Luca Bruno/AP - 6/7/3020
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'Vai ficar uma ferida', diz Dunga

Ex-técnico da seleção não se arrepende de nada, diz que Felipe Melo 'pagou a conta', e volta a atacar a imprensa

EDUARDO MALUF, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2010 | 21h35

SÃO PAULO - Dunga se fechou em sua casa, em Porto Alegre, desde a chegada ao Brasil, no domingo, depois da decepção na África do Sul. Passou a semana ao lado da família e não assistiu aos jogos das semifinais da Copa - nem pretende ver a decisão de domingo. Nessa sexta-feira, pela primeira vez desde que iniciou o período de descanso, resolveu falar. Em entrevista exclusiva ao Estado, de cerca de uma hora, por telefone, disse não estar arrependido por ter deixado Neymar, Ganso e Ronaldinho fora do Mundial e que o "trabalho da seleção na África foi um exemplo". Declarou que Felipe Melo "pagou a conta", mas o isentou de culpa pela eliminação, e afirmou que a "ferida" da derrota para a Holanda já está feita em seu corpo e não sairá tão cedo. Contou ter propostas de trabalho e, embora diga não guardar mágoas, voltou a atacar a imprensa. Durante a conversa, levantou o tom de voz em alguns instantes, mas em nenhum momento foi desrespeitoso ou mal-educado.      

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O que tem feito nestes primeiros dias de volta ao Brasil e o que pretende fazer agora?

Agora estou em férias, com minha família e meus amigos. O futuro a Deus pertence.

 

O que achou dos jogos semifinais da Copa?

Depois que voltei, não vi nenhum jogo até agora. Tenho dedicado todo o meu tempo livre à família. Só fiquei sabendo dos resultados e mais nada.

 

Mas não vai assistir nem à final?

Não. Estarei com a família.

 

Guarda mágoas desse período na seleção? Sobretudo da imprensa?

Não tenho mágoa da imprensa, o que houve comigo foi normal, cada um faz seu papel. Apenas fui transparente e saio com a consciência tranquila. Queria ganhar, mas não deu, fazer o quê?

 

Agora que a Copa passou, o que faria de diferente?

Foi feito tudo o que tinha de ser feito. A seleção não foi fechada como vocês dizem. Eu, por acaso, entro na sua redação para ver o que você está fazendo? Ou entro na sua casa? Não. Então ninguém tem de entrar na concentração. Pra quê? Pra ver homem pelado? O que eu fiz foi organização. Mas alguém fala alguma coisa, critica, e vocês, da imprensa, vão todos atrás. Eu ajo com a minha consciência.

 

Não acha que poderia ter convocado Ganso e Neymar?

Por quê? O ataque não fez gol?

 

No fim, acha que a defesa é que acabou comprometendo?

Não, não podemos culpar a defesa. Ela nos salvou tantas vezes.

 

O José Luis Runco, médico da seleção, disse que o Kaká nunca chegou a estar 100%. Ele foi uma decepção?

Fazia cinco meses que o Kaká não jogava. A tendência era de que crescesse durante a competição, e ele vinha crescendo. Não tenho nada para falar do Kaká. Ele treinava pela manhã, à tarde, à noite... Às vezes, eu até precisava freá-lo.

 

O Felipe Melo foi considerado um dos culpados por comentaristas e torcida...

Alguém tem de pagar a conta. Em 1990, foi comigo.

 

Mas sua expulsão não foi infantil?

Infantil? Se eu perguntar o que você já fez de coisas infantis no seu trabalho, tenho certeza de que vai se lembrar... Não adianta massacrar o cara.

 

Não ficou chateado com a nota da CBF no site oficial anunciando sua dispensa?

Não, não fiquei chateado, o que tinha de dizer sobre isso já disse pela carta...

 

O Ricardo Teixeira (presidente da CBF) ligou para você ou a dispensa foi só pelo site?

Não, ele me telefonou. Cada um é cada um. Não posso exigir que ele aja como eu agiria. Não tenho do que me queixar. Ele (Teixeira) me deu a chance de dirigir a seleção brasileira, de fazer quatro anos de trabalho. Vou reclamar do quê? Me pagou até avião privado para que eu fosse de São Paulo até Porto Alegre (na chegada da delegação ao Brasil). Fui e fiz meu trabalho. Tiraram sarro, disseram que eu fui patriota. Hoje, os jogadores são patriotas, resgataram o orgulho e o respeito pela camisa, o moral. Se gostaram (jornalistas) ou não, é outro problema.

 

Foi bem recebido em Porto Alegre...

Não só em Porto Alegre, mas em São Paulo também. O torcedor viu o que queria ver: uma seleção empenhada, disciplinada, que respeitou a camisa. É claro que o torcedor está chateado, queria que a seleção ganhasse. Eles cobram o time deles, não o treinador da seleção. Podem falar que eu poderia ter convocado um ou outro atleta, mas viram como o trabalho foi feito. Houve comprometimento do início ao fim.

 

Fazendo uma reflexão, não acha que poderia ter agido de forma diferente em algumas entrevistas?

A maioria dos ataques foi por eu não ter dado exclusividade. Não tenho nada contra jornalistas com "j", jornalistas de verdade, mas ninguém pode me forçar a ser corrupto, malandro. Disseram que não deixei trabalhar. Como não deixei trabalhar? Houve entrevistas todos os dias... Agora, só porque o seu jornal sai ao meio-dia vou marcar as entrevistas às 10 horas? E os outros... Nós (Dunga e a imprensa) tínhamos relação de trabalho, mas algumas pessoas achavam que éramos amigos. Você e eu não somos amigos, temos uma relação de trabalho. Tenho de respeitar as pessoas como elas são. Mas eu precisava (na África) dar atenção aos jogadores, não aos jornalistas. Os jogadores é que jogavam. Em Curitiba (antes da viagem para a África), queriam que abrisse a concentração. Lá os atletas estavam fazendo exames. Já viu algum médico abrir o consultório para mostrar o paciente fazendo exames?

 

Não, mas a seleção é diferente. O povo quer saber o que está ocorrendo...

O povo quer resultado. Ou você acha que as pessoas gostaram de 2006 (em que tudo foi aberto)? Posso ser crucificado, mas havia horário. Às cinco horas tinha treino. Não posso ficar vendo qual é o horário de fechamento (do jornal) de cada um. Eu, por exemplo, não posso ir à sua redação e exigir que escreva a matéria em 10 minutos. A crítica ao trabalho é uma coisa, mas a crítica ao ser humano é outra. A imprensa que tanto lutou pela democracia é cruel. É o que falei, certa vez, para um figurão da imprensa. Todos conhecem o seu nome, mas, em relação a mim, todos conhecem meu rosto. Eu vou à rua, vou ao supermercado, saio com minha família. Mas não saio com segurança, não. Vou apanhar, vou sofrer, mas sou assim. Tenho caráter. O dia em que precisarem me chamar, vão me chamar, porque conhecem minha índole.

 

Muitos dizem que você guarda mágoa por causa das críticas de 1994 (quando o Brasil ganhou a Copa e Dunga era o capitão). No momento de receber a taça, fez um desabafo e xingou...

Será que não é o contrário? Os jornalistas é que não se esquecem? Já expliquei o que ocorreu. O problema é que a imprensa é como boi que vai para o rio de piranhas e os outros vão atrás. O que eu falei foi apenas para um fotógrafo, não para as pessoas. Esse fotógrafo estava na minha frente, pedindo que eu fizesse pose. Era egoísta, queria a foto só para ele. Aí eu o xinguei.

 

Voltaria a comentar futebol na TV?

Voltaria, não tenho medo de desafios. Quando se é correto, não tem medo de nada. Claro que pode errar mesmo sendo correto. Mas quando erro vou e peço desculpas.

 

Quando o Brasil perdia para a Holanda, não acha que, se contasse com um Ronaldinho Gaúcho ou um Ganso, teria mais chances de reverter o placar?

Está bom, então. Se eu tivesse o Ronaldinho Gaúcho, tiraria quem?

 

Talvez o Gilberto Silva.

Como o Gilberto Silva? Tu estás louco. O Felipe Melo tinha sido expulso. Eu ficaria sem volante? Ainda tínhamos tempo para empatar.

 

Alguns jogadores estavam mal em seus clubes, como o Kleberson. Não acha que poderia ter convocado o Neymar e o Ganso, que tiveram seis meses muito bons?

Seis meses, não. Isso é matemática, não opinião.

 

Tiveram pelo menos quatro meses.

Não, foram menos de dois meses. Dezembro foi mês de férias, janeiro de treino e os campeonatos começaram em fevereiro. A convocação foi em março.

 

Não foi em março. Você convocou o time para a Copa em 11 de maio.

Não, eu considero março, mês do amistoso com a Irlanda (vitória por 2 a 0, em Londres). Por acaso você daria a capa de seu jornal para um repórter que acabou de sair da universidade? Todos falam que o resultado não é importante. A crítica é em cima do quê? Sempre do resultado. No Brasil, quando você ganha tem um pouco de razão. Quando perde... O interessante para todos é bater no treinador.

 

Conseguiu esquecer a derrota para a Holanda?

Não, isso não se esquece. Vai ficar uma ferida. Esse jogo não vai sair da cabeça tão cedo. Futebol é minha vida. Ninguém está preparado para perder. Foi uma fatalidade. Os holandeses tiveram duas chances e fizeram dois gols. Jogamos um grande primeiro tempo, poderíamos ter matado o jogo. Fazer o quê? Um dia alguém vai analisar toda a história e avaliar o que aconteceu.

 

Qual é a maior tristeza?

Os jogadores foram leais em todos esses dias, foram incríveis. Eles se entregaram, não tenho um A para falar deles. Como as coisas estavam andando, era para termos chegado até a final. Essa é a maior tristeza. Tudo o que disse que faria antes da Copa foi feito. Não mudei nada. Fizemos o que tínhamos de fazer.

 

E, agora, como tem sido o convívio com a família?

Ótimo. Minha família e meus amigos independem dos resultados. Sempre disse a meus filhos que eles poderiam falar algumas coisas de mim, mas nunca da índole. Não fizemos mais do que a obrigação, mas esse grupo da seleção deu exemplo de comportamento.

 

Você tem propostas, não? Pretende voltar a trabalhar logo?

Tenho propostas desde antes da Copa, mas agora só quero ficar com minha família e tirar férias.

 

 

 

 

 

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