preferiu se colocar acima da máquina.

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