Jose Jacome/Reuters
Jose Jacome/Reuters

Uma estrela, vários pretendentes e o despertar de abutres. Veja como times europeus caçam talentos

Não demorou muito para que o desempenho de um jovem de 19 anos no Equador chamasse a atenção dos maiores clubes da Europa; no cruel mercado de transferências do futebol, eles não eram os únicos de olho

Rory Smith, The New York Times

26 de janeiro de 2021 | 15h00

Nada fica em segredo por muito tempo no futebol. Tão meticulosa é a caça ao talento do esporte e tão desesperada é sua sede por jogadores que nenhum território fica desconhecido, nenhuma pedra sobre pedra, nenhuma perspectiva não observada. A distância não é barreira. O afastamento não é um fator. A luz do farol é tão forte que não existe mais obscuridade. E assim, ao longo do ano passado, os clubes poderosos das principais ligas da Europa têm voltado sua atenção para Sangolqui, um subúrbio ao sul da capital do Equador, Quito.

Eles se concentraram em um clube que dificilmente usa seu próprio estádio, pequeno e apertado, e em um meio-campista adolescente que ainda não tinha duas temporadas em sua carreira profissional. Moisés Caicedo não teria ficado sabendo - não até recentemente -, mas seu nome tem estado na boca de olheiros e diretores técnicos por toda a Europa há meses.

Poucos clubes do velho mundo, se é que existem, têm um olheiro focado em ligas como as do Equador. Em vez disso, os jogadores emergentes são vistos nas competições continentais da América do Sul - a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana - ou acompanhados em torneios internacionais juvenis.

Quando um jogador de interesse é identificado, pessoas da equipe de recrutamento vasculham as imagens de suas partidas em casa e os dados de desempenho correspondentes em plataformas como Wyscout, InStat e Scout7. Só então, se os números parecem valer a pena, os olheiros (funcionários do clube ou freelancers de confiança em mercados específicos) são enviados para observar o jogador pessoalmente.

Meio-campista ativo e sereno, Caicedo, agora com 19 anos, passou em todos os testes. O olheiro sul-americano do Manchester United alertou o clube inglês sobre o talento de Caicedo. O Milan ficou sabendo que os dados e a avaliação de seus olheiros diziam que ele valia a pena. O Club Brugge, campeão belga, também o notou. O mesmo aconteceu com um grupo de times da Inglaterra - Brighton e Chelsea entre eles. Afinal, nada permanece em segredo por muito tempo. Todos, de modo independente, determinaram que Caicedo era uma aposta interessante.

Muitos deles começaram a fazer perguntas discretas, fazendo isso com discrição tanto com o jogador quanto com seu clube - Independiente del Valle - para decidir como um acordo poderia ser feito. E todos ouviram exatamente o mesmo aviso: encontrar Caicedo foi a parte fácil. Descobrir como, exatamente, contratá-lo seria muito mais difícil.

Rápida ascensão

Mesmo no Independiente del Valle, houve alguma surpresa com a rapidez com que o adolescente que o clube encontrou jogando em Santo Domingo, uma pequena cidade algumas horas a oeste de Quito, havia se desenvolvido. Quando se mudou para o Sangolqui, Caicedo não era um dos destaques da equipe sub-16 que integrou, mas era tranquilo, determinado e aprendia rápido. Essa equipe tinha vários jogadores que representariam o Equador nas categorias de base, mas no final de 2019, Caicedo havia superado todos eles.

Ele fez sua estreia na liga pelo Independiente em outubro daquele ano, como reserva contra a LDQ e, no fim do mês, teve sua primeira oportunidade em campo. Em fevereiro de 2020, ele foi o capitão da equipe jovem do clube até a vitória na Copa Libertadores sub-20. Quando voltou, foi direto para o time principal. Ele apareceu em seu primeiro jogo da Libertadores em abril.

Se a velocidade de seu sucesso foi um pouco inesperada, ela foi tratada pelo Independiente como uma justificativa do modelo do clube. Embora a equipe tenha sido fundada em 1958, sua versão moderna surgiu apenas em 2007, quando foi adquirida (e transformada em uma empresa privada) por um grupo de empresários liderados por Michel Deller.

“Havia uma visão clara”, disse Luis Roggiero, gerente de esportes do clube. “Há uma fonte de talentos no Equador que não teve a oportunidade de se desenvolver. Os jogadores que avançaram o fizeram por seus próprios méritos, não porque encontraram um clube ou federação que os ajudasse. A ideia era construir um clube para competir a nível nacional e internacional, encontrando os nossos próprios talentos, descobrindo-os desde cedo e desenvolvendo-os à nossa maneira”.

Nos últimos anos, o Independiente tem conseguido vender jogadores não só para as ligas que têm alguma tradição de importar talentos do Equador, como Argentina, México e Brasil, mas também, cada vez mais, para clubes da Europa. Os jogadores partiram para Granada e Real Valladolid, na Espanha, para a Atalanta, da Itália, Brighton, na Inglaterra, Genk, na Bélgica, e para o Sporting, em Portugal.

Conforme Caicedo tinha mais sucesso, ficou claro que ele seria o próximo a fazer essa jornada. Mas, embora mais equipes europeias possam estar de olho no Independiente (e no Equador como um todo, após uma série de bons resultados de suas seleções juvenis internacionais) como uma fonte de talento, o país continua sendo um mercado desconhecido para a maioria.

Seus clubes, geralmente, preferem vender jogadores para outras ligas sul-americanas, onde a taxa inicial muitas vezes pode ser mais alta. As agências mais poderosas do país tendem a ter vínculos bem estabelecidos com Brasil, México e Estados Unidos. Poucas equipes europeias têm presença ou chaves de acesso. Para elas, pode ser um terreno incerto e desconhecido. E sempre há muitas pessoas, no mercado de transferências do futebol, prontas para capitalizar sobre qualquer incerteza. Falta de familiaridade, para alguns operadores, significa oportunidade para outros.

A disputa

A maioria dos clubes europeus recebeu o mesmo retorno quando começou a se aprofundar um pouco mais na situação de Caicedo: não estava imediatamente claro, eles foram informados, quem exatamente estava representando o jogador, quem tinha o poder de concordar com os termos em seu nome. “Muitos agentes envolvidos”, como dizia a nota enviada a um departamento de recrutamento.

Assim que um jogador talentoso surge, um conjunto de empresários normalmente entra em cena, oferecendo acesso exclusivo a um determinado time ou liga, ou simplesmente a capacidade de negociar um contrato melhor. Às vezes, os jogadores assinam vários acordos com vários agentes, com base em nada mais do que promessas.

A maioria dos envolvidos no recrutamento aceita isso como as coisas são e sempre foram no mundo todo, embora muitos achem especialmente difícil fechar acordos para tirar jogadores da América do Sul. O diretor esportivo de um grande clube europeu, no entanto, acredita que o problema piorou muito desde que a Fifa passou a desregulamentar os empresários em 2015. “Agora você pode basicamente fazer o que quiser”, disse o diretor, que falou sob a condição de anonimato porque ele não estava autorizado a se pronunciar quanto ao problema publicamente.

É exatamente esse tipo de disputa que envolveu Caicedo. Durante grande parte de sua emergente carreira profissional, ele foi representado pela Kancha, uma agência equatoriana responsável por uma lista de jovens jogadores e parceira do Independiente. À medida que o interesse dos clubes por ele crescia, porém, também crescia o interesse das agências, ansiosas por lucrar não apenas com sua promessa, mas também com a relativa inexperiência dos times em comprar jogadores no Equador.

Familiares de Caicedo - ele é o caçula de 10 irmãos e tem 25 sobrinhos - receberam ofertas sem fim de empresários que queriam uma permissão oficial para vendê-lo. Pessoas próximas às negociações, embora não autorizadas a falar abertamente a respeito dos acordos de negócios privados, disseram acreditar que parentes haviam feito acordos com duas delas: uma empresa com sede na Alemanha, PSM Proformance, e uma empresa na Argentina. A PSM Proformance não respondeu a uma solicitação de comentário.

De repente, havia três agências - incluindo a Kancha - alegando falar em nome de Caicedo, com o poder de negociar um acordo. O Independiente, o clube que o treinou, foi efetivamente considerado irrelevante na venda. Ele receberá aproximadamente a mesma taxa, independentemente de qual agente feche negócio, e espera-se que peça uma cláusula que trará ao clube um corte de 30% em qualquer transferência futura também.

Mas se seu clube não foi afetado, o mesmo não pode necessariamente ser dito em relação a Caicedo. Com vários agentes não apenas divulgando-o por toda a Europa, mas também bombardeando a imprensa no Equador e em outros lugares com dicas sobre seu destino potencial, muitos clubes que tinham sido atraídos pela enorme promessa de Caicedo decidiram desistir. O Manchester United e o Milan decidiram não se envolver em uma situação que consideraram complicada demais para desenrolar.

Outros se mantiveram na disputa. O Brighton - atualmente considerado o seu destino mais provável - teve a vantagem de uma relação preexistente com o Independiente e a Kancha, tendo contratado um jogador de ambos em 2018. Caicedo vai entrar em ação; seu talento, no fim das contas, garante isso.

O que preocupa aqueles que o viram ter sucesso nos últimos anos é se será a jogada certa pelas razões certas. A ascensão de Caicedo até agora foi inesperada, quase impossivelmente tranquila. Estar exposto aos perigos do mercado de transferência, no entanto, significa que o caminho à frente está repleto de obstáculos. Ele foi encontrado. O risco agora é que ele ainda possa estar perdido. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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