Darren Staples/Reuters - 17/4/2010
Darren Staples/Reuters - 17/4/2010

Uma força ou uma farsa? Uma Inglaterra sempre conturbada

Outra Copa do Mundo se aproxima e o time novamente chega com sua usual combinação: confiança e medo

JERE LONGMAN, The New York Times

29 de abril de 2010 | 09h52

Circulou na mídia que a seleção nacional de futebol da Inglaterra dormirá em tendas especiais para se preparar para a altitude na África do Sul, local da próxima Copa do Mundo. Isso certamente foi um alívio para muitos, considerando onde dois jogadores de grande destaque andaram dormindo ultimamente em escândalos que custaram o posto de capitão ao defensor John Terry e o casamento a seu colega defensor Ashley Cole.

Se a Inglaterra fosse tão divertida em campo quanto tem sido nas matérias escandalosas dos tabloides, ela poderia ter ganho cinco ou seis Copas, não uma, no distante solo doméstico em 1966. Ai de nós, as seleções nacionais bem-sucedidas nunca estiveram à altura da expectativa desgastante e da cultura sensacionalista que faz "Footballers Wives" parecer menos uma série de televisão que um documentário corajoso.

Outra Copa do Mundo se aproxima, com a Inglaterra estreando contra os Estados Unidos em 12 de junho, em meio à usual combinação confiança impetuosa e medos nervosos. De um lado está a crença de que, como inventora do jogo, a Inglaterra tem o destino manifesto de vencer. De outro, existe o medo de que as coisas acabem dolorosa e prematuramente nas quartas de final, como sempre parecem fazer, mais provavelmente contra seus rivais históricos em guerra e futebol, Alemanha e Argentina, que eliminaram a Inglaterra em três de suas últimas cinco participações na Copa.

A ausência lancinante de outro título ficou conhecida como 44 anos "de dor". A esperança e o tormento público são melhor captados na letra de "Three Lions" (Três Leões), uma canção que se refere ao brasão inglês pregado à camisa da seleção nacional:

"Todos parecem conhecer a contagem

Eles já a viram antes

Eles simplesmente sabem

Eles estão tão seguros

De que a Inglaterra vai desperdiçar

Vai estragar tudo"

Phil Cornwell, um ator, comediante e comentarista de futebol, disse: "Somos reféns do fato de que já a ganhamos antes. Sentimos que devemos vencer toda vez. A colisão de esperança e angústia, esse é o apelo para mim. Fracasso glorioso. Nós prosperamos nisso."

A expectativa não realizada joga contra uma identidade nacional pós-imperial, pós-industrial em evolução, disse David Goldblatt, autor de "The Ball is Round" (A bola é redonda, em tradução literal). Na medida em que Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte ganharam mais autonomia governamental na Grã-Bretanha, o sentimento do que significa ser inglês se torna mais urgentemente ligado à seleção nacional de futebol, disse ele.

"A BBC é britânica, o Exército é britânico, o Parlamento é britânico, a família real é britânica", disse Goldblatt. "Onde expressar que se é inglês? Na seleção nacional de futebol. A Igreja da Inglaterra e a opera não são matérias das quais o nacionalismo é feito."

As esperanças de uma nação neste ano repousam, em grande parte, na convalescença do atacante Wayne Rooney, que se livrou de seu ímpeto juvenil e agora usa os pés para marcar gols e não para pisar nos genitais de jogadores adversários, o que o fez ser excluído das quartas de final da Copa do Mundo de 2006. Naquele ano, a Inglaterra teve êxito - bastante previsível - na cobrança de pênaltis.

Rooney é visto como o segundo melhor jogador do mundo, atrás somente do maravilhoso Lionel Messi da Argentina que infamemente tirou a Inglaterra da Copa do Mundo de 1986 com a ajuda do gol "Mão de Deus" de Diego Maradona e de novo em 1998 depois que David Beckham foi expulso. Mas Rooney, recuperado recentemente apenas de uma lesão no tornozelo direito, agora sofreu uma distensão num músculo da virilha. A autoconfiança do país também está mancando.

"A virilha ficará boa para a Copa", disse Rooney, no domingo, falando na terceira pessoa anatômica, acrescentando que esperava jogar a partida final do Manchester United na primeira divisão do futebol inglês em 9 de maio. "Sem preocupações", disse ele, mas este é um país onde se preocupar com futebol é uma obsessão tão grande quanto jogá-lo. Um tendão de Aquiles já custou à Inglaterra os serviços de Beckham, o melhor metrossexual em tiro livre do mundo.

Por enquanto, as lesões de Rooney não provocaram a histeria de 2002, quando Beckham fraturou um osso do pé antes da Copa do Mundo, o primeiro-ministro Tony Blair interrompeu uma reunião do gabinete para comentar e um tabloide pediu para os leitores colocarem a mãos sobre uma foto em tamanho natural do pé de Beckham na esperança de acelerar sua recuperação.

A maioria das pessoas por aqui ainda aceita que sem Rooney em plena forma, a Inglaterra tem tanta chance de vencer a Copa do Mundo quanto de vencer a World Series (a série final do campeonato americano de beisebol). "Somos totalmente dependes de um jogador", disse Cornwell, o ator.

Os torcedores e a mídia noticiosa da Inglaterra são com frequência criticados por pressionar ou demolir jogadores estrelados quando a Copa do Mundo se aproxima. Há muita reclamação de que a cultura de celebridade do futebol se tornou corrosiva.

Na segunda-feira, Oliver Kay, o corresponde especial sobre futebol do jornal The Times de Londres, censurou o que chamou de fofocas maldosas na internet sobre um astro inglês não nomeado. Sua coluna recebeu respostas de apoio online de leitores, um dos quais escreveu, "Estamos nos tornando uma nação de bruxas tagarelas, esperando a próxima vítima para a guilhotina".

No entanto, alguns dos maiores astros da Inglaterra arranjaram seus próprios problemas. Terrym, que é casado, perdeu o posto de capitão da seleção em fevereiro depois que reportagens revelaram seu caso affair com uma modelo de lingerie francesa, que era a ex-namorada e mãe do filho de seu colega de seleção inglesa, Wayne Bridge.

Bridge se recusou a apertar a mão de Terry na primeira vez que seus clubes se enfrentaram depois do caso, e abandonou a seleção, dizendo que sua presença provocaria divisões e dispersão. Alguns aplaudiram o gesto de Bridge, mas outros o criticaram por deixar que problemas pessoais interferissem na ambição profissional de vencer o campeonato mundial.

Mais tarde, Terry inadvertidamente atropelou um segurança com seu carro, quebrando a perna do homem, após uma partida do Chelsea, seu clube, e sofreu uma queda na qualidade do seu jogo. Sua relação com o Chelsea se deteriorou, resultando numa expulsão e na suspensão de um jogo neste mês. Enquanto isso, seu pai foi acusado de traficar cocaína. Há pouco tempo, esperava-se que Terry comandasse a seleção inglesa na Copa do Mundo. Agora muitos o consideram fora. (tradução de Celso M. Paciornik)

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