Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão
Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vai virar moda

O futebol feminino é parte de um movimento, defende uma causa e ambiciona conquistas

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 04h00

Futebol feminino sempre foi uma coisa marginal no universo do esporte e, consequentemente, da sociedade. Quero dizer com marginal algo lateral, nos limites, na fronteira, longe do centro das atenções. Dezenas de anos atrás as mulheres sequer podiam ir aos estádios como torcedoras. Suas presenças geravam comoção e burburinho, mesmo acompanhadas por namorados, maridos etc. Sozinhas, nem pensar. Isso foi mudando e hoje é comum ver telões exibindo sorridentes mulheres, vestindo camisas de clubes e vibrando com o jogo.

Ocorre que essas moças têm quase sempre ao lado um homem que as acompanha, o que faz com que a mulher no estádio me soe quase como uma concessão masculina do que como uma atitude independente delas.

De qualquer maneira não resta dúvida que se trata de um novo espaço que a mulher conquistou entre tantos que lhe eram negados. Uma coisa diferente foi o futebol jogado entre mulheres. Para entender esse fenômeno, somos obrigados a admitir o aparecimento de uma nova mulher na sociedade. Nova em muitos sentidos, inclusive físico.

O futebol feminino era repudiado antes porque a antiga mulher, a mulher de cinquenta anos atrás, não se via como jogadora de futebol. Como não se via executando a maioria das coisas que fazia o homem. Escapavam algumas atividades, geralmente ligadas ao intelecto, às artes talvez, que dispensavam a resistência e o vigor físico.

As mulheres se aceitavam como fracas fisicamente diante dos homens, mais fracas do que realmente são.

Demorou o tempo que levam os fenômenos inevitáveis para se tornar realidade. Hoje chegamos, se não à plenitude, pelo menos a um momento em que o futebol feminino é encarado com seriedade. Só que, ao contrário do masculino, o feminino é parte de um movimento, defende uma causa e ambiciona conquistas à mulher, para o gênero mulher, como um todo. O futebol masculino nunca defendeu nada. Se tornou profissão quando se constatou que poderia ser rentável e capaz de sustentar alguém. Simples assim. 

Esse futebol feminino que está diante de nós é bem diferente. Para exemplificar essa diferença me valho de declarações feitas pela grande jogadora Marta, o nome mais célebre desse futebol.

Depois do jogo com a Austrália, quando questionada o que significava para ela ter alcançado mais um recorde na carreira, declarou: "Meu novo recorde? Isso é uma igualdade de todas as mulheres." Queria dizer que o recorde pertencia a todas as mulheres. Alguém poderia pensar num jogador, um homem, fazendo declarações desse tipo? Ele diria que, em primeiro lugar deveria agradecer a Deus por ter sido "honrado" com o recorde. Depois que tudo era fruto de trabalho. Enfim, nada que fosse além de seus próprios interesses.

Queria acrescentar que essa representante das jogadoras, por mais extraordinária que seja, se estivesse no futebol masculino, jamais seria aceita como representante pelos próprios jogadores, já que não é o estereótipo da mulher comum, não se parece nem mesmo com aquelas que sorriem nos telões abraçadas com os namorados. O bom de uma causa é aceitar forçosamente as diferenças. A causa das mulheres abriga isso. O que me inquieta nesse futebol feminino é para onde ele vai caminhar daqui para frente. É inevitável que ele entre na rota do dinheiro.

O sinal emitido pelo interesse das TVs mostra o que virá. Por um lado vai ser bom entrar em outro patamar financeiro. Por outro tenho dúvidas. Talvez daqui a poucos anos tenhamos o desprazer de constatar que as diferenças entre jogadoras e jogadores desapareceu. Hoje ainda ela é mais do que evidente. Basta comparar, sob qualquer aspecto que se queira, a melhor jogadora brasileira com o melhor jogador brasileiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.