Divulgação/Fifa
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Uma oficial de futebol provou um caso de discriminação. Mas ninguém foi punido

Mariyam Mohamed revelou que foram oferecidos incentivos para ela desistir da sua candidatura dentro da Confederação Asiática de Futebol

Tariq Panja, The New York Times

06 de abril de 2021 | 15h00

A decisão não podia ser mais clara. Uma das seis confederações do futebol mundial adotou comportamento discriminatório contra uma mulher, impedindo que ela assumisse um assento na sua diretoria e uma posição de liderança na FifaMariyam Mohamed convenceu os juízes da mais alta corte esportiva de que um influente xeque do Kuwait interferiu ativamente nas eleições realizadas pela Confederação Asiática de Futebol (AFC na sigla em inglês) em 2019, para conseguir o resultado que desejava.

A decisão, ainda não publicada, foi obtida pelo The New York Times. Um painel do Tribunal Arbitral do Esporte, na Suíça, decidiu que a inação das autoridades asiáticas do futebol durante vários meses foi uma “denegação de justiça”, a favor de Mohamed.

Mas, dois meses depois de a decisão ser anunciada, o resultado do que parecia ser uma robusta denúncia de violação da ética e de desrespeito pelos direitos da mulher teve o efeito de uma bola de neve atingindo um blindado. Nada aconteceu. Os homens que ofereceram incentivos para ela desistir não foram punidos. E os líderes do futebol não tomaram nenhuma medida.

Em um e-mail, a Fifa absteve-se de comentar o caso, embora tenha insistido anteriormente que seguiria a decisão da corte com as autoridades esportivas na Ásia. A federação asiática também não quis comentar, dizendo que seus líderes não tinham nada a acrescentar à declaração feita em janeiro, quando prometeram que a organização analisaria as conclusões do tribunal.

Para Mohamed, o silêncio tem sido irritante. “É apenas um jogo para eles, apenas negação, o mesmo processo em que eu estava antes. Eles esperam que o tempo passe e eu me canse. Agora veio o veredito e é triste. Não sei onde isso vai chegar agora."

Mohamed, que apresentou suas queixas ao departamento disciplinar da federação asiática em maio de 2019, diz que de início comemorou a decisão do Tribunal, mas depois percebeu que era uma vitória de Pirro. Ela não foi contactada pelos dirigentes da AFC. E não houve nenhuma reação da parte dos investigadores do departamento de ética da Fifa, apesar de as regras do órgão estabelecerem que discriminação de gênero “é estritamente proibida e passível de punição, como suspensão ou expulsão”.

O caso e o seu resultado sublinham como o poder interfere nos esportes globais. Mostram como um xeque do Golfo ligado a outros casos de corrupção tem exercido um forte controle sobre um dos maiores órgãos dirigentes do futebol, embora não tenha nenhum papel oficial nos seus assuntos internos. E mostram como as delongas usadas como estratégia são também um tipo de injustiça.

O caso de Mohamed tem raízes na resposta da Fifa aos seus próprios problemas envolvendo discriminação: para resolver a questão da falta de mulheres na sua diretoria, a organização, desde 2013, separou assentos específicos para mulheres, de início estabelecendo que haveria um membro feminino com direito a voto, e agora instituindo que deve haver no mínimo uma mulher de cada uma das seis confederações regionais da Federação Internacional de Futebol.

Mohamed, ex-jogadora e técnica de futebol das Maldivas, arquipélago no Oceano Índico, esperava ocupar uma cadeira na AFC numa votação que se realizou em Kuala Lumpur, Malásia, em abril de 2019. Não demorou muito tempo para ela entender que pessoas poderosas e influentes do futebol asiático já haviam decidido o resultado da eleição.

Numa audiência no Tribunal Arbitral do Esporte, em julho do ano passado, a federação asiática não conseguiu oferecer uma defesa. Seus advogados não apresentaram testemunhas para contestar o depoimento de Mohamed de que uma alta autoridade da confederação e o diretor da federação de futebol do Catar estavam presentes numa luxuosa suíte de um hotel quando o xeque do Kuwait, Ahmad al-Fahad al-Sabah, disse a ela que tinha decidido que sua candidata favorita, Mahfuza Akhter Kiron, de Bangladesh, seria eleita representante feminina da federação asiática no conselho da Fifa.

Foi então pedido a ela para desistir da sua candidatura num prazo de 24 horas. Ela afirmou também, o que não foi contestado pela AFC, que o xeque tentou apaziguá-la dizendo que tinha muita influência nos círculos internacionais do futebol e que conseguiria “qualquer posição da escolha dela dentro da AFC ou da FIFA”, em troca dela retirar sua candidatura.

Neste ponto o xeque não tinha nenhum cargo oficial no futebol, tendo renunciado à sua posição no conselho da Fifa em 2014, depois de acusações que surgiram num processo em um tribunal federal dos Estados Unidos que ele havia subornado autoridades asiáticas. Mas a decisão de Mohamed de levar seu caso ao tribunal mostrou que o xeque continua desfrutando de uma posição poderosa e influente no esporte global como presidente do Conselho Olímpico da Ásia, organização criada por seu pai em 1982.

Em uma reunião do Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2013, por exemplo, o apoio do xeque Ahmad ajudou Thomas Bach a conquistar a presidência do COI e também deslanchar as Olimpíadas de Tóquio de 2020. Desde que foi indiciado num caso de falsificação relacionado ao esporte, em 2019, ele se afastou de duas funções importantes no âmbito das Olimpíadas. Mas sua opinião ainda tem peso.

Antes das eleições na AFC em 2019, seus problemas legais não pareciam ser um problema. Uma lista com seus candidatos favoritos foi distribuída aos eleitores da federação asiática na véspera da eleição e, cientes da conversa com Mohamed e da preferência do xeque por uma candidata diferente, os líderes de diversas federações a pressionaram para abandonar sua candidatura. Ela se recusou e perdeu a eleição por 31 votos a 15. Todos os candidatos da lista do xeque Ahmad foram eleitos para a diretoria executiva da AFC, ou, no caso de Kiron, como representante da confederação na Fifa.

Após análise das provas apresentadas por Mohamed e seus advogados, o painel de juízes do Tribunal Arbitral do Esporte deixou claro no resumo da sua decisão que concordava com a versão dela dos eventos. E confirmou que a eleição de 2019 violou as regras da Fifa e da AFC sobre discriminação de gênero. E concluiu que o xeque influiu no resultado da eleição e que o AFC denegou justiça a Mohamed ao não emitir uma decisão quando ela apresentou queixa. E o painel decidiu ainda que, ao não desistir da candidatura naquela eleição, Mohamed garantiu que os esforços do xeque para influir na eleição não funcionaram no seu caso.

Mas os juízes também declararam que o tribunal não tem poderes para ordenar uma anulação da eleição, ou para punir quaisquer dos indivíduos acusados de interferência. Qualquer ação futura a respeito é uma decisão que cabe à Fifa e à AFC. Devido às normas que regem o tribunal, as conclusões do painel de juízes são mantidas em segredo, desde que o veredito foi anunciado em 25 de janeiro.

“Se nada acontecer, será uma desgraça para a Fifa, a AFC e vai corroer a autoridade do próprio tribunal indiretamente”, afirmou Miguel Maduro, ex-presidente do comitê de governança da Fifa que depôs no caso de Mohamed. “Essa decisão e o que segue nos informa que o Tribunal expôs a corrupção no mais alto nível nas eleições no âmbito do futebol e ao mesmo tempo nos diz que ele não pode fazer nada a respeito”, disse ele. / Tradução de Terezinha Martino

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