Um pouco de futebol

O Palmeiras de hoje não tem nada a ver com o Palmeiras do ano passado

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 04h00

Ouço por todos os lados que Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG foram grandes decepções este ano, principalmente pelo investimento que fizeram. Insistentemente são procuradas as razões do fracasso. Quase todos, devo dizer, são unânimes em procurar as razões em toda parte, menos onde, a meu ver, estão: nas péssimas contratações, resultado dos investimentos desses clubes.

Há outra unanimidade, e essa me espanta mais ainda, isto é, a que afirma que o Palmeiras, por exemplo, tem um grande e qualificado elenco e que, portanto, seu fraco desempenho tem outras causas. Continuando com o Palmeiras, o fracasso se deve exatamente ao fato de que não tem um grande e qualificado elenco, mas um elenco inchado, balofo, reunido com pouco critério e quase nenhum cuidado. O caso desse clube é mais dramático porque vinha de sucessos, era o campeão do ano passado com toda justiça.

No entanto, alguém, alguns ou vários dirigentes do clube, se depararam com uma situação nova para a qual não estavam preparados, isto é, tratar com um Palmeiras ressurgido e de novo grande. Fala-se muito que o time base do Palmeiras é o mesmo do ano passado, à exceção da perda de Gabriel Jesus. Não concordo. Acho que o time de hoje nada tem a ver com o do ano passado, entre outras coisas exatamente pela perda de Gabriel Jesus.

O fato de não ter segurado esse jogador, a maior revelação produzida pelo clube desde Mazzola, lá pelos anos 50, ainda não foi bem enfrentada. Não se trata de ter perdido um jogador importante. Perdeu-se um jogador vital. Talvez pelas relativas poucas vezes em que a torcida viu esse jogador em campo não foi possível avaliar corretamente sua importância e seu talento. Agora que se move numa dimensão internacional é possível. Pois bem, essa perda irreparável não escapou de todos e se resolveu que era tempo de encher os olhos da torcida para minimizar sua decepção. E houve uma série de contratações de jogadores de nome, mas só de nome.

Além do mais não se perdeu só Gabriel Jesus. Perdeu-se, por exemplo, Vitor Hugo, cuja transferência intempestiva ninguém entendeu, e, certamente, se fosse apenas vontade do jogador, seria possível reverter. A defesa deste ano nada tem a ver com a do ano passado: Edu Dracena, para sua própria surpresa, passou à categoria de titular absoluto, não há outro zagueiro e os laterais, ou não são laterais e jogam improvisados, como Jean, ou já tiveram seus dias de glória no futebol, como Zé Roberto. No meio campo não se contou com Moisés, aliás, unanimemente ungido a craque, quando não é. E além do mais, ao voltar da contusão, ainda não conseguiu jogar como fazia.

Precipitadamente contratados a peso de ouro, atacantes colombianos, que não foram observados atentamente falharam, junto com um centro avante, tecnicamente muito fraco, vindo para substituí-los no desespero. Do campeão do ano passado restam Tche Tchê, mal aproveitado, vítima de sua própria versatilidade, e Dudu. Parece que ninguém conta mais com Roger Guedes, revelação do ano passado. De quebra vieram ainda jogadores bastante discutíveis como Michel Bastos e, principalmente, Felipe Mello, cujas façanhas parecem longe de ter-se esgotado.

O que aí está é uma sombra do time do ano passado que, aliás, em posições pontuais, já precisava reforços Não os que vieram. Só não entendo como é possível achar que esse elenco é forte. Parece que todos esperam o dia em que alguma criança, algum torcedor mirim, no Allianz Parque, no meio do jogo, virar para o pai a lado e apontando o campo, como na fábula, grite que o rei está nu. Nessa ocasião talvez muita gente comece a ver o que qualquer criança vê. Sobrou, como de hábito, para o treinador.

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