Gaspar Nóbrega/LightPress
Futebol brasileiro está em xeque após a derrota na Copa do Mundo Gaspar Nóbrega/LightPress

Um mês depois da Copa, o futebol brasileiro tenta se reerguer

CBF decide entregar seleção à geração de 94, com Dunga no comando, e futebol interno enfrenta vários problemas

Almir Leite, Diego Salgado e Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 07h00

Um mês depois do fim da Copa do Mundo, o futebol brasileiro ainda tenta reencontrar o caminho – ou encontrar um novo. A seleção, responsável pelo fracasso que trouxe à tona a necessidade de mudança, aposta na volta ao passado no trabalho de reformulação. A direção da CBF optou por resgatar Dunga, demitido após a queda na Copa de 2010. E trouxe campeões do passado, mais precisamente de 1994, para auxiliá-lo. Gilmar Rinaldi, coordenador de seleções, Taffarel e Mauro Silva, que será auxiliar temporário.

O passado vencedor em campo não evita que a nova comissão seja vista com desconfiança. Até por algumas ideias que parecem ultrapassadas. E ainda não está claro como será o processo de renovação. Sabe-se que haverá olhar mais atento aos jovens e “comprometimento e foco’’ voltam a ser qualidade essencial para se estar na seleção.

O futebol interno amarga jogos ruins, truncados e com muitos erros. Um legado da Copa, porém, está sendo aproveitado de maneira positiva: os estádios. A maioria tem registrado bom público. Ainda assim, seus administradores se viram para criar opções para torná-los rentáveis. Mesmo porque têm de pagar a conta de construção ou reformas. E elas são salgadas.

A relação dos cartolas com os jogadores continua tensa. O calendário de 2015, elaborado pela CBF, está sendo torpedeado pelo Bom Senso. O movimento também faz várias ressalvas ao projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, cuja aprovação é vista pelos clubes como saída para salvá-los da crise financeira que se meteram.

De novo o ceticismo é grande. Ceticismo, aliás, parece dar o tom ao futebol brasileiro, pois, passados 30 dias, o trauma da Copa ainda está longe de ser superado.

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Modernidade dos estádios ajuda a fazer público crescer

Algumas arenas têm médias animadoras, puxadas pelo Brasileiro, mas outras sofrem com má fase dos times e falta de jogos

Almir Leite, Diego Salgado e Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 07h00

É óbvio que os estádios não estão cheios como no Mundial, mas até que não dá para reclamar, pelo menos na maioria dos casos. O público pós-Copa nas arenas por onde desfilaram Toni Kroos, Thomas Müller, Messi, Robben, James Rodríguez, Neymar, Cristiano Ronaldo e outros craques tem sido bom, sobretudo nos grandes centros. Ainda assim, os administradores dos espaços se desdobram para criar alternativas que os deixem sustentáveis.

Apesar das reclamações contra os preços dos ingressos, quase "padrão Fifa'' em alguns estádios, os torcedores se mostram mais entusiasmados do que antes da Copa. A boa fase dos times ajuda, mas há casos em que mesmo com a equipes caindo pelas tabelas a casa fica cheia. O conforto das novas instalações e a segurança são apontados como fatores que chamam bom público.

O Maracanã, por exemplo, recebeu até agora cinco partidas depois da Copa e tem média de 30.146 torcedores por jogo, pouco mais de 39% de sua capacidade total, que é de 78.448, considerando-se a Copa do Mundo. A dupla Fla-Flu sempre levou mais de 20 mil pagantes e apenas o Botafogo, em má fase, destoa (11.975 no jogo contra o Cruzeiro).

Contribui para o bom público medida tomada pela Concessionária Maracanã ao retomar o estádio, após o período sob administração da Fifa: a possibilidade de o torcedor marcar o seu lugar nos setores Leste e Oeste da arena (onde a torcida fica misturada), além de poder imprimir o ingresso em casa e, assim, ir direto para a catraca, sem passar pelas bilheterias.

"Os lugares marcados são uma inovação que implementamos para dar conforto ao torcedor'', explicou Sinval Andrade, vice-presidente da empresa que administra o estádio.

O Corinthians também tem conseguido boa média com a sua nova arena: 29.390 em três jogos, praticamente 69% da carga máxima de ingressos pós-Copa, que está sendo de 43 mil bilhetes. Isso apesar de a torcida protestar constantemente contra os preços, considerados altos – o mais barato custa R$ 50.

No entanto, há estádios com sérios problemas para atrair público. Caso da Arena Pernambucano, que nos três jogos do Náutico registrou média de apenas 4.971 pagantes. A má fase do time na Série B do Brasileiro afugenta o torcedor.

Para obter maior fidelização, o que garantiria melhor público, a Arena Pernambuco lançou um cartão pré-pago com o qual o torcedor poderá comprar os ingressos e pagar pela internet.

O cartão servirá como bilhete, por meio de código magnético. "Nosso objetivo é dar comodidade ao torcedor'', diz Gustavo Molinaro, gerente de marketing do estádio. "Mas a fase ruim do time é um fator que afasta a torcida, pois diminui o interesse.''

Situação pior só a da Arena Amazônia e a do Mané Garrincha, que ainda não viram a bola rolar em seus gramados. O estádio de Manaus, que tem custo de manutenção de R$ 600 mil mensais, só tem futebol garantido no dia 16 de setembro, em um Vasco x Oeste, pela Série B. O de Brasília terá Botafogo x Fluminense no próximo domingo.

Em todos os estádios, há a aposta em eventos diversos, como shows e convenções, para gerar renda. Mas a esperança principal é o futebol. E a perspectiva é promissora. Até porque, a média geral de público do Brasileiro da Série A (todos os estádios) aumentou depois da Copa: de 12.616 para 17.637 torcedores por jogo.

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Atletas e cartolas não conseguem se entender sobre lei e calendário

Lei de Responsabilidade tem pontos polêmicos e está sendo negociada; programação para 2015 é considerada retrocesso

Almir Leite, Diego Salgado e Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 07h00

A Lei de Responsabilidade Fiscal do Futebol é esperança dos clubes brasileiros de dias melhores. Eles entendem que com a renegociação de uma dívida fiscal que hoje atinge R$ 4 bilhões, poderão ter finanças mais equilibradas e fazer, entre outras coisas, mais investimentos no futebol.

O problema é que o projeto está empacado na Câmara. Isso porque há muita resistência. O Bom Senso F.C., movimento dos jogadores, opõe-se à aprovação do texto do jeito que está por vários aspectos, entre eles por não ser claro quanto a punições aos dirigentes de clubes que não honrarem o acordo e por considerar frágeis e falhos os mecanismos de fiscalização.

O governo, incentivador da lei, também tem suas ressalvas. A principal delas é em relação ao prazo de pagamento estabelecido no projeto (25 anos, considerado muito extenso), que também propõe a adoção de taxa de juros mais camarada do que a de outros programas de refinanciamento de dívidas.

Emendas ao projeto estão sendo estudadas e negociadas, mas a tendência é de que a aprovação só deverá ser feita após as eleições de outubro.

Outra polêmica do futebol brasileiro pós-Copa é o calendário de 2015, alvo de severas críticas do Bom Senso. Os 25 dias de pré-temporada são considerados insuficientes. Além disso, a programação não melhora a situação dos clubes menores, que ficarão a maior parte do ano sem atividade. Os atletas consideram que não há avanço nessa área. 

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COL prevê lucro dos Jogos do Rio por causa da Copa do Mundo

Executivo do Comitê Organizador Local garante que capacitação de profissionais por causa do Mundial vai beneficiar o Rio-2016

Almir Leite, Diego Salgado e Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 07h00

Um dos legados do Mundial vai ser a capacitação de profissionais especializados em grandes eventos esportivos. Esta é a avaliação do Comitê Organizador Local (COL) da Copa. "Temos agora centenas de pessoas com esse perfil preparadas para novos desafios'', afirmou o CEO do COL, Ricardo Trade.

Ele enfatizou que o Brasil realizou a "Copa das Copas" e o resultado poderia ser ainda mais expressivo se os prazos de entrega de estádios e obras complementares tivessem sido cumpridos. "Testar mais vezes, à exaustão mesmo, e com bastante antecedência é essencial. Se tudo tivesse sido entregue (nos prazos), nossas notas seriam mais altas", declarou. "Evitaríamos por exemplo aquela queda de parte de energia no Itaquerão (pouco antes do jogo de abertura, entre Brasil e Croácia."

O CEO atribuiu o atraso das obras no estádio do Corinthians ao acidente ocorrido em novembro de 2013, quando um guindaste caiu e provocou a morte de dois operários.

Embora os elogios pela organização do Mundial sejam rotineiros na sede do COL, desde 13 de julho, o comitê avaliou que houve problemas em algumas áreas específicas, como, por exemplo, nos serviços de alimentação oferecidos aos torcedores em alguns estádios. Mais uma vez, Trade culpou os atrasos pelo problema."Afetados pela demora tardia da entrega (das obras), alguns locais não puderam testar a conexão do gás, a distribuição de energia nas cozinhas."

Para dirigentes do COL, o sucesso do Mundial vai facilitar a organização dos Jogos de 2016, nop Rio. O Brasil vinha sofrendo críticas pesadas de federações esportivas internacionais pelo "atraso" na construção de arenas.

De um mês para cá, o tom das entidades baixou. "Nosso trabalho vai arrefecer os questionamentos da capacidade de o País entregar tudo a tempo'', disse o diretor de Comunicação do COL, Saint Clair Milesi. O COL permanece em atividade até dezembro, quando será dissolvido. Até lá, seus funcionários vão ser dispensados por etapas, já iniciadas.

Ao todo, a Copa do Mundo registrou quatro invasões de campo. Esses torcedores foram encaminhados à polícia. Somente na final, entre Alemanha e Argentina, houve 12 tentativas (malsucedidas) de invasão ao gramado do Maracanã.

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Dunga tem a missão de resgatar o prestígio da seleção brasileira

Técnico quer que a equipe, a ser convocada na próxima terça-feira, tenha parte do que foi adotado por ele entre 2006 e 2010

Almir Leite, Diego Salgado e Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 07h00

O técnico Dunga faz na próxima terça-feira a primeira convocação da seleção brasileira nesta sua volta ao comando. Vai divulgar a lista de 23 jogadores que participarão dos amistosos contra Colômbia, dia 5 de setembro, e Equador, dia 9, nos Estados Unidos e, mais do que os nomes, poderá dar pista importante de como será seu trabalho, pelo menos no início. Ele sabe que precisa ter em mente o resgaste da credibilidade da seleção, destroçada com o 7 a 1 para a Alemanha, ao mesmo tempo em que a renova e a prepara para o objetivo final, que é a Copa de 2018.

Dunga não deu grandes pistas sobre quem pretende levar para os jogos em Miami e Nova Jersey, embora há duas semanas tenha revelado que já fizera um "esboço'' da convocação. Sua disposição, porém, é de chamar vários atletas que estiveram na Copa e alguns novatos – não necessariamente jogadores muito jovens, mas sim que andavam longe da seleção, como Paulo Henrique Ganso e até Alexandre Pato. Ele já elogiou também o goleiro Rafael, ex-Santos, que está no Napoli.

No entanto, mais do que nomes, vale prestar atenção à mentalidade que Dunga pretende implantar na seleção. Muita coisa ele vai resgatar de sua primeira passagem, ocorrida entre 2006 e 2010. "Meus princípios são a ética, comprometimento, lealdade transparência e trabalho", já avisou.

Nessa nova "era Dunga'', os jogadores deverão ter pouco espaço para, quando a serviço da seleção, agirem como celebridades. Ele entende que aparições exageradas na mídia, em atividade que não estão diretamente ligadas ao futebol, é contraproducente. "É preciso comprometimento, foco.''

Isso vale para todos, inclusive para o craque do time Neymar. Para o treinador, o talento tem de caminhar junto com o jogo coletivo. "Todo mundo gosta de jogador talentoso. Mas tem de aliar esse talento a organização, comprometimento, trabalho e equilíbrio emocional." Não precisa ser mais claro.

Nessa tentativa de restruturação, a CBF deu a Gilmar Rinaldi a função de coordenador de seleções. O que significa que trabalhará também com a base, fator que criou polêmica por seu passado recente como empresário. Gilmar e Dunga, porém, têm a mesma filosofia. "Vamos priorizar o coletivo e não o individual", diz o coordenador.

Uma das primeiras decisões do novo comando, esta visando a Olimpíada de 2016, foi colocar a seleção sub-21 (formada por jogadores com idade olímpica) ao mesmo tempo que a seleção principal. Isso ocorrerá já em setembro, o que impossibilitará Dunga de contar nas partidas nos Estados Unidos com alguns jovens que gostaria de observar de perto desde já.

A nova comissão, no entanto, considera que vale a pena a mescla. A intenção é olhar para os Jogos do Rio, mas também preparar os jovens para servir no futuro à seleção principal e ajudá-la a recuperar o prestígio perdido na Copa.

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