Divulgação/Atlanta United
Divulgação/Atlanta United

Uma nova Atlanta, unida pelo clube de futebol da cidade

Time é a nova sensação da MLS graças ao apoio de seus apaixonados torcedores; média é de quase 50 mil por jogo

Ken Belson / THE NEW YORK TIMES/ ATLANTA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2018 | 07h00

Jay Riddle mudou-se há 14 anos para esta cidade na qual 37% dos moradores vieram de outros Estados (“transplantados”) e, durante grande parte desse tempo, sua vida girou em torno do trabalho na indústria aeroespacial. Seu principal objetivo era assistir aos jogos do Arsenal na televisão todo final de semana. Ele conhecia muito pouco da principal liga de futebol dos Estados Unidos (Major League Soccer, MLS).

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Mas quando Arthur Blank, dono do Atlanta Falcons, foi premiado com uma franquia para expansão na liga em 2014 e anunciou planos de chamar o time de Atlanta United, Riddle aproveitou a chance para abraçar uma nova equipe na cidade que adotou como sua terra natal. Ele se uniu ao Faction, um grupo de fãs que o conectou a uma parcela de outros moradores da Atlanta. Fez novos amigos. E eles o apresentaram a muitos outros mais.

E, depois do recorde da primeira temporada do Atlanta United no ano passado, Riddle, de 35 anos, resolveu comemorar a sua nova paixão com uma tatuagem em cada braço: um enorme logotipo do time do lado direito e o escudo do Faction no esquerdo. “Eu me esforço ao máximo”, disse ele. “Trata-se de criar raízes e participar da comunidade. Durante 10 anos, não encarei Atlanta como o meu lar. Agora, o Atlanta United é a cola que me liga à comunidade.”

Como em grande parte do sul dos Estados Unidos, o cenário esportivo em Atlanta é dominado pelo futebol americano, tanto profissional quanto universitário. Mas para “transplantados” como Riddle, sem vinculação com uma franquia existente ou universidade, o verdadeiro amor pelo esporte pode ser difícil de encontrar. A longa temporada de sucesso do Braves na liga principal de beisebol (MLB) nos anos 1990 e início dos anos 2000 é agora uma lembrança, e no ano passado a equipe mudou-se para os subúrbios. Os Hawks da NBA, a famosa liga de basquete dos EUA, raramente se saíram bem e duas equipes da liga nacional de hóquei no gelo (NHL) têm altos e baixos.

No ano passado, o Atlanta United avançou com avidez para ocupar esse vácuo esportivo profissional, quebrando recordes de público, dominando as vendas de mercadorias da MLS e assumindo a liderança pela pontuação. Seis meses depois de ter chutado a bola pela primeira vez, tornou-se a quarta equipe na história da liga a se classificar para os playoffs em sua temporada inaugural. Este ano, sua trajetória ascendente se manteve imbatível: a participação do público continuou a crescer, para cerca de 50 mil torcedores por jogo, e a equipe compete mais uma vez pela melhor campanha da liga.

Um ano depois que a primeira equipe entrou em campo, as bandeiras do Atlanta United agora tremulam nos pátios da frente e nos pórticos de muitos bairros. Os programas de rádio de esportes, dedicados ao futebol, têm uma boa audiência, e é cada vez mais difícil passar um dia no centro de Atlanta sem ver alguém usando uma das camisas da equipe.

Por muito tempo, “Atlanta era conhecida pelo tráfego, pela expansão e pelo aeroporto”, disse Michael Tavani, 38 anos, outro “transplantado”, um empresário que trabalha na região central da cidade. “Não era legal ser de Atlanta.”

Mas nos últimos cinco anos, ele percebeu que havia um orgulho cada vez maior pela cidade, especialmente entre seus moradores mais jovens. “Esta geração de pessoas”, disse Tavani, “quer criar um lugar especial.”

Quando Blank lançou o Atlanta United, ele tinha dinheiro e paciência para contratar funcionários mais de dois anos antes de o time programar seu primeiro jogo oficial. Em vez de recrutar executivos e treinadores de outras equipes da MLS, ele foi ao exterior em busca de talentos e inspiração.

“Compreendi claramente que este era um jogo global e a MLS estava tentando competir, então eu sabia que teríamos de atrair talentos de todo o mundo”, afirmou Blank antes de uma vitória em abril no Mercedes-Benz Stadium, que seu clube de futebol compartilha com a equipe da NFL, o Atlanta Falcons. “O futebol americano é o melhor do melhor dos Estados Unidos. Mas o futebol é jogado em 209 países. É muito mais complicado que a NFL.”

O primeiro contratado de Blank foi Darren Eales, um afável advogado inglês que jogou futebol universitário na Brown. Eales havia trabalhado mais recentemente em um clube da Premier League, o Tottenham, onde, como diretor de administração do futebol, ele era encarregado de negociar contratos e transferências, incluindo alguns jogadores que vinham ou estavam indo jogar na MLS.

Durante anos, os clubes da MLS procuraram na Europa nomes bons de marketing para o topo de suas equipes e suas folhas de pagamento. Mas quando Eales se juntou ao Atlanta United em novembro de 2014, ele sugeriu algo diferente a Blank: queria focar em jogadores talentosos e menos conhecidos na faixa dos 20 anos, a maioria da América do Sul, com o intuito de desenvolvê-los por alguns anos e depois vendê-los a clubes maiores e mais ricos da Europa.

A estratégia é o plano de sobrevivência financeira da grande maioria dos clubes do mundo, mas na MLS – que por muito tempo preferiu gastar seus fundos de contratação de nomes mais bem estabelecidos e mais conhecidos – ela qualificou-se como revolucionária. Eales persuadiu Blank, que precisaria apostar alguns milhões de dólares para concretizar a visão, a fim de encarar tais medidas não só como aquisições, mas como investimentos.

“Com os jogadores mais velhos, não há vantagens, porque eles estão no final de suas carreiras”, disse Eales. “Aos 34 anos, provavelmente terão ainda uns dois anos na ativa” e têm limitado valor de revenda.

Firmar com um jogador mais jovem um contrato de vários anos, argumentou ele, oferecia o potencial que até mesmo as maiores aquisições poderiam pagar por si mesmas um dia. “Você pode obter US$ 20 milhões ou US$ 30 milhões”, disse Eales. “E, no mínimo, você pode ser capaz de recuperar o que pagou ao jogador.”

Parte do trabalho de Eales é escolher os atletas corretos. Para persuadir os sul-americanos de 20 e poucos anos a apostar seu futuro profissional em uma equipe que ainda não existia, Eales contratou Gerardo Martino, um técnico argentino conhecido como Tata com currículo comprovado – ele já treinou no Paraguai, em Barcelona e na Argentina – e um olhar perspicaz. 

​CREDIBILIDADE

A contratação de Martino deu ao Atlanta United credibilidade instantânea junto ao o tipo de jogadores que Eales planejava seguir, incluindo Josef Martínez, venezuelano que jogava na Itália; Miguel Almirón, que conhecera Martino quando ele se destacou entre as equipes juvenis do Paraguai; e Ezequiel Barco, um argentino de 19 anos que custou US$ 15 milhões na última temporada – a maior quantia que a MLS já pagou por um jogador.

Para Almirón, a palavra de Martino era suficiente. “Chegou um dia que Tata me ligou e disse: ‘Quero contar com você neste time’. Eu disse a Tata que queria vir, embora não soubesse mais nada sobre o projeto”, comentou o jogador.

Martino imaginou um jogo de alta intensidade e frenético que Eales justificou como algo que valeria o risco: “Estamos na indústria do entretenimento”, ele disse, “então vamos construir uma equipe que esteja sempre no ataque.”

“Se vamos vencer um jogo apertado”, acrescentou Eales, “prefiro vencer por 4 a 3 em vez de 1 a 0.”

O estilo emocionante e às vezes arriscado conquistou os fãs, que ajudaram a estabelecer um recorde de comparecimento na temporada passada, quebrado no final do ano e depois o superado quando mais de 72 mil torcedores compareceram ao jogo inaugural da temporada. No centro dessa participação está a base de venda de ingressos da temporada da equipe, com uma média de quase 50 mil torcedores por partida.

TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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