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Uruguai na frente

A Copa já tem ganhador: é o Uruguai. De fato, só se fala do Uruguai em toda a imprensa. É claro que o assunto é a mordida, mas que importa. Ao Uruguai o que interessa é ser protagonista, seja lá do que for. Esse pequeno país de 3 milhões de habitantes, menor que muitos bairros de São Paulo, não aceita menos do que o protagonismo.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2014 | 18h21

Sempre que há oportunidade, o Uruguai não a deixa escapar. Tem na presidência um homem que vai a palácio guiando um Fusca, que nunca veste uma gravata, que produz gafes que divertem o país inteiro, que, ao mesmo tempo, promove medidas como a legalização da maconha, que preenche perfeitamente as ambições do país, ou seja, ser notado pelo resto do mundo, mostrar sua existência, exceder seu próprio tamanho. O aeroporto de Carrasco é pequeno para conter multidões saudando o herói que colocou o país nas manchetes.

Aliás, queria aproveitar para analisar essa mordida famosa. Ela é, em primeiro lugar, fruto do destino. Quem já viu alguma fotografia de Luisito Suárez não pode deixar de se perguntar com o que mais ele poderia contar, a não ser com os próprios dentes. Não é nenhum Hércules, não tem músculos de aço, mas tem, em compensação, uma bocarra com dentes enormes.

Sou capaz de imaginar o pequeno Luis ao perceber, pela primeira vez, diante do espelho, o dúbio presente que a natureza lhe tinha dado para se defender e atacar. Creio que muitos meninos das escolas públicas de Montevidéu conservam ainda uma viva lembrança dos ameaçadores dentes do coleguinha. E assim foi ele pela vida afora. Se você tem pernas fortes, dá pernadas; se braços, socos; se uma cabeça enorme, testadas; e se dentes como os de Suárez, mordidas. O Uruguai inteiro compreende isso e saúda seu herói.

Se fosse aqui no Brasil, e em outros lugares conhecidos, onde uma onda de hipocrisia recobre o cotidiano, um jogador que assim agisse seria considerado "mau exemplo para a juventude", "sem ética", merecedor da punição mais "rigorosa". Até boleiros brasileiros, de conduta mais do que controvertida, viriam a público execrar o colega. Isso tudo sem levar em conta que uma mordida não produz, nem de longe, as consequências de uma solada ou um carrinho por trás.

Isso, porém, não tem a menor importância para o lado uruguaio. A nação está unida, e seja qual for o resultado dos jogos vindouros, já se tornou protagonista da Copa.

A única que perdeu nessa história toda foi a Itália. Não por causa da mordida, mas por outra razão. De fato, a verdadeira punição para o Uruguai, e para Suárez, não é a que recebeu. A punição devida seria ter sido imediatamente expulso de campo. Não precisaria mais nada. Com dez contra dez, as coisas poderiam ser outras para a Itália. Os únicos que saíram prejudicados foram os italianos. Seria motivo para sentir certa pena da Itália, não fosse a lembrança do futebol que ela apresentou, um dos piores em toda sua história nas Copas. Há quem até ache a mordida merecida. 

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