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Uma noite calma

O que explica a tranquilidade em São Paulo em uma noite de queda do Corinthians na Libertadores?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 04h00

Nem parecia outros tempos. E quando falo de outros tempos, me refiro há uns dez anos. Naqueles tempos uma Libertadores era algo que realmente mexia com os torcedores. Sentia-se no ar a eletricidade. Havia insultos trocados entre apartamentos, gracejos pesados entre vizinhos, e não estou falando de bairros afastados, mas próximos ao centro e de confortável classe média.

Alguma coisa, porém, talvez esteja em vias de acontecer, e creio que há mudanças por aí. Percebi isso na quarta-feira. Não pude ver Corinthians x Guaraní. De onde eu estava, porém, podia ouvir muito bem as manifestações ao redor. Prestei, como antigamente, atenção aos ruídos reveladores vindos da vizinhança. E durante bastante tempo não ouvi ruído algum. Quando fiz uma a breve interrupção no que estava fazendo para ver como andava a partida verifiquei, com espanto, que o placar era Corinthians 2 x 0 Guaraní. E eu não tinha ouvido nada, nem uma simples comemoração, nenhum grito!

Há corintianos nessa cidade por toda parte. Na minha vizinhança também, e sempre foram ruidosos. Onde estavam quarta-feira? Ao contrário de outras épocas, ninguém comemorava, ou por desconfiança do time ou mesmo, talvez, já como uma premonição de que as coisas iam acabar mal.

Voltei ao que estava fazendo e por algum tempo não pensei mais no assunto. Quando voltei ao jogo, outro assombro. Faltavam poucos minutos para terminar e o placar era Corinthians 2 x 1 Guaraní. Essa surpresa foi maior do que a outra. Onde andavam os anticorintianos, inúmeros também, em toda parte nessa cidade. Pensando bem, acreditei ter ouvido mesmo umas risadas, mas não tenho certeza e acho que me enganei.

No fundo não houve comemoração alguma com a classificação do Guaraní em plena arena corintiana. Havia calma e as pessoas se preparavam para dormir como de hábito. Mas o Corinthians tinha acabado de ser eliminado precoce e humilhantemente da Libertadores. Como explicar a calma?

A melhor hipótese que me ocorre é que faz falta o Pacaembu. Algo me diz que no Pacaembu as coisas teriam sido diferentes. Localizado no centro geométrico da cidade, ao alcance de todas as torcidas, contra e a favor, a tragédia teria um outro sentido e seu tamanho seria também outro. A distância que agora separa o Corinthians do seu hábitat natural,que sempre foi o Pacaembu, parece estar fazendo um efeito curioso. As coisas distantes perdem um pouco a importância.

O Pacaembu era palco de disputas que se passavam diante de nós, na nossa frente, portanto, com um caráter todo especial. Multidões derrotadas no Pacaembu desfilavam tristes por avenidas centrais da cidade, exibindo sua infelicidade a todos. E, muitas vezes, sua revolta. Tudo isso agora ficou um pouco invisível. E acho que isso vai enfraquecer a Libertadores.

Não me alegra, mas também não desgosta. Nunca morri de amores por essa competição. E, para atestar a mudança, até os comentaristas faziam comentários chochos depois da derrota. Não havia indignação alguma, ao contrário. Havia quase uma unanimidade, primeiro em preservar a figura do treinador, depois dos próprios jogadores. Nem o juiz – pasmem! – foi crucificado. Nem a expulsão de um corintiano na metade do primeiro tempo serviu para brados indignados contra ele. E – atenção! – tratava-se de um juiz argentino.

Os protestos de pessoas, aparentemente dirigentes, no fim do jogo foi quase protocolar. Dois guardas, quase sonolentos, vigiavam a entrada do vestiário do juiz. E era só. Havia, enfim, uma grande condescendência nas críticas. Críticos ferozes que habitualmente não poupam nada, mostravam-se extremamente prudentes e comedidos. Não houve, a rigor, tragédia alguma quarta-feira à noite. Todos fomos dormir em paz e Corinthians x Guaraní tomou ares de uma partida normal de uma competição qualquer. Será mesmo? 

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