Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Imagem Mauro Cezar Pereira
Colunista
Mauro Cezar Pereira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Um debate fútil

A pauta é atual, séria, mas perdemos tempo discutindo se Renato jogou mais que CR7

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2017 | 03h00

Real Madrid e Grêmio nos proporcionaram a oportunidade de analisar o estágio dos representantes das duas regiões do planeta mais importantes na prática do futebol. Mas muito tempo e espaço foram dedicados a um tema fútil e nonsense: “Renato Gaúcho jogou mais do que Cristiano Ronaldo?” As carreiras dos dois camisas 7 resumem a questão. O português foi eleito melhor do mundo pela quinta vez, marca idêntica à do gênio Messi, é superatleta na acepção da palavra, além de reunir qualidades técnicas raras. Renato foi ótimo, mas não passa pela porta do clube de craques do qual o gajo faz parte.

Apesar de óbvio, o confronto forçado pelo próprio treinador tomou boa parte da imprensa. Houve gente levando a sério o debate (?), na prática mais uma bem-sucedida provocação de Renato ‘Gaúcho’ Portaluppi. Uma discussão sem sentido em meio ao Mundial de Clubes da Fifa. O 1 a 0 (gol de Cristiano Ronaldo) ilude desatentos. 

O campeão da Espanha e Europa não precisou de intensidade para dominar seu rival, em alguns momentos acuado, incapaz de ter a bola, de trocar três passes, impossibilitado de avançar além da linha divisória do campo.

O Real Madrid teve 62% da posse de bola, finalizou 20 vezes, sete delas na direção do gol. Em seus 38% de tempo com a pelota, o Grêmio só arrematou uma vez, para fora. Marcelo Grohe fez seis defesas. Keylor Navas, goleiro madridista, não foi sequer exigido.

O elenco do clube espanhol vale 9,4 vezes mais do que o gremista, segundo o site transfermarkt.com. Todos os titulares e a maioria dos reservas do Real Madrid jogam por seleções nacionais. No Grêmio, nem o craque do time, Luan, costuma ser convocado.

Mas não é só dinheiro que os separam. Há a ideia de jogo. O que se via na cancha era uma equipe competitiva no âmbito continental, mas frágil ante um adversário que se impunha natural e integralmente por todo o tempo. Tal diferença técnica não reflete apenas os balanços financeiros.

Pesou também a forma como cada um se propõe a jogar bola. E o campeão da América é um time que gosta dela, diga-se. Os tricolores tentaram 376 passes, enquanto os merengues chegaram a 709. Os seis dribles brasileiros dados não chegaram à metade dos 14 do esquadrão europeu. O Real Madrid desarmou tantas vezes quanto o Grêmio (13), mesmo passando 61% do tempo a mais tendo a bola. O campeão da Champions League apertava e a recuperava rapidamente quando a perdia. 

A exceção eram os momentos em que reduzia a pressão e atraía o adversário para ganhar espaços no campo.

Vimos a mudança forçada de comportamento de um time brasileiro que há três temporadas se notabiliza por ter a pelota. Uma equipe que, quando marcada em seu campo, costuma sair da pressão trocando passes com precisão e transformando a situação adversa em ação ofensiva.

É assim desde os tempos de Roger Machado. Apesar de não jogar na velocidade máxima, o Real Madrid teve amplo controle. E é óbvio que não veremos essa distância diminuir a partir das cifras. Clubes sul-americanos dificilmente terão tamanho poderio econômico.

E mesmo que um mecenas desembarque por aqui, os maiores astros dificilmente deixarão de disputar os campeonatos mais vistos do planeta para participar do Brasileirão, ou mesmo da Copa Libertadores. Qual é a solução? Melhorar o nível da bola jogada no Brasil.

Só assim, o time do hemisfério sul não parecerá mero pusilânime para alguns, pois não falta coragem, mas capacidade. É um caminho complexo e urgente. Podemos encará-lo, desde que não percamos tempo discutindo tolices, como se Renato Gaúcho jogou mais do que Cristiano Ronaldo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.