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Ugo Giorgetti
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Um mestre

Sua fama se deve a um jogo contra o Palmeiras, no antigo Parque Antártica, ocasião em que fez 2 gols e acabou com o jogo. Tinha apenas 17 anos e jogava pelo Internacional de Porto Alegre. Aquele domingo na rua Turiaçu foi seu bilhete de loteria premiado. Pouco depois estava jogando no Milan, no coração da Europa. Nunca mais ninguém soube dizer exatamente se era um verdadeiro craque ou não. Da seleção brasileira foi pouco a pouco descartado, e as ilusões dos torcedores a seu respeito começaram a ficar abaladas.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2016 | 07h03

Apesar disso ficou muito tempo na Europa, e as informações do seu futebol chegavam misturadas a notícias sobre comportamento e vida noturna. Seu verdadeiro prestígio no campo era nebuloso. Até que um dia, depois de vários anos, o Milan pensou em se livrar dele. Curiosamente descobriu-se que, aqui no Brasil, sua reputação continuava intacta. Prova disso é que o Corinthians gastou o que podia e o que não podia para trazê-lo. Pensou, talvez, que estava trazendo um novo Ronaldo, mas o que veio era apenas o Pato. Ganhando, porém, a bagatela de R$ 800 mil por mês. Um pênalti perdido acabou com sua carreira no clube.

De lá foi para o São Paulo, de onde saiu discretamente para o Chelsea, conservando sempre os R$ 800 mil mensais. Agora tudo indica que Londres não será mais sua casa e há notícias de que o Flamengo está de olho nele.

A análise dessa carreira não é fácil, mas vou tentar. Pato foi para a Itália no meio de uma era de frivolidade, ostentação e vazio como nunca a Bota tinha visto antes. Era a época das “celebridades” e a Itália era a pátria dessas figuras medíocres e opacas, que ocupavam dia e noite as redes sociais e TV’s de Silvio Berlusconi, cujo governo só não levou a Itália ao ridículo total unicamente pela força de uma tradição cultural de séculos.

Essa sociedade tão bem analisada no recente filme “A Grande Beleza”, encantou o Pato. Viu que tinha todas as possibilidades de usufruir dela, até mesmo físicas. Não parecia sequer brasileiro, muito menos tinha as maneiras dos craques ‘bad boys’ que o Brasil cansou de exportar. Parecia mais um europeu educado, com necessárias tinturas dos trópicos. Entrou de cabeça num mundo de endinheiradas modelos famosas, socialites, figuras meio inacessíveis, e nunca mais saiu dele. Se transformou ele mesmo em celebridade dos paparazzi.

Nunca vi um jogador de futebol brasileiro se aproveitar tão bem de uma sociedade permissiva, estúpida, mas cheia de dinheiro. Creio que Pato percebeu logo que podia ter duas vidas. Podia conciliar a vida de jogador, supostamente cheia de treinos exaustivos e viagens, com a de um homem da noite que atravessa madrugadas e se deixa fotografar, ao contrário do que faziam os jogadores de antigamente. Longe de se ocultar, Pato faz questão de se mostrar e divulgar suas atividades mundanas.

Certamente muita gente percebeu que ao contratá-lo, o Corinthians não trazia apenas mais um jogador de futebol, mas também uma “personalidade”, um homem que é noticia por várias razões, muito além do futebol. E o Flamengo pode esperar exatamente o mesmo. Creio que nisso tudo há calculo cuidadoso.

Pato certamente dosa suas energias entre campo e noite. É ainda jovem. Pode sair de uma noitada e ir direto ao treino. Para a coisa funcionar perfeitamente, e proporcionar R$ 800 mil a cada 30 dias, porém, falta um pouco de bola, é verdade. E isso, para seu desespero, já ficou claro há algum tempo. No momento, ele compensa com as qualidades de sempre. Nunca cria problemas, nunca é notícia policial, trata todos bem, dentro ou fora do campo. Não se pode puni-lo por ter vida social.

Sua conduta é, no fundo, um primor de profissionalismo. Com isso se mantém ganhando rios de dinheiro e se equilibrando numa corda bamba admirável entre o prazer de jogar bola e outros que só ele saberia descrever. É, certamente, um mestre.

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