Vágner Love é do "Leões da Geolândia"

Nem Corinthians nem Palmeiras: o atacante Vágner Love preferiu trocar, por enquanto, os milhões de dólares oferecidos pelos clubes do Brasil e do mundo para ganhar R$ 100 por jogo com o Leões da Geolândia, time amador com sede em uma padaria da Vila Medeiros, zona norte de São Paulo. Não abre mão de estar em campo domingo, diante do Unidos de Sobradinho, às 11h30, pela Copa Metropolitana. Muito menos do dinheiro dado a cada atleta. "Claro, tenho de garantir o leite da criança", brincou o jogador, em entrevista por telefone ao Estado, na tarde de ontem.A relação de Love com a equipe começou em 2000. Integrava as categorias de base do Palmeiras e, nas horas vagas, visitava a estudante Márcia França, namorada na época e vizinha da padaria Geovanna. Tanto a casa quanto o estabelecimento ficam na Rua Geolândia - daí o nome do time.Um dia, viu um grupo uniformizado ir para um jogo de futebol. Não pensou duas vezes, enturmou-se e passou a ser presença certa nos rachões de fim de semana do campo do Geavi (Grêmio Esportivo Associados da Via Norte). "No começo, vinha aqui no bairro só por minha causa. Depois de um tempo, a bola passou a ser mais importante que eu", disse Márcia, hoje mãe do filho de 7 meses do atacante: Vágner Silva Sousa Filho. "Mas todo mundo chama ele de Lovinho", contou.Mesmo tendo de cumprir a extenuante agenda do CSKA, da Rússia, Vágner Love arranjava tempo para conversar com os colegas da Vila Medeiros. Dividia as ligações entre os dois principais amigos e conselheiros. O primeiro é Nilton Amorim Ferreira, dono da padaria que serve como "escritório do Leões da Geolândia". "Diretor do time, digamos assim." O outro é o dono de uma transportadora de cargas, José Fernandes Santa Rosa, principal patrocinador da equipe - 14 empresas da região têm o logotipo no uniforme, que custou R$ 3 mil.O empresário é quem banca o pagamento dos atletas depois das partidas, gasta em torno de R$ 2 mil por jogo e não tem retorno financeiro algum. "Cada um leva R$ 100, R$ 120 por rodada. Parece pouco, mas para esses meninos é um valor importante", explica. Love, em São Paulo desde anteontem, já avisou: "Pode falar para o Santa Rosa que eu quero meu dinheiro. Estou precisando", disse o centroavante dos sonhos do Corinthians. "E nem vem com desculpa. Sou um jogador como qualquer outro." E ria do outro lado da linha.Santa Rosa é uma espécie de pai para a vizinhança. Certo dia, resolveram homenageá-lo. O Leões fazia amistoso com uma equipe de um bairro próximo e decidiram que o dono da transportadora deveria jogar por alguns minutos. Centenas de fogos de artifício aguardavam o momento. Calçou chuteira e vestiu uniforme, mas escolheu a pior hora para adentrar o gramado. "Me colocaram na hora que o adversário ia bater uma falta. Entrei e eles fizeram o gol", recordou, chorando de rir. "Eles gritavam gol; a gente soltava fogos."Patrocinador e Técnico - "Ganho muito, mas não em dinheiro. Sinto enorme prazer em ajudar quem precisa" - conta Santa Rosa. E, interrompido em seu emocionado discurso, leva um susto: acaba de descobrir que será o técnico contra o Unidos de Sobradinho. "Eu, técnico? Vocês devem estar loucos." O Leões da Geolândia estreou com empate na Copa Metropolitana, 1 a 1 com o Parque Estela, de Guarulhos. "Domingo é a segunda rodada e, com o Vágner, a gente tem tudo para ganhar", disse, esperançoso, o meia-esquerda Tuquinha, ex-jogador profissional que atuou por oito anos no Joinville (RS).O atacante do CSKA e toda a delegação do time da zona norte garantem não haver nenhum problema com o craque se aventurando no futebol de várzea. "Ele sabe tudo, não vai se machucar. Vai dar um banho nos zagueiros, você vai ver", afirmou o amigo Nilton.O jogo será no campo do Geavi, onde, segundo os companheiros, o ídolo foi vaiado pela primeira vez na carreira. "O Vágner tinha acabado de ser afastado do Palmeiras e, quando veio disputar uma partida com a gente, um monte de palmeirenses xingou ele. Perdemos por 2 a 1 para o AG Madeira", lembrou outro diretor da Leões, Cláudio Rogério Firmino.Polêmico logo em seus primeiros passos no futebol, Love foi flagrado com uma mulher na concentração da equipe de juniores do Palmeiras que disputava a Taça São Paulo, em 2003. Afastado, foi procurar consolo com os amigos da Geolândia. "Ficou morando aqui um tempo. Ganhava pouco demais, R$ 300 por mês, e a gente é que dava dinheiro para ele pegar ônibus para ir treinar sozinho no Parque Antarctica", recordou Firmino. "Ele é simples demais, nunca foi estrela. Vai na minha padaria e come pão com mortadela, ninguém acredita", acrescentou Nilton.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.