Ramiro Furquim/AGIF
Ramiro Furquim/AGIF

Um chute para a discórdia: pênalti desperdiçado transforma herói em vilão

Trata-se de um momento em que o mundo parece parar e todas as atenções se voltam para a marca da cal

Lucas Gamboa, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2013 | 20h08

SÃO PAULO - Pato não é o primeiro nem será o último a cair em desgraça ao entrossar na cobrança de um pênalti. A marca da cal já foi cruel com muitos jogadores consagrados como ele. Basta uma volta rápida ao passado. O que será que se passava na cabeça de Zico quando ele, ainda frio, caminhou para a fatídica cobrança no México em 1986? Excesso de confiança? Dúvidas? Certezas? O Brasil era franco-favorito na tarde de 21 de junho de 1986. O camisa 10 da seleção vinha se recuperando de lesão no joelho e o jogo contra a França pelas quartas de final daquela Copa era um marco na carreira de Telê Santana e seus comandados - alguns deles haviam participado da campanha de 1982 na Espanha, quando o Brasil foi atropelado pela Itália de Paolo Rossi e uma das melhores seleções da história do futebol sucumbiu em Sarriá. Sócrates era um deles.

O 'Doutor', tido como líder no grupo, era o encarregado da primeira cobrança na decisão contra a França no Estádio Jalisco, no México. Caminhou com firmeza e muita frieza no olhar para abrir a disputa. O chute saiu alto e colocado, mas depois de defender a cobrança de Zico no tempo regulamentar, o goleiro Joel Bats estava lá novamente. Para mais quatro anos de tristeza e decepção dos brasileiros. A França de Platini avançou e conseguiu um merecido terceiro lugar. Quantos craques não tiveram suas histórias vitóriosas marcadas por erros pontuais?

A família Oliveira viveu isso algumas vezes. Raí, o irmão mais novo de Sócrates, também passou por essa trágica experiência. No segundo jogo da semifinal do Campeonato Brasileiro de 1999, o São Paulo recebeu o Corinthians no Morumbi. O placar marcava 3 a 2 para o time alvinegro. O São Paulo jogava pelo empate e nem duas penalidades foram suficientes para o Tricolor chegar à redenção. Novamente um goleiro para estragar a festa ou um batedor que não deveria estar ali naquele dia. Primeiro Raí arriscou no canto esquerdo. Dida cresceu e com propriedade espalmou a bola para escanteio. Na segunda oportunidade, já nos acréscimos, Raí optou por mudar o lado da cobrança, tentou o canto direito, e Dida estava lá novamente. O mesmo Dida que estragou a festa de Alexandre Pato nesta quarta-feira, pela Copa do Brasil.

QUEM NUNCA ERROU?

Alguns erros em penalidades marcam mais do que troféus e títulos. Jogadores consagrados tiveram suas carreiras arranhadas por lances como esses. Maradona, Platini, Cruyff e Evair, quem nunca errou, afinal? Alguns pênaltis têm mais peso que outros, e é isso que nos faz lembrar os perdidos e esquecer os convertidos. É o caso do ex-atacante Edmundo, artilheiro por onde passou. O atacante ficou estigmatizado pela última cobrança no Mundial de Clubes da Fifa de 2000. Vasco e Corinthians disputavam no Maracanã a primeira edição em novo formato da competição. Antes, o mundial sempre foi disputado entre o campeão da Europa e o campeão da Libertadores. Com campanhas parecidas, Corinthians e Vasco deixaram Real Madrid e Manchester United pelo caminho.

CHUTE DE EDMUNDO

Dida mais uma vez defendia a meta corintiana. Romário converteu a primeira cobrança para o Vasco, e Edmundo iria fechar a série. O Vasco já havia errado com Alex Oliveira. E Marcelinho Carioca perdeu a última cobrança do Corinthians. Edmundo precisava marcar para levar a decisão para novas cobranças. Dessa vez, o gigante Dida nada precisou fazer. Edmundo chutou para longe a chance do Vasco de conquistar o Mundial em casa.

A VEZ DE PATO

No Campeonato Brasileiro deste ano, o goleiro e também artilheiro Rogério Ceni errou quatro pênaltis seguidos, um deles com 'cavadinha'. O time do Morumbi vinha capengando nas últimas colocações da tabela. O posto de cobrador foi repassado a Luis Fabiano e Jadson, mas não corresponderam. Na noite desta quarta-feira, o jogo decisivo entre Grêmio e Corinthians pelas quartas de final da Copa do Brasil foi brindado com boas atuações dos goleiros Walter, do Corinthians, e Dida, dessa vez defendendo o Grêmio. O 0 a 0 nas duas partidas, levou o jogo decisivo para os pênaltis. Poderia ser dos pés do badalado Alexandre Pato a sobrevida corintiana na decisão. Pato ajeitou a bola e correu como quem estufaria as redes da arena gremista. De modo supreendente, recuou a bola rasteira, nas mãos o goleiro, numa frustrada tentativa de enganar um dos maiores pegadores de pênaltis que o Brasil já viu. Foi um chute para a discórdia, que transformou o atacante num vilão.

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