Fabio Menotti/Agência Palmeiras
Fabio Menotti/Agência Palmeiras

Uma década entre ‘musas’ e um dérbi na final do Brasileirão Feminino

Apenas dez anos atrás, futebol feminino era artigo raro na TV e tinha time grande fazendo ‘calendário sensual’. Hoje, elas chegaram ao comando da modalidade e terão três divisões nacionais a partir de 2022

João Abel, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 12h52

Não precisa nem ter tanta idade para lembrar. Há menos de uma década, nas tardes de sábado, era possível ver mulheres disputando um título em TV aberta com o “uniforme” dos principais times do Brasil. Mas não se engane. Elas não estavam ali para jogar futebol, e sim desfilando no concurso ‘Musa do Brasileirão’. Naquele ano de 2011, por exemplo, venceu a representante do Fluminense.

Campeonato Brasileiro Feminino? Nem existia. O torneio só foi criado em 2013, em uma parceria da Confederação Brasileira de Futebol com a Caixa Econômica Federal. De lá para cá, ele se consolidou e nesta 9ª edição, de 2021, é decidido por uma das maiores rivalidades do futebol nacional (forjada na categoria masculina). O dérbi Corinthians x Palmeiras.

No último domingo, 12, o Timão bateu o rival por 1 a 0 no jogo de ida da grande final, no Allianz Parque, com um golaço de cobertura de Gabi Portilho. A partida decisiva será no dia 26, às 21h, na Neo Química Arena. Os torcedores alvinegros e alviverdes puderam e poderão ver a decisão em TV aberta (Band), fechada (SporTV), no YouTube (Desimpedidos) e até pelo TikTok. Com narradoras e ex-jogadoras nos comentários.

O termo ‘narradoras’ é algo tão novo que, enquanto escrevia este texto, o corretor automático do Google sugeriu que eu trocasse a palavra por ‘narradores’. O corretor que se vire porque a presença de mulheres no futebol, seja com microfone na mão ou bola no pé, só tende a aumentar.

Mas nem sempre foi assim. O concurso de musas mencionado no início do texto é só um exemplo de como as mulheres foram vistas por muito tempo longe do papel de protagonismo no futebol. 

O ‘Musa do Brasileirão’ foi criado em 2006 pelo grupo Globo, até hoje detentor dos direitos de transmissão do torneio masculino, e entre 2008 e 2013 era exibido como um quadro do Caldeirão do Huck. Sim, o mesmo Huck que agora está nos domingos. Os tempos mudaram mesmo. Mas isso são outros quinhentos…

Enquanto a Globo se preocupava em mostrar modelos desfilando de biquíni, o futebol feminino nacional tinha rara visibilidade e contava apenas com um torneio nacional, organizado de maneira precária pela CBF: a Copa do Brasil, que durou de 2007 a 2016, no sistema mata-mata. 

Nada contra as participantes do concurso de ‘musa’. Muitas delas inclusive fizeram carreira na televisão e participaram de outros programas. O problema é o contexto maior em que estavam inseridas: o de objetificação da mulher no futebol.

O regulamento do Campeonato Paulista Feminino em 2001 falava em exaltar a “beleza e sensualidade” das jogadoras “para atrair o público masculino”. Na época, Renato Duprat, vice-presidente da Federação Estadual de SP, afirmou à Folha de S. Paulo que jogadora de cabelo raspado não poderia atuar. E o presidente da FPF, Eduardo José Farah, foi categórico: “Temos que tentar unir a imagem do futebol à feminilidade”.

E não foi só a federação. Em 2011, para iniciar as festividades do seu centenário e “atrair olhares” para o futebol feminino, o Santos lançou um calendário com fotos sensuais do seu elenco principal. Tímidas, as atletas tiveram que colocar roupa de praia e desfilar para fotógrafos. 

“Elas foram bem e mostraram para o público como são bonitas”, disse Marta ao site Globo Esporte. À época, a craque estava se despedindo do Santos para jogar no Western New York Flash, dos EUA, mas acompanhou o desfile das ex-companheiras de time. Tenho convicção que a camisa 10 da Seleção, e muitas daquelas jogadoras hoje tem uma visão diferente sobre esse ensaio.

Se nos anos 1990, a Placar trazia fotos de jogadoras apenas de calcinha e camisa, em 2019, a revista dedicou-se pela primeira vez a publicar uma edição exclusiva para o futebol feminino.

Mas por que a mentalidade dos canais de TV, revistas, clubes, federações e das jogadoras mudaram? Dois pontos ajudam a explicar.

O primeiro é a primavera feminista que tomou conta de países, especialmente na América Latina, e teve sua influência no futebol. Na Argentina, a própria seleção nacional fez campanha pelo direito de decisão da mulher e pela Lei de Aborto, aprovada por lá no fim do ano passado.

Em segundo lugar, a influência que essa pressão externa causou nas estruturas internas, levando mulheres finalmente a cargos de comando no futebol. 

No passado, a ‘musa do Brasileirão’, o calendário das jogadoras do Santos e o regulamento do Paulistão Feminino de 2001 foram elaborados, em sua maioria ou integralmente por homens. No presente, a CBF tem a competente Aline Pellegrino como coordenadora de competições, a bicampeã olímpica Pia Sundhage como técnica da seleção principal e paga diárias iguais para jogadoras dos times masculino e feminino do Brasil.

Tudo está em perfeitas condições? O escândalo de assédios sexuais do presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, mostra que não.

Mas ao menos dentro de campo, o Brasil evolui muito bem. Com muitos jogos tecnicamente bons, o Brasileirão teve sua edição mais organizada em 2019. Sem esquecer da Série A2, vencida pelo Red Bull Bragantino, além da Série A3 e da Supercopa do Brasil que serão disputadas a partir de 2022. O País ainda conta com dois torneios nacionais de base: sub-18 e sub-16.

Ainda que tudo tenha começado com uma imposição da Conmebol de obrigar seus clubes associados a terem times femininos para poder disputar os torneios masculinos.

Seguimos o passo de outros países como Estados Unidos e Inglaterra, com ligas bem organizadas. Já é possível a algumas temporadas assistir à Champions Feminina na TV por assinatura e, a partir deste ano, as ligas inglesa e italiana tem jogos exibidos nos canais ESPN, Fox Sports e no serviço de streaming Star+. É questão de tempo até o Brasileirão Feminino, ao menos em suas fases finais, ganhar espaço na Globo. 

Não se pode medir o futebol feminino com a régua da categoria masculina. Enquanto as mulheres foram proibidas por lei de jogar bola entre os anos 1940 e 1970, e só jogaram sua primeira Copa do Mundo em 1991, os homens desfrutam do esporte desde o início do século passado.

Mas, como bem disse Ana Thaís Matos, comentarista do SporTV na transmissão do dérbi do último domingo, “o futebol feminino tem suas próprias narrativas”. E essas narrativas não se contam só pela subjugação ou preconceito, mas também pelo talento de tantas craques de ontem e de hoje. Marta, Sissi, Formiga, Pretinha, Kátia Cilene, Cristiane, Roseli. Para citar apenas algumas.

A última década foi de transformações para um esporte que pode transformar a vida de muitas mulheres. Que os próximos dez, vinte, trinta anos tragam ainda mais revoluções.

 

EM TEMPO

A edição de 2021 da Libertadores Feminina será disputada entre os dias 3 e 21 de novembro com sede no Paraguai e a grande final no Uruguai, no estádio Centenário, em Montevidéu. O Brasil tem três times representantes: Corinthians, Avaí/Kindermann e a Ferroviária, atual campeã. Os grupos serão sorteados no próximo dia 24. Ainda não há confirmação de transmissão, mas a última edição foi exibida pela Conmebol TV, BandSports e Band.

E tem seleção brasileira nos próximos dias: o time de Pia enfrenta a Argentina em dois amistosos em Campina Grande e em João Pessoa, na Paraíba. Os jogos são na próxima sexta, 17, com transmissão do SporTV, e na segunda, 20, no SporTV e na Globo. Ambos às 16h.

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