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Vale de lágrimas

Os mais novos talvez tenham se impressionado com recentes declarações de Eurico Miranda. Por dois dias seguidos, ele soltou o verbo para cima de CBF e Delfim Pádua, da Federação Catarinense de Futebol. Na visão do cartola, se o Vasco cair de novo, a culpa será dessa turma, a ponto de declarar "guerra sem quartel" contra as forças que, acha, prejudicam o clube no qual há décadas dá as cartas.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2015 | 03h00

As performances do presidente começaram na quinta-feira, logo após o time dele ter empatado com a Chapecoense por 1 a 1, no Maracanã. O resultado teve participação direta de Ricardo Ribeiro, sobretudo ao marcar pênalti inexistente pros catarinenses e ao ignorar mão na bola em favor dos vascaínos. Arbitragem péssima.

Eurico aproveitou a brecha para o recital, repetido em tom mais duro na sexta-feira. No desabafo, falou de tudo – do enfraquecimento político da CBF à influência de Delfim, 30 anos de poder no Sul. Deixou claro, sobretudo, que eventual rebaixamento será de responsabilidade de terceiros e não como desdobramento de mau planejamento interno.

Com o talento de ator de filmes B que se produziam na Boca do Luxo, em São Paulo, nos anos 70, Eurico fez pausas dramáticas, usou palavras fortes, esbravejou, ameaçou ir à Justiça Comum. Enfim, prometeu um escarcéu, para mostrar que o "respeito voltou". Muito torcedor ingênuo, desiludido e amedrontado com a perspectiva de terceiro descenso embarcou nessa canoa furada e encampou a ideia de que está em andamento um complô contra as cores que lhes despertam paixão.

É preciso depurar 90% do que disse Eurico. Calejado no mundo do futebol, percebeu que a vaca se dirige para o brejo e a saída para dividir o vexame está em encontrar inimigos poderosos. Como teoria da conspiração sempre atrai audiência, ainda mais nestes tempo estranho que o País vive, eis que ela desponta em campo. Em resumo pobre do roteiro proposto pelo dirigente, o Vasco virou alvo de trama sórdida. Como se, não fosse por isso, estaria nas alturas no Campeonato Brasileiro.

A tática de Eurico é manjada e só faz marola. Se há coisa velha, nesse meio, é espernear, acusar, insinuar, como alternativa desesperada de evitar naufrágio. Nesta fase de competição, mais do que o habitual, entram em cena "lances polêmicos", pressão sobre juízes. O Vale de Lágrimas não passa de etapa de vale-tudo para fugir da degola. 

Todo cartola sabe que a choradeira não terá poder retroativo – a água que rolou não volta mais. O objetivo de bravatas como as de Eurico Miranda é o de impedir que ocorram novos incidentes nos oito jogos que restam para a equipe salvar a cabeça e permanecer na Série A. Ao mesmo tempo, a choradeira tem a função de jogar para a torcida, na base do "bom, tentamos o que foi possível, mas nos derrotaram". Um blablablá enfadonho e ultrapassado, como a visão que ele tem de esporte, administração e fair-play. 

O clássico com o São Paulo, à tarde, no Morumbi, será a oportunidade de ver se a engrossada de voz trará efeitos positivos para o Vasco. Ou se, ao contrário, terá só aumentará a carga que pesa sobre os ombros de Jorginho e seus rapazes. Duelo delicado, para ambos os lados. 

O Vasco reagiu muito, de uns tempos para cá (são sete rodadas sem perder), e sustenta o sonho de driblar a queda. O São Paulo balança, com mudanças no comando técnico (Doriva estreou na quarta-feira) e nos bastidores (a renúncia de Aidar). Além disso, divide atenção com a Copa do Brasil, pois no meio da semana tem clássico com o Santos. Chance boa para o Vasco.

Desafios dos líderes. Corinthians (64) e Atlético (59) topam com cascas de banana neste primeiro dia de horário de verão. O líder visita o Atlético-PR, enquanto o Galo duela com o Sport (43 e com chances de G-4) no Recife. Empates não são fora de propósito e manteriam tudo igual no topo. Mas poderiam encurtar distância do Grêmio (55), que joga em casa com a Chapecoense.

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