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Antero Greco
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Uma defesa para o céu

Bola que Danilo rebateu com o pé levou a Chapecoense para a final e para a Eternidade

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 06h00

O empate por 0 a 0 com o San Lorenzo, na quarta-feira passada, levava a Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana, maior proeza em quase meio século de vida. Aos 48 minutos e 37 segundos do segundo tempo, a bola foi levantada para a área, após cobrança de falta. O argentino Angeleri chutou à queima-roupa, já pronto para comemorar o gol. Mas Danilo, um tanto desequilibrado, tirou com o pé direito, em cima, bem em cima da risca. Mandou o perigo para longe e trouxe a classificação para casa.

Instantes depois, o juiz apitou o fim do jogo, numa Arena Condá lotada e com o público encantado com o que acabara de assistir. O goleiro transformou-se no herói da noite – antes, foi o símbolo da entrega de grupo formado por veteranos rodados, calejados, com cicatrizes espalhadas nas pernas, e jovens promessas com canelas e joelhos a receberem as primeiras marcas das muitas botinadas dos campos da vida.

O Verdão do Oeste, a Chape para os íntimos, virou de um momento para outro a queridinha do Brasil. Fenômeno semelhante àquele que, tempos atrás, abrigou o Guarani campeão nacional de 1978, o Juventude, o Santo André, o Paulista, ao levantarem a Copa do Brasil, o São Caetano de duas finais de Série A e uma de Libertadores. 

A Chapecoense encarnou a repetição, nos gramados, dos contos infantis da Cinderela e do Patinho Feio, ou o florescer dos pequeninos, dos fracos e dos feios rejeitados, que se tornam princesas ou cisnes formosos. O futebol tem dessas imitações da vida, em que o frágil, modesto e invisível se agiganta, surpreende, arrebata. O Leicester, na Inglaterra, é o exemplo mais recente, com o título de campeão local, ao derrubar potências do calibre de Manchester United, Chelsea, Arsenal.

A trupe de Chapecó, com o técnico Caio Júnior à frente, participou do gran finale do Brasileiro deste ano, no jogo de domingo com o Palmeiras. Um encontro de alviverdes que deu aos paulistas a alegria de retomar o topo, depois de 22 anos de espera. A Chapecoense comportou-se com elegância e aprumo no Allianz, com a discrição de coadjuvantes à espera de seu momento de festa. Perdeu por 1 a 0, com dignidade, e por aqui ficou, para embarcar para a Colômbia, em busca da glória maior. Os rapazes pretendiam “fazer história”, e o fizeram... Deus, a que preço?!

A Chapecoense atraía simpatia espontânea, de graça; imaginava-se campeã da América e se via em artigos, reportagens e comentários como referência de ressurgimento, de clube que, em poucos anos, saltou da ameaça de fechamento para voos ousados. 

Até ganhou o mundo, mas da maneira mais trágica. De que adianta sair no New York Times, Le Monde, La Repubblica, El Pais assim? Os Twitters de pêsames de times, craques, federações, os minutos de silêncio, o adiamento de rodadas e decisões, são provas de carinho, confortam um pouco, mas não trarão de volta Caramelo, Cleber Santana, Ananias, Bruno Rangel, Kempes, Josimar, Thiego e outros moços. Quantos projetos e ilusões destroçados nas montanhas colombianas. Como a realidade joga duro!

Uma lágrima para comissão técnica, dirigentes, comissários, pilotos que compunham comitiva e tripulação. E outra para os jornalistas que se foram, essa gente valente que se especializa em narrar fatos, contar histórias, registrar momentos marcantes. Profissionais que ficam em segundo plano e nunca esperam virar notícia. Adeus, Lilácio (o Jumelo), PJ Clement, Mário Sérgio, Victorino Chermont. Obrigado, Deva Pascovicci, pela emoção das narrações, sobretudo a dos últimos momentos do jogo da quarta-feira passada.

A defesa de Danilo colocou a Chapecoense nas alturas, no ápice, no céu. Ao cair das nuvens, o avião que ia para Medellín transportou a turma para a Eternidade. Fiquem em paz.

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