Nilton Fukuda/Estadão
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Uma entidade míope

CBF só tem olhos para o Brasileiro e seleção e se cala diante de temas espinhosos

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 04h30

A entidade que comanda o futebol brasileiro acordou do seu sono ao divulgar algumas medidas para o futebol. Foram, basicamente, três: o uso do VAR em todas as 380 partidas da competição nacional, com dinheiro da própria CBF; a proibição de uma equipe trocar de técnico mais de uma vez na mesma temporada, que não passou; e a inscrição de 40 jogadores por time.

Divulgou ainda a criação de uma partida entre o campeão do Brasileiro com o vencedor da Copa do Brasil, a Supercopa do Brasil, que vai acontecer no início do ano seguinte.

Se tivesse sido com data retroativa, o futebol 2019 teria começado com um clássico entre Palmeiras e Cruzeiro.

A CBF, que tem um ex-presidente banido (Marco Polo Del Nero), um presidente que não manda nada (Coronel Nunes) e um presidente eleito (Rogério Caboclo) para assumir somente em abril, mas que já toma as decisões, saiu de sua caverna na Barra de forma tímida e completamente míope.

O Campeonato Brasileiro foi o único foco, o que tornou a discussão extremamente pobre. Em breve, o mesmo acontecerá tendo como prato principal, e único, a volta da seleção em atividade, com a nova convocação de Tite.

A CBF se debruça sobre assuntos que andam quase que sozinhos, quando seus dirigentes, departamentos técnicos e a força de sua estrutura (enquanto não tiver outra, como uma Liga) deveriam focar, nesse momento, em temas mais importantes. Um deles seria sua presença, como matriz das federações de futebol, por sua vez, responsáveis pelos clubes, na discussão sobre a morte dos dez meninos do Ninho do Urubu e agora da indenização às famílias. Nesse caso que chocou o Brasil, seu silêncio foi vergonhoso.

O futebol brasileiro também virou motivo de chacota na Conmebol – um assunto que ainda precisa ser resolvido de modo a evitar que as determinações da Sul-Americana prejudiquem os times brasileiros em seus torneios.

Há muito mais a se fazer. O calendário do futebol nacional está uma bagunça. O torcedor não sabe direito por qual competição sua equipe joga. É desumano um time fazer 70 ou mais partidas por temporada. A vida útil desses jogadores está sendo reduzida.

Faz tempo que a CBF se preocupa exclusivamente com o Brasileirão e seleção. O torneio disputado por pontos corridos aceitou sua fórmula e caminha sem sobressaltos. O Brasil não vence uma Copa do Mundo desde 2002. Mas seria demais responsabilizar a entidade pelo fracasso dos times. Manter Tite, na época, pareceu a coisa certa a se fazer, embora o treinador se perdeu no comando de Neymar, por exemplo, e na missão de arrumar saídas para a equipe quando ela estava mal em campo. Será mais cobrado nesta retomada.

Ocorre que a CBF não tem vontade de colocar a mão nos vespeiros. Por exemplo, não há regulamentação quanto aos preços dos ingressos dos jogos. Ela perdeu uma ou mais temporadas recusando-se a bancar o árbitro de vídeo, tentando repassar a responsabilidade para os clubes. A CBF nada faz para coibir a violência nos estádios. Dormiu no ponto, só para citar caso recente, e não se manifestou sobre a final da Guanabara entre Vasco e Fluminense, vencida pelo time cruzmaltino no Maracanã, após confusão generalizada e 29 feridos, contando mulheres e crianças.

Sua omissão para casos espinhosos parece fazer parte do seu regulamento interno. Na semana passada, nada disse sobre outras divisões, outros torneios, como manter uma legião de clubes do País em atividade o ano todo. O torcedor gostaria de ver a CBF à frente do comando, desde que ela fosse uma organização desprovida de interesses, sem cor clubística, com vontade de resolver as pendências que dizem respeito ao futebol nacional, mesmo que errasse e corrigisse depois os erros.

 

 

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