Carlos Gregório Jr./ Vasco
Carlos Gregório Jr./ Vasco

Alcoolismo, um tabu no futebol brasileiro

Corinthians e Palmeiras, que já perderam jogadores para a bebida, trabalham no sentido de "ensinar e conscientizar" seus atletas sobre os ricos do álcool na profissão. Tema ainda é difícil de ser abordado

Alessandro Lucchetti, especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

Nesta reportagem, o Estado põe o dedo em um dos maiores tabus do futebol brasileiro, o alcoolismo. Carente de pesquisas e estudos estatísticos na área, muitos dos debates em torno do esporte giram em torno de percepções. Algumas válidas. Nos últimos anos, uma das impressões é a de que parcela considerável dos jogadores abusa do consumo de álcool. Garrincha é o mais famoso atleta a se dobrar para a bebida. Há casos como o do atacante Thalles, do Vasco, vítima de um acidente de moto aos 24 anos de idade. Lamenta-se também que outras promessas tenham sido tragadas pela escuridão das noitadas e do alcoolismo. Por fim, o ocaso lento de ex-jogadores como Mendonça entristece.

O assunto é tratado pelos clubes sempre com muita cautela. Ex-jogadores fazem palestras aos mais jovens e contam alguns de seus dramas com a bebida. No Palmeiras, Zé Roberto toma essa dianteira. Há cartilhas em clubes como Corinthians e Santos sobre o assunto, e outros mais. O passo mais difícil é identificar os casos. Famílias são avisadas quando isso acontece. Jô, ex-Corinthians, teve ajuda e se recuperou. Ele quase perdeu a Copa do Mundo de 2014 por causa da bebida.

O meia Mendonça debilitou a saúde, erguendo copos até morrer, em julho do ano passado, aos 63 anos. Comoveu sobretudo torcedores mais velhos do Botafogo, Santos e Palmeiras, que o alentaram nos anos 70 e 80. Infelizmente, desfechos similares a esse não são raros. Corinthians e Palmeiras são exemplos de clubes que se preocupam com o tema e apresentam regularmente aos jogadores profissionais e de base, em forma de palestras e discussõs, o perigo do consumo de álcool na carreira.

O primeiro desafio é descobrir os casos, envolver as famílias e convencer o atleta do problema. Joaquim Grava, médico do Corinthians de 1979 a 2003, hoje consultor do clube em ortopedia e traumatologia, tem a sensação de que o uso de álcool pelos jogadores brasileiros está se elevando.

"O consumo sempre foi grande. Quem não se lembra do caso do Sócrates? Mas está aumentando, acredito. O que mais me assusta são aqueles jogadores mais destacados das base no momento em que assinam o primeiro contrato polpudo, ganhando seus R$ 50 mil por mês. Muitos deles, se não tiverem estrutura familiar boa, já se acomodam e vão para o álcool como se não houvesse amanhã. Na minha forma de ver, essa supervalorização de promessas é uma das causas que melhor explicam a decadência do futebol brasileiro, e tem mais peso do que os problemas de calendário."

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Acho que o jogador em atividade faz parte de um grupo ao qual pertence também aquela juventude universitária que se embebeda diariamente. Qual é a diferença? Nenhuma
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Marco Aurélio Cunha, ex-médico do São Paulo e dirigente da CBF

Marco Aurélio Cunha, que foi médico e dirigente do São Paulo por anos, diverge do colega em alguns aspectos. Para ele, o tema é mais social do que esportivo. "O futebol é como qualquer outra profissão. Acho que o jogador em atividade faz parte de um grupo ao qual pertence também aquela juventude universitária que se embebeda diariamente. Qual é a diferença? Nenhuma. São jovens que querem aproveitar a pouca idade e se deslumbram com a descoberta daquilo que podem fazer sem o domínio dos pais. Isso não é alcoolismo, é um momento dos meninos e das meninas. Porém, parte daqueles que têm pais alcoólatras ou alguma predisposição para o vício acaba descambando para o alcoolismo".

O futebol está cheio de histórias de jogadores que se perderam no meio do caminho, ou reduziram esse caminho, por causa da bebida sem freio, sem consequênias. O ex-jogador Cicinho, do São Paulo e da seleção, fez um relato forte e firme sobre o problema ao Estado. Problema que ele teve durante quase 20 anos de sua vida. "Comecei a beber ao 13 anos. Não parei mais. Bebia até dez caixas de cerveja", conta. 

Marco Aurélio, hoje coordenador de futebol feminino da CBF, avalia que a impressão de que o consumo de álcool se elevou é consequência da infestação de posts em mídias sociais, obra de torcedores que patrulham a noite, munidos de seus celulares. "Temos hoje mais mecanismos fiscalizadores, vide o caso do Ralf. Fiquei com pena dele. Hoje as ruas estão cheias de testemunhas, que vão filmando a toda hora o que se passa", diz o dirigente, referindo-se ao acidente em que um veículo que conduzia o então volante do Corinthians atropelou um idoso que se encontrava em um ponto de ônibus na Água Rasa, zona leste. Segundo a defesa do atleta, um segurança é que estava ao volante.

EXTERIOR

Se faltam estatísticas brasileiras, talvez um trabalho internacional possa servir como referência. Um estudo divulgado em 2015 pelo FIFPro, sindicato internacional dos profissionais do futebol, proporciona uma noção sobre a extensão do quadro. Ouvido um universo formado por mais de 800 jogadores e ex-jogadores, retratou-se que 9% dos atletas em atividade e 25%

dos que já pararam de jogar reconhecem que consomem bebida alcoólica em excesso. A entidade elaborou um guia que contém sintomas de transtornos e oferece sugestões de encaminhamento para quem busca apoio.

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Já passamos da fase de ir buscar aqueles que sofrem com esse problema. Hoje esperamos que venham até nós. Funciona melhor
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Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Atletas de SP

Presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, Rinaldo Martorelli disse ao Estado que já conversou com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) com a intenção de elaborar um perfil do jogador de futebol do Estado, que contemple dados como suas origens, hábitos e até vícios, como o alcoolismo. "Mesmo que a pesquisa saia, acho que os dados sobre alcoolismo serão sempre subnotificados, porque o jogador tem dificuldade para assumir a dependência". Ele sempre acha que isso vai atrapalhá-lo na carreira. Há casos ainda em que o atleta, como Sócrates, não reconhece que precisa de ajuda. Ele morreu em dezembro de 2011, aos 57 anos. 

Martorelli diz que o sindicato acolhe os atletas que buscam apoio. É um jeito de tratar a dependência. "Já passamos da fase de ir buscar aqueles que sofrem com esse problema nos clubes. Hoje esperamos que venham até nós. Funciona melhor. O sigilo é total. Lembro que arrumei até internação numa clínica para o Jorge Mendonça (meia-atacante que brilhou sobretudo no Palmeiras e Guarani), mas ele fugiu no primeiro dia. Os que nos procuram estão mais dispostos a se engajar no nosso trabalho", diz o sindicalista, que afirma oferecer cursos, convênios com psicólogos e até o trabalho de coaches.

"Damos as condições, mas quem faz o esforço para sair dessa é o atleta e seus familiares". Jorge Mendonça morreu em 2006, aos 51 anos. Depois de ter colocado ninguém menos do que Zico no banco de reservas durante a Copa do Mundo de 1978, foi derrotado pelo álcool. O futebol brasileiro conta sem preconceito os problemas do passado, mas ainda falta aos clubes admitirem os casos do presente, de modo a poder ajudar quem precisa de forma mais transparente. Servir de exemplo.

CLUBES

Times grandes do Brasil possuem em seus quadros profissionais especializados em temas espinhosos. O alcoolismo é um deles. Depressão também. Há um trabalho inicial de percepção de todos eles com os atletas, principalmente os da base. Os quatro de São Paulo trabalham dessa maneira, por exemplo. O primeiro passo é identificar o problema nesse ou naquele jogador. E depois chamá-lo para conversar. Pais e familiares são sempre informados. O garoto participa de palestras, conta sua história até entender a dependência. Ou a necessidade de mudar. O álcool não é droga proibida no esporte, de acordo com a Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês).

Os clubes também destacam profissionais para falar com esses garotos. Eles dão palestras sobre o tema. Contam causos de suas próprias carreiras, de momentos em que foram seduzidos pelas noitadas e depois conseguiram voltar aos trilhos. No Palmeiras, Zé Roberto já deu testemunhos dessa natureza quando estava no Real Madrid, por exemplo.

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