Denise Andrade/Estadão
Denise Andrade/Estadão

Uma ética da bola?

O narcisismo que vem ganhando espaço entre os jogadores não só torna o espetáculo esteticamente mais feio

Rodrigo Naves*, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 04h00

Berlim, 9 de julho de 2006. Final: França e Itália, uma partida para não se esquecer. No tempo normal, placar de 1 a 1: Zidane de pênalti e Materazzi de cabeça. O jogo vai para a prorrogação. Aos 109 minutos, novamente Zidane e Materazzi voltam ao palco. Depois de o zagueiro italiano segurar o francês, Zidane se adianta, ultrapassa Materazzi, parece relutar em reagir, mas volta e derruba o italiano com uma forte cabeçada no peito. O zagueiro – que o reconheceu depois de muitos anos – havia ofendido a irmã de Zidane. Nos pênaltis, a Itália vence por 5 a 3.

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Essa passagem inesquecível, possivelmente o lance mais marcante da Copa de 2006, revela todas as minhas limitações como espectador de futebol. Gosto muito do esporte, embora não torça por nenhum time e tenha uma enorme dificuldade para identificar um padrão de jogo, pois tendo a ver apenas o espaço em que está a bola. Uma vez, para regozijo total de amigos mais enfronhados no assunto, cheguei mesmo a perguntar que infração correspondia àquilo que os locutores chamam “perigo de gol”.

Talvez eu seja um moralista – não no sentido de censor repressivo. Intuitivamente reparo nas atitudes e comportamentos extracampo dos jogadores. Admirava os esforços de Pelé para aprender a cabecear de olhos abertos – algo dificílimo – ou amarrar a perna direita ao pé de uma mesa para brincar com uma bolinha de tênis apenas com a esquerda e, assim, torná-la mais solidária. E todos os jogadores leais em campo.

Então, para mim, em certa medida, a habilidade leve e mágica de Neymar é muito relativizada por seu lado gabola e exibicionista. Seu corte de cabelo na estreia do Brasil contra a Suíça faria vergonha aos poodles de pelagem “estética”. Cristiano Ronaldo, um craque que faz lembrar a estabilidade física e mental de Pelé, joga olhando-se no telão dos estádios, não dá sossego a seu pequeno topete, e com frequência mostra seu tórax à la Hulk.

 

Bem, dirão os verdadeiros amantes do nobre esporte bretão, isso não tem importância diante da grandeza profissional dos dois. Concordo. Eu e meu senso estético que vão para o quinto dos infernos. Legal. O problema, porém, é que não quero usar critérios estéticos. Eles são morais, moraram? Um homem – ainda por cima rico e famoso – que ostenta seu corpo (no caso de CR7) ou seus cabelos (Neymar) literalmente para o mundo inteiro deve acreditar piamente que expõe algo digno de admiração.

Queiram ou não, os atletas estabelecem uma semelhança de seus corpos e penteados à beleza dos dribles, passes, deslocamentos em campo e lançamentos notáveis. Acredito que uma das grandezas do futebol e outros esportes reside numa cota imponderável de desinteresse. Sem um mínimo de altruísmo, diletantismo e alegria de jogar, não há atleta que vá muito longe. Garrincha que o diga.

O narcisismo que vem ganhando espaço entre os jogadores, pois também eles precisam se converter em marcas comerciais, não só torna o espetáculo esteticamente mais feio. Ele pode levar ao descontrole. Na Copa de 2014, o uruguaio Suárez mordeu o ombro do zagueiro italiano Chiellini. A agressividade é também um comportamento daqueles que, contrariados, preferem estilhaçar o espelho.

 

*PROFESSOR E CRÍTICO DE ARTE

 

 

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