Um samba na América

A seleção parece personagem de música de Adoniran: só vê os outros brigarem – por vagas

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 04h00

Estava a conferir a classificação e as rodadas finais das Eliminatórias na América do Sul, quando veio à mente Um samba no Bexiga, um dos clássicos que Adoniran Barbosa legou à MPB. Não sei se o amigo lembra, mas a letra diz mais ou menos o seguinte: “Domingo nóis fumos num samba no Bexiga. Na rua Major, na casa do Nicola. A mezza notte o’ clock saiu uma baita duma briga, era só pizza que avuava junto com as brachola. Nóis era estranho no lugar e não quisemo se meter. Não fumos lá pra brigar, nóis fumos lá pra beber”... e etc. etc.

Deliciosa, gaiata, divertida canção.

Pois a seleção brasileira está como o personagem da música: no momento, participa da corrida por vagas para o Mundial como observadora, sem intenção de intrometer-se na briga. (“Na hora H se enfiemo debaixo da mesa, fiquemos ali de beleza, vendo o Nicola brigar...”) Nem precisa entrar em estresse adicional a esta altura. Com a classificação carimbada com boa antecedência, só cumpre tabela, amanhã diante da eliminada Bolívia, em La Paz, e na terça-feira na visita do Chile no Allianz. 

Nesses jogos, Tite prossegue com observações, testes e ajustes no grupo que pretende levar para a Rússia, no torneio marcado para daqui a oito meses. Por mais que recorra a discurso moderado e afirme que não há lista fechada, o técnico tem definidos os preferidos, senão na totalidade, bem perto disso. Com o que há de bom (pode afinar estratégias de jogo) e de ruim (o risco de não olhar atletas que venham a destacar-se daqui em diante).

A estrutura nasceu durante a disputa da fase preliminar, na qual Tite chegou com a missão de apagar incêndio e evitar vexame histórico e inédito. Apostou em nomes com os quais havia trabalhado em clubes, acreditou em jovens (como Gabriel Jesus) e teve retorno imediato. Recuperou a equipe e fez com que o próprio nome disparasse na preferência popular. Fosse hoje é capaz até que se elegesse presidente...

O Brasil no máximo pode ser fiel da balança na escolha do último representante da região, ou de quem vai para a repescagem (5.º colocado) ou até acabar com esperança dos que ficarem em 6.º, por acaso os chilenos. Com 23 pontos, estes disputam terreno palmo a palmo com Colômbia (3.ª, com 26), Peru (4.º, com 24), Argentina (5.ª, com 24) e Paraguai (7.º, com 21). O Chile recebe o Equador (20) em Santiago.

A tendência é de que o jogo da semana que vem, em São Paulo, seja fatal para a sorte dos vizinhos. Imagine se o resultado interessar, por exemplo, para a Argentina. Note a importância verde-amarela no destino, quem sabe, de um rival de tamanha envergadura, atual vice-campeão mundial e que tem, em suas fileiras, um gigante, um astro, como Lionel Messi.

A Argentina a propósito merece ao menos um parágrafo. É consenso de que possui um dos elencos mais qualificados do futebol. Com exceções, são jogadores de alto nível, titulares e ídolos nos clubes que defendem. Deveriam formar seleção novamente candidata a papel bonito. 

No entanto (e aqui entramos em outro parágrafo), não deu liga, perdeu tempo com experiências malfadadas com Gerardo Martino e Edgardo Bauza, até apelar para Jorge Sampaoli na base do desespero. Ainda assim, depende só de si: se bater os peruanos, lhes tomará a quarta colocação e, em seguida, serão hóspedes do Equador. Torço pelos argentinos na Copa; no entanto, correm risco, e sabem disso. 

Não coloco o vice-líder Uruguai (27 pontos) nesse bolo, porque só duas hecatombes o deixam fora da Copa. Afinal, saem nesta quinta-feira para pegar a lanterna Venezuela (8 pontos) e na rodada derradeira recebem a Bolívia (por ora, penúltima, com 13). A “Celeste” está quase como o Brasil, a assistir de beleza a este “Samba na América”. 

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