Vágner Love espera o chamado de Kia

No sofá da sala de um luxuoso apartamento em Moscou, Vágner Love olha a foto do filho de seis meses que acabou de voltar para o Brasil. Na cara, televisão de tela plana, imagens jogos e reportagens sobre o futebol brasileiro. Principalmente sobre o Corinthians e a seleção brasileira. "Nestas horas aperta a solidão e eu penso: Cadê meu filho? Cadê minha família? Cadê meus amigos? Meu lugar não é aqui. Se o Corinthians vier me buscar vou ficar muito feliz, muito feliz."No final da madrugada de sexta-feira passada, por telefone, Vágner Love deu uma entrevista reveladora para a Agência Estado. Mais do que o jogador, mostrou que o homem luta para não ficar deprimido no CSKA. Sabe que a campanha que está fazendo na Copa da Uefa com o time russo é histórica, maravilhosa. Sua conta bancária nunca esteve tão alta. Mas a saudade da vida que levava no Brasil não lhe dá paz de espírito."Eu não sou sacana. Se quisesse, faria corpo mole, ficava encostado, não me aplicava nos treinos. Só para forçar o pessoal do CSKA a me vender. Mas eu não sou assim. Estou jogando melhor do que quando estava no Palmeiras. E me aplicando até mais. Para sair pela porta da frente. Pela porta que entrei. Tenho vergonha na cara."A adaptação na Rússia está sendo mais fácil do que ele mesmo esperava. Fora ser tratado como uma grande estrela, formou uma comunidade brasileira em Moscou. Junto com Daniel Carvalho, seu companheiro de time, agregou jogadores de futebol de salão cariocas e paulistas que atuam no Dínamo. Em toda folga, o grupo sai pelas noites movimentadas de Moscou. "Existem várias danceterias de hip hop, está ótimo. Ou então, a gente faz uma vaquinha. Cada um dá um dinheirinho e a gente faz sempre uma festinha."E e as mulheres russas? "Parceiro...as russas são muito bonitas. Estou sendo bem tratado demais. Não tenho o que reclamar. Danço, curto. A nossa galera aqui é bacana. Até que me divirto bastante. O problema é quando fico sozinho. Aí a saudade bate forte. Não sabia que iria ser tão duro."Agência Estado - Muita gente esperava que você iria forçar a sua saída do CSKA. Mas pelo contrário, você não pára de marcar gols?Vágner Love - Eu não quero uma mancha dessas na minha carreira. A diretoria me paga tudo o que combinou. Tenho um apartamento excelente, carro, tradutor 24 horas, não passo um aperto. A estrutura do CSKA é excelente. Assinei contrato até 2007. Eles sabem que quero voltar para o Brasil. Mas enquanto não tiver um negócio fechado, vou dar a minha alma em campo.AE - E aquela história de frio, jogar com neve no gramado?Love - Não foi tanto como eu esperava. Os estádios têm aquecimento. O problema foi os pés. Nós colocamos na sola da chuteira umas placas que parecem papel alumínio. Elas aquecem os pés por 20 minutos. Depois, o frio da neve domina. Não dá para sentir nem os dedos. Você chuta a bola porque está acostumado com o movimento. Mas perde a sensibilidade. Nem sente o chute. Tudo só volta ao normal depois de colocar os pés na água fervente do chuveiro. Mas me acostumei. Agora, já começou até a sair o sol. Hoje estou com 12 graus positivo. Não é pelo frio que eu quero voltar, não.AE - Mas há rumores que existe preconceito na Rússia. É verdade?Love - Sim. Eu sou o segundo negro a jogar no CSKA. Antes veio um nigeriano. Quando vamos jogar o Campeonato Russo é só eu pegar na bola que as torcidas adversárias começam a imitar macaco. Isso não me afeta. Trato de fazer o meu, meter gol e deixo esse tipo de gente de lado, como se não existisse. Sou negro e tenho minha personalidade definida. Mas não vou mentir: ainda há preconceito por aqui.AE - Você está jogando bem, mas está esquecido da seleção brasileira. Não lhe incomoda?Love - Demais. Meu sonho é jogar a Copa do Mundo de 2006. A Rússia está distante. Ninguém nem sabe que estamos disputando o Campeonato Russo. Se eu estivesse em um grande centro, como a Espanha, Itália ou Inglaterra, as coisas seriam bem diferentes. Isso sem falar se eu estivesse no Brasil.AE - Como está a sua situação com o Corinthians?Love - Conversei com o Kia, deixei os salários acertados. Ele veio, conversou com a diretoria e ficou de voltar assim que acabar a nossa participação na Copa da Uefa. Estou esperando e procurando não deixar a ansiedade me atrapalhar. Está dando certo.AE - No íntimo, você acha que vai jogar no Corinthians ou surpreende e vai para o Chelsa?Love - Soube do interesse do clube inglês pelos jornais. Negociar só negociei com o Corinthians. Algo por dentro me diz que acabo indo para o Parque São Jorge. Acreditei quando o Kia me garatiu que me queria no time dele.AE - Você não se precipitou dando uma entrevista como jogador do Corinthians?Love - Errei mesmo. Com eu havia me reunido com o Kia e isso vazou, tinha certeza que todos os repórteres do Brasil iriam me perseguir para saber o que havia acertado. Resolvi dar a coletiva, fui inexperiente. Deveria ter esperado um pouco. Conversado antes com a diretoria do CSKA. Admito que errei.AE - Na coletiva você foi duro com o seu ex-clube, o Palmeiras. Não houve ingratidão?Love - Talvez não tenha me explicado bem. Sou grato até o final da minha vida pela chance que o Palmeiras me deu para aparecer ao futebol mundial. Só que acredito que houve falta de reconhecimento pelo que estava fazendo em campo. Juro pela felicidade do meu filho, o Vagninho, que é o que mais amo na vida: meu salário era de R$ 7 mil mensais. Não ganhava nada de direito de imagem, um centavo. Pedi um aumento. A diretoria avisou que não daria aumento nenhum e que me venderia. Foi o que aconteceu.AE - E em relação aos torcedores do Palmeiras?Love - Se em algum momento eu os ofendi, peço desculpas. Fiz os gols que eles queriam, mas a relação foi além dos gols. Me trataram bem demais e tenho de retribuir. É sempre bom lembrar que se não fosse pelo descaso da diretoria, eu estaria até hoje no Palmeiras. E feliz. Só que qualquer trabalhador corre atrás de aumento. Não sou diferente.

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