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Um jeito de proceder

A última coisa que moveu a ação do dirigente espanhol ao demitir Lopetegui foi a ética

Ugo Giorgetti*, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 04h00

"Há um jeito de proceder que deve ser respeitado." Essas palavras são do dirigente da entidade que ostenta o pomposo nome de Real Federação Espanhola de Futebol, proferidas ao demitir o treinador Julen Lopetegui faltando dois dias para o início da Copa da Rússia.

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Qual foi a falta de Lopetegui? Apenas esse treinador apalavrado com a federação pelos próximos muitos anos resolveu quebrar o contrato e assinar com o Real Madrid. Para isso o clube, obedecendo todas as leis, pagou a multa milionária pela interrupção do contrato.

A coisa foi perfeitamente legal como reconheceu até o senhor Luis Rubiales, que foi quem aplicou a punição ao treinador espanhol.

Então do que ele reclama? Reclama de falta de ética. Não foi avisado antes da negociação, aliás, foi o último a saber. Foi, em suas palavras, traído e menosprezado pelo menos por uma das partes envolvidas. Puniu então seu treinador e o fez implacavelmente, mesmo tomando decisão de enorme risco e ignorando apelos de jogadores famosos e importantes que intercederam em favor do demitido treinador.

 

Apesar disso tudo, por princípios éticos, porque "há um jeito de proceder que deve ser respeitado", o dirigente corre todos os riscos. Muito bonito! Nada como a coragem de um justo! Nada como uma figura admirável que se arrisca em nome do moral!

Esses elogios seriam aplicáveis à medida e a quem a tomou, não fosse essa uma das atitudes mais cínicas, mais hipócritas e mais desonestas a que já assisti no futebol.

Toda essa lição de moral parte de um dirigente de uma federação que não trata ninguém com ética e mesmo com lisura. Uma federação que, através muitas vezes de seus clubes, trai, engana e menospreza times e entidades do Brasil e de toda a América Latina. Se há um lugar no mundo que passa por cima de tudo sem se preocupar com qualquer vestígio de ética é a Europa em relação aos clubes e ao futebol brasileiro, por exemplo.

Os clubes são tratados como meros fornecedores de segunda categoria que não merecem satisfação alguma por tratativas feitas no escuro, nas sombras, nos subterrâneos e pelas costas. Quando ficam sabendo, a multa contratual já está sendo paga e o craque, ou a revelação, já está, satisfeito, a caminho do aeroporto. Estamos acostumados a esse jogo do mais forte. Somos submissos e muitos até acham bonito.

Agora mesmo, a revelação do Santos, Rodrygo, já vai para a Espanha. Quanto dessa negociação foi feita às claras? Quando o Santos terá ficado sabendo do que estava acontecendo? O Flamengo joga a temporada com seu melhor jogador já pertencendo ao Real Madrid, o mesmo para onde foi Lopetegui. Isso para não falar casos ainda mais obscuros como do próprio Neymar, no qual o mesmo Santos se sentiu traído e injuriado.

Esse dirigente falar em ética e procedimento justo, portanto, é um insulto. Um insulto à ética e a nós brasileiros. A medida que ele tomou tem origem na sua arrogância, no seu pequeno orgulho ferido, por alguém que se utilizou do procedimento inventado pelo futebol que ele representa.

A última coisa que moveu a ação desse dirigente foi a ética.

*CINEASTA, ESCRITOR E COLUNISTA DO ESTADÃO

 

 

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