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Como era o futebol antes da pandemia

Ugo Giorgetti imagina um mundo em que os torcedores voltaram a acompanhar seus times, mas o coronavírus criou uma nova situação

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2020 | 05h00

Sentado na sala, esperava o clássico que ia se dar no enorme estádio que ficava bem diante de seu prédio. Sua mulher e filhos tinham saído para o tradicional almoço de domingo na casa dos sogros, e ele podia ver o jogo em paz. Da rua, sempre tão silenciosa, ouviu de repente um som pouco usual. Era sem dúvida um canto de torcida. Poucas vozes, entretanto, que pareciam vir do fundo das eras.

Ele levantou-se, foi até a janela e viu o que já vira muitas vezes, embora com longos intervalos. Um pequeno grupo de torcedores se agrupava diante das muralhas impenetráveis do estádio onde ia transcorrer o clássico. Eram uns dez ou 12, alguns jovens, a maioria velhos. A visão o fez dar um sorriso indulgente.

Reconhecia o distintivo do seu clube estampado nas velhas camisas que os integrantes do grupo usavam, um deles até empunhava uma gasta bandeira. Estavam todos preparados para um jogo que jamais veriam. A imagem daquele grupo na rua deserta, diante da alta muralha, cantando, dava à cena um aspecto surreal, um pouco soturno, como num quadro de De Chirico.

Desde a Grande Pandemia não havia mais torcedores em estádios, todos sabiam disso. No começo por imposição, depois por um medo natural, finalmente por costume. O fato é que ninguém ia mais aos estádios mesmo que a Grande Pandemia já fosse, há anos, apenas uma lembrança. A maioria das pessoas se alegrava com isso. Haviam acabado as brigas de torcida, os palavrões, a sujeira nas calçadas, o barulho, a feiura.

Ele também se adaptara rapidamente aos novos tempos e lembrava vagamente daqueles dias antigos de antes da Grande Pandemia. Ainda na janela, viu uma viatura de polícia surgir e se encaminhar vagarosamente na direção dos torcedores que cantavam. Não ligavam sirenes, não cantavam pneus, apenas foram chegando perto. Os torcedores imediatamente cessaram seus cantos e, também sem pressa excessiva, começaram a se dispersar.

A viatura passou por eles lentamente e os acompanhou por pequeno espaço de tempo. Ele seria capaz de jurar que um policial dirigiu algumas palavras aos torcedores. Sem gritos, pois nem ouviu sua voz.

Um dos integrantes do grupo começou a enrolar a bandeira que empunhava até que ela desapareceu em suas mãos, tornando-se apenas mastro. Os outros caminhavam desanimados. A viatura, sem aumentar muito a velocidade, com a mesma calma virou uma esquina e desapareceu. A pequena reunião de torcedores foi se separando em direções diferentes até também desaparecer. A rua ficou deserta, apenas com um caminhão de externa de uma televisão que ia transmitir o jogo estacionado junto ao estádio.

Ele não deixou de pensar no que trazia, de quando em quando, alguns excêntricos a se reunir diante do estádio vazio, bradando velhos cânticos. Qual a motivação deles? Por que insistiam? E não eram sempre os mesmos, ao contrário. Já tinha visto grupos onde se contavam crianças e mulheres. Sempre com o mesmo resultado. Seria um protesto? Contra o quê?

De repente, viu surgir na rua o ônibus que conhecia tão bem. Enorme, indevassável, silencioso como um presságio. Nada se via do que se passava dentro, apenas um imenso distintivo na lataria cinza. Não havia alegria na imagem, mas solenidade fria. Ele ficou feliz, pois torcia para esse clube. Viu o ônibus chegar diante da majestosa entrada que se abriu silenciosamente como se não fosse movida por força humana.

O ônibus mergulhou no interior do estádio e o portão se fechou do mesmo modo. Ele sorriu, seu time tinha tudo para ganhar. Exceto pelo caminhão da TV, a rua tinha voltado a ficar completamente deserta. Caminhou para sua poltrona, pegou o celular para ler os comentários que a crítica especializada estava fazendo sobre essa grande partida decisiva, fundamental, para o desfecho do campeonato. Os jogadores já estavam em campo, o juiz apitou. Da rua não vinha nem um pio.

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