Uma vitória sem prazer

Torcedores baianos aplaudiram a seleção brasileira na vitória diante do Peru nesta terca-feira em Salvador. Aplausos a um time que fez tudo certinho, dentro do enredo, quando se tem pela frente um adversário modesto e desprovido de talento. Vencer era obrigação. Encantar a torcida é outra história.

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2015 | 00h00

A seleção brasileira fez um primeiro tempo pobre diante do Peru. Sem muita criatividade. Sobreviveu dos dribles e arrancadas de William, como um autêntico ponta-direita. Foi ele quem inventou o lance do gol de Douglas Costa, aos 22 minutos. Neymar? Repetiu a atuação opaca que havia exibido diante da Argentina e, para variar, levou um cartão amarelo.

Neymar, astro maior, passou os 45 minutos iniciais querendo ser diferente. Não teve uma atuação coletiva. Pensou em  colocar a coroa na sua própria cabeça a distribuir a bola aos companheiros. Com essa insistência em ser o dono do jogo, pouco produziu.

Neymar à parte, o resto da seleção cumpriu com sua obrigação burocrática. Cada jogador ocupou sua posição, obedecendo ao roteiro traçado por Dunga. Carimbadores. Nada muito animador, apesar de uma mudança interessante proposta pelo treinador com Renato Augusto, centralizado à frente dos volantes Elias e Luiz Gustavo, e Douglas Costa e William abertos como pontas.

Diferente de Lucas Lima, que amarra a bola aos seus pés, carrega muito em velocidade até o passe, Renato Augusto tem o passe mais rápido, quase de primeira. E isso ajuda o jogo da seleção a fluir. Nada espetaculoso, mas correto.

Aliás, tem sido assim com Dunga. Quando o Brasil encara os grandes, vira correria e sem noção de tempo e espaço numa fábrica de contra-ataques. Mais por ansiedade do que por estratégia.

Quando enfrenta adversários de pouco peso, joga mais calma, menos ansiosa, e com mais autoridade, como fez diante do Peru no primeiro tempo em Salvador. Mas não deixa de ser pragmática, uma praga que contagia a seleção brasileira desde 1990.

É o Brasil do futebol do resultado e não do encantamento como mandava sua tradição. A repetição de treinadores adeptos do pragmatismo deixa a seleção acéfala, sem ideias para impor sua magia.

Vamos lá. Essa história começa com Sebastião Lazaroni no retumbante fracasso na Copa de 90, chega em Parreira, apesar da conquista sem sal do Mundial de 94, se reforça com Zagallo na França em 98, depois com Felipão, outro apaixonado pelo futebol de resultados, no penta em 2002. Volta com Parreira em 2006 na Alemanha e se perpetua com Dunga na África do Sul em 2010 até se esfacelar com os 7 a 1 de Felipão e Parreira.

Quando se esperava um sopro de vida após a derrocada na Copa de 2014, voltamos com Dunga no retrocesso do retrocesso. Dunga já está há um ano no comando da seleção e ainda não tem um time, nem uma boa estratégia a não ser jogar pelo resultado. A vitória diante do Peru nesta terça-feira é mera consequência desse enredo tedioso.

Presa à essas amarras, há muito tempo a seleção não empolga. E por isso não consegue convencer o torcedor. Onde havia alegria, há o desencanto.

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