Uma página exemplar

A página do título não é uma metáfora indicando o registro de algum feito memorável. É mais do que isso. É uma página real deste jornal: A19, ESPORTES, de 17 de julho. Quem diagramou a página talvez tenha sido beneficiado pelo acaso, pois a disposição das matérias é uma radiografia perfeita do que aconteceu com o futebol no último meio século.

Ugo Georgetti, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2015 | 03h00

 

Não creio nisso, porém. Acho o pessoal do ESPORTES muito bom para se beneficiar do acaso. Creio numa proposital, sutil mensagem, cheia de significado. Cerca de 70% da página, começando pela parte superior, é ocupada pela morte de Ghiggia, nosso carrasco na final da Copa de 50. Fala do jogo, mas também de Ghiggia, de sua carreira no Uruguai, depois na Europa, mas uma Europa ainda dos anos imediatamente pós-guerra, onde não se ganhava tanto dinheiro. Fala inclusive de seus últimos anos, como uma espécie de administrador de um supermercado em uma cidade uruguaia de província. Mas foi sempre um herói para os uruguaios, cercado de respeito e admiração. 

Neste fim de semana foram suspensas no Uruguai todas as partidas de futebol para lembrar o último jogador que restava dos 22 que estiveram em campo há 65 anos. Uma parte bem grande dessa matéria, no entanto, é ocupada por uma foto de Ghiggia em anos recentes. Nessa foto está o homem inteiro. Uma pessoa modesta, que revela na postura dos ombros derrubados e nos braços cruzados a resignação digna de quem vive com pouco, e no olhar alguma coisa de enigmático, de quem tem muito a dizer, mas prefere o silêncio. Mesmo a malha abotoada até o pescoço é de feitio e desenho populares, longe da moda ou luxo. 

A parte inferior da página, 30% mais ou menos, é dividida por duas outras notícias. Na primeira, à esquerda e maior, vem mais informações sobre o obscuro caso de Neymar-Santos-Barcelona. As mesmas cifras astronômicas e alegações de irregularidades de parte a parte. Nada de novo nesse assunto que não cheira nada bem. De resto, queixas e acusações nas quais o empresário Neymar sênior reivindica uma quantia que, a seu ver, o Santos ainda lhe deve. Nessa matéria há uma foto de Neymar pai, bem menor do que a de Ghiggia. A foto me interessou bem mais que a matéria. Essa sim era a foto do vencedor. Cabeça erguida, olhar confiante, bem tratado, barba bem feita, cabelo de corte atual e caprichado.

Todos os signos da foto de Ghiggia estavam ali, só que ao contrário. Até a camisa impecável era a de um homem rico. A matéria só falava de números e dinheiro, nenhuma palavra de futebol, nada como o dia de um herói, numa tarde de sol do Maracanã, com 170.000 espectadores siderados. Apenas notícias de um futebol financeiro, bem menos interessante, e, sobretudo, perdedor. 

Só que o pior, em termos de notícias, ainda estava por vir, bem menor que as outras, e na parte inferior direita da página. Tudo nesse texto é pequeno, menor ao extremo. Fez muito bem o diagramador em lhe dar a dimensão que tem. Lá somos informados de que a habitual picaretagem que resolveram chamar de “Superclássico” não vai se realizar.

Pra quem não sabe trata-se de um amistoso entre Brasil e Argentina, jogado de vez em quando, sem qualquer motivo maior, a não ser fazer dinheiro para os espertos de costume. Pois bem, este ano a sinecura falhou pelo simples fato de que as três empresas que sempre organizam a partida, duas argentinas e uma brasileira, tem seus donos presos ou com os bens bloqueados pela justiça. 

Com essa nota acaba a página A19, e certamente algo do futebol. É a chamada pá de cal, como se a grandeza estampada nos 70% superiores da página tenha aos poucos se degradado, despencando, até chegar na pequena, última notícia, que expressa claramente o último degrau que restava ao futebol descer. Felizmente Ghiggia, como se desse um basta, tirou seu time de campo e caiu fora.

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