Fabio Motta/Estadão 
Fabio Motta/Estadão 

Um lugar no pódio do Rio está no alvo de Marcus Vinicius

Aos 16 anos, medalhista de prata no último Mundial, é um dos atletas forjados para o sucesso nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro

O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 17h00

Aos 14 anos de idade, quando os jovens recebem permissão para ter emprego com carteira assinada, Marcus Vinicius D’Almeida estava iniciando sua trajetória na seleção brasileira adulta de tiro com arco. Deixou Maricá, cidade litorânea do Rio, onde vivia com os pais, e foi morar sozinho no Círculo Militar de Campinas, onde a Confederação Brasileira de Tiro com Arco (CBTarco) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) montaram uma boa estrutura visando a preparar atletas de ponta para a Olimpíada de 2016. Além dele, a equipe conta com outros 6 atletas, com idades entre 20 e 30 anos.

No domingo passado, dois anos depois, ele levaria o Brasil a fazer história no esporte ao conquistar a medalha de prata da Copa do Mundo do Tiro com Arco na categoria recurvo, em Lausanne, Suiça. Com 16 anos, ele foi o atleta mais jovem a chegar à decisão - que contou com os 8 melhores do mundo - e por pouco não levou o ouro. O tiro com arco é disputado em até cinco sets, e a disputa ficou empatada até o tiro da morte, quando o americano Brady Allyson, 26, acertou a flecha 1,5 cm mais próxima do alvo que o brasileiro.

Com os resultados recentes, Marcus passou a ser uma grande promessa para ganhar medalha nos Jogos Olímpicos de 2016. "Normalmente todos são mais velhos que eu. Mas o tiro com arco é um esporte em que a idade é de igual para igual. Com mais idade você pode ir muito bem, assim como pode ser novo e atirar bem."

Ele treina seis vezes por semana. Cerca de seis horas por dia. Além do treinamento, faz academia e fisioterapia preventiva - o tiro com arco tem alta propensão de causar lesões. Por causa da idade, quando chegou à seleção, os treinamentos foram aumentando de intensidade gradativamente. Começou praticando 150 tiros por dia, depois 200 e, hoje, 350.

"Não digo por ser mãe: mas ele é muito centrado. E com o esporte ficou nítido como ele é determinado", enaltece, orgulhosa, a contadora da Petrobras, Denise Torres Carvalho, seguida pelo ex-técnico da seleção brasileira e campeão olímpico, o britânico Richard Priestman. "Ele nunca está satisfeito, não importa o quão bem atire."

Se para um atleta adulto a carga pode ser pesada, para ele é um prazer. "Até gosto. Se tiver de ficar sem fazer nada, acho chato. Já entrei na rotina. Sei que tenho de acordar às seis da manhã, treinar e voltar só às sete da noite", afirma convicto, para depois esboçar um sorriso tímido. "Foi a vida que escolhi, é a vida que eu gosto. Que seja assim sempre."

Embora já ostente o título de vice-campeão mundial, ainda precisa terminar o ensino médio. No momento, ele está cursando o segundo ano em um colégio estadual de Campinas e se esforça para conciliar as viagens para competições com os estudos. "Estudo de manhã e treino à tarde, normalmente. É complicado porque eu viajo muito, e o colégio até entende. Mas eu consigo levar", garante. Além disso, Marcus também passa por sessões com uma psicóloga do COB duas vezes por semana.

Na escola municipal Joana Benedicta Rangel, onde estudava, em Maricá, Marcus não se dava bem nas atividades esportivas. "Tudo no colégio envolve bola. E com bola eu sou muito ruim." O amor ao esporte surgiu com seu pai, que chegou a disputar competições locais de tênis de mesa e o incentivou a praticar natação, vela e até jiu-jítsu.

O esporte que iria projetar Marcus foi apresentado em uma reunião de pais no colégio do menino. Lá foi anunciada a criação do Projeto-Escola da CBTarco, que tinha acabado de construir sua nova sede em Maricá, a 10 minutos da casa da família, no bairro Itapeba. A intenção do projeto era criar novos talentos visando aos Jogos Olímpicos de 2016.

Diferentemente dos outros alunos do projeto, que passavam por seleção no colégio, dona Denise não perdeu tempo e foi direto ao escritório do CBTARCO para inscrever o filho. "Ele chegou aqui baixinho e gordinho", conta a primeira professora de Tiro com Arco de Marcus, Dirma Miranda dos Santos, 17 vezes campeã brasileira, e uma das idealizadoras do trabalho.

O Ministério dos Esportes em parceria com o CBTarco e a Prefeitura contribuem para custear os equipamentos básicos dos alunos. São jovens entre 13 e 18 anos de idade, que treinam em um campo aberto e têm até uma academia à disposição. O Tiro com Arco é um esporte caro. O arco utilizado por Marcus nas competições custa cerca de R$ 7 mil, o conjunto com 12 flechas, R$ 1.200. Além disso, ele informou que recebe R$ 15 mil de bolsa pódio do Ministério do Esporte. O apoio varia de R$ 5 mil a R$ 15 mil e é dado a atletas que estão no top 20 dos rankings mundiais, com chances de chegar ao pódio na Olimpíada.

Em 2012, os melhores atletas de diversos estados se concentraram na sede de Maricá para participar de uma seletiva para a seleção brasileira. O objetivo era escolher alguém de no mínimo 17 anos. Quem fazia a peneira era o técnico sul-coreano Lim Heesik, contratado como parte do objetivo de popularizar o esporte no País. "Comparando todos os outros atletas com Marquinhos, Lim considerava a técnica dele perfeita, mas achava o menino ainda muito novo", conta, Dirma. "Ninguém pensava em escolher alguém de 14 anos. Mas eu prometi que eles não iriam se arrepender."

Os pais sentiram, mas deixaram o filho voar para Campinas, onde fica a seleção brasileira. "Foi uma mistura de orgulho com preocupação. Com 14 anos é muito menino. Mas como ele é muito tranquilo não tinha porque atrapalhar o sonho dele", conta Denise.

Hoje, Marcus é dono do recorde sul-americano. Conquistou as inéditas medalhas de prata para o Brasil da Copa do Mundo e dos Jogos da Juventude em Nanquim, em agosto. E, assim, se credenciou como candidato real a conquistar medalhas na Olimpíada do Rio. "Olha, ele está no caminho certo. Desde o início eu falo para ele: Marcus eu quero a medalha olímpica, as outras são suas", brinca Dirma.

A mãe do jovem admite receio da pressão sobre o filho. "Se perguntar para mim, que sou mãe de coração mole, vou dizer que tem muita pressão. Mas é uma coisa que ele faz com prazer." Mas também revela que a fissura pelo esporte é tanta que ela precisa intervir, mesmo que por telefone. "Às vezes eu preciso ligar à noite e dizer para ele descansar. Porque, se deixar, perde a hora no campo de tiro", revela.

Marcus deixa a pressão para os outros. "É difícil falar que eu sou uma promessa. Tenho de estar entre os três melhores até 2016. Não estou garantido em nada. Este ano eu consegui ir bem, no próximo pode ser a equipe toda. Estamos trabalhando para isso." Só que não esconde a expectativa para os Jogos. "Quero estar em 2016. E se chegar lá, vai ser para ganhar medalha", promete.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.