Valcke coloca herdeiro na organização da Copa do Mundo no Brasil

Medida é parecida com a de Ricardo Teixeira, que designou Joana Havelange para o cargo de diretora do Comitê Organizador Local

Jamil Chade - Correspondente, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2014 | 07h44

Atualizada às 16h10

GENEBRA - Não é apenas Ricardo Teixeira que conseguiu um cargo para sua filha, Joana Havelange, na direção das operações da Copa do Mundo. Documentos internos e oficiais da Fifa obtidos pelo Estado revelam que o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, também colocou seu filho nas operações do Mundial disputado no Brasil. 

Sébastien Valcke será o vice-coordenador-geral para todos os jogos da Copa do Mundo no Maracanã, local do encerramento do Mundial. No dia 15 de junho, Argentina e Bósnia jogam no Rio. Três dias depois, a campeã do mundo Espanha enfrenta o Chile. Na primeira fase, o estádio onde trabalhará o filho de Valcke ainda abriga Bélgica e Rússia e Equador contra a França. O comissário designado pela Fifa para a partida será Hicham El Amrani.

Na semana passada, Joana Havelange criou uma polêmica ao ter uma de suas mensagens numa rede social compartilhada pela Internet. Nela, a filha de Ricardo Teixeira criticava as manifestações e apontava que "o que tinha de ser roubado, já foi". 

A mensagem foi logo depois retirada de sua página. Fontes dentro da Fifa revelam ao Estado um profundo mal-estar dentro da organização, que passou a proibir seus funcionários de usar as redes sociais. Para alguns, Joana só não foi demitida porque seu pai é Ricardo Teixeira e seu avô João Havelange. Blindada, Joana não concedeu entrevistas nos sete anos que atuou no Comitê Organizador Local da Copa do Mundo. 

VALCKE RESPONDE

A Fifa não respondeu aos e-mails do Estado antes da publicação da reportagem. O jornal questionava a entidade sobre as atribuições de Sébastien Valcke no estádio e sobre quem o contratou. Quando o texto foi veiculado, Jérôme Valcke optou por se pronunciar. "Sou pai de quatro crianças, entre eles Sébastien, de 26 anos. Ele é um garoto que foi sempre apaixonado e atraído pelo esporte e ele foi definitivamente marcado por minha carreira", escreveu. 

Valcke declarou que ficou surpreso com a dimensão que o assunto ganhou. "Sébastien trabalhou em 2010, na Copa da África do Sul, no estádio da Cidade do Cabo, e ninguém se interessou por isso", disse. "Seu trabalho é saudado por seu coordenador geral e por todos que trabalham com ele". 

Segundo Valcke, foi o coordenador de competições que entrou em contato diretamente com seu filho com a nova proposta, "levando em conta sua experiência e suas qualidades". "Sébastien aceitou, sem que eu fosse consultado ou que eu tivesse qualquer intervenção na escolha e em sua decisão final", explicou. 

Valcke admite, porém, que essa é uma situação de conflito de interesse e que poderá ser levada à Comissão de Ética da Fifa. "Eu me ofereci de forma espontânea à Comissão de Auditoria e de Conformidade para que me escutassem se quisessem", apontou."Se eu escutasse uns ou outros, meu filho não deveria estar perto ou longe de uma sociedade que tivesse contatos com a Fifa", disse Valcke. "Mas, de fato, isso significaria um obstáculo para trabalhar globalmente no mundo do futebol, já que a Fifa está em todas as partes. Nunca atuei para ajudar Sébastien negociar um contrato ou, pior, concluir um contrato", insistiu.

Segundo Valcke, seu filho não trabalha para a Fifa de forma permanente e seu contrato termina no dia 25 de junho. "Ele trabalha, por meio de sua empresa que acaba de ser criada, como conselheiro, e isso sem a ajuda minha, do que sou muito orgulhoso". 

Valcke também atacou o repórter do Estado pela publicação da informação. "Meu filho é meu filho. Ele é, como todos os meus filhos, o que eu tenho de mais importante", escreveu. "O fato de ele ser alvo de ataques é deplorável. Há um limite que não se pode cruzar, que é da vida privada", declarou. "Mas parece que esse limite não está em suas regras de ética, as quais relembro a definição: a ética tem como finalidade indicar como outros seres humanos devem se comportar, agir e ser, entre eles e com os demais", concluiu.

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