Gabriela Biló|Estadão
Gabriela Biló|Estadão

'Um sonho que virou pesadelo', lamenta torcedor na Arena Condá

Defesa heroica de Danilo está viva na memória dos fãs da Chapecoense

Gilberto Amendola, enviado especial a Chapecó, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2016 | 20h06

O torcedor sentado na ala sul da arquibancada da Arena Condá, estádio da Chapecoense, observa o gramado vazio e sonha com um gol que o seu time não levou. Sonha que nos acréscimos do jogo decisivo contra o San Lorenzo, o goleiro Danilo não conseguiu evitar o gol adversário e que, por consequência, a  história tivesse terminado ali. Ele sonha até com a indignação, o palavrão e a decepção do dia seguinte. Dores suportáveis para todos aqueles que estão acostumados com o perde e ganha do futebol. "Mas Danilo fez uma defesa milagrosa. Nao foi gol. Não foi gol e a gente começou a viver um sonho. Um sonho que virou pesadelo", diz o estudante de agronomia Guilherme Batista Filho, 18 anos.

Ao lado de Batista, Gabriel abraça o pai e chora. O menino joga na escolinha da Chapecoense, meio campista habilidoso, futuro atleta. "Não acreditei quando meu pai me contou. Hoje é o dia mais triste que eu já vivi", fala o garoto de 11 anos.

Mesmo quem viveu mais do que isso tem concordado com o menino e colocado essa dor numa prateleira bem alta. "Sou corintiana. Moro aqui, mas sou corintiana. A primeira vez que estive nesse estádio foi pra ver o jogo do Corinthians contra a Chape. Não consegui ingresso pra sentar ao lado da torcida do meu time. Então, fiquei no meio da torcida da Chape. Nesse dia, o Corinthians ganhou. Mas a Chape ganhou uma torcedora apaixonada. E eu ganhei uma família", diz Ivone Becker, 70 anos.

Silencioso, elegantemente vestido, estava outro convertido à Chapeconse, o Haitiano Gueery Bassard, 32 anos. Ele, que saiu do seu país fugindo de tragédias naturais e políticas, encontrou no time de futebol um conforto. "Eu jogava bola no Haiti. O futebol do Chapecoense me faz lembrar do meu próprio país", diz. Bassard chora ao conectar o seu país com o time de futebol.

Perto da tragédia esteve Fernando de Lima Cásper, presidente da torcida organizada da Chapecoense. "Eu tentei muito estar naquele voo. Eu pedi para diretoria. Eu quase consegui. Mas tive problemas para tirar o passaporte e acabei ficando", conta Lima - que também rememora a defesa milagrosa de Danilo e se emociona. "Se aquela bola entra seria uma dor. Uma dor diferente. Uma dor que iria acabar na próxima rodada ou temporada do futebol. Agora, não. Essa dor é diferente. É mil vezes pior", fala. 

 

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