Paulo Liebert/Estadão
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Sentimento de rivalidade e supremacia entre os clubes brasileiros cresceu e atingiu patamar perigoso

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 04h00

Sempre houve rivalidade entre as grandes equipes do futebol brasileiro. Algumas vezes chegava bem perto do ódio, que depois refluía e a vida continuava sem grandes sobressaltos. Uma cicatriz ou outra permanecia um pouco mais sensível, mas não mais que isso. 

Agora, esse sentimento de rivalidade e supremacia de um clube sobre outro atingiu um patamar diferente, muito mais perigoso. Um “outro patamar”, aliás, é a expressão que mais ouço, aplicada por todos ao time do Flamengo, se referindo, é claro, à excelência de seu futebol.

Me pergunto se não seria mais apropriado usar essa expressão para caracterizar o descomunal poderio econômico que separa o Flamengo, e mais uma ou duas equipes do futebol brasileiro, das outras. O poderio econômico, ademais, deveria ser citado antes do futebolístico, porque o segundo é consequência do primeiro.

De qualquer forma, a verdade é que há um abismo entre pouquíssimos clubes privilegiados e os demais. O que mudou de patamar certamente é o tipo de rivalidade. Onde havia rivalidade que incluía poder e paixão, hoje há apenas a vontade de aniquilar o outro, sem qualquer vestígio de ódio ou paixão. São apenas negócios. É apenas dinheiro.

Essa rivalidade fria que faz dos clubes máquinas de conquista cresceu na medida em que esse modo de operar cresceu nas relações de toda a sociedade em todos os seus segmentos. O vale-tudo que há hoje na sociedade de maneira extremada não poderia deixar de lado o futebol. O “salve-se quem puder”, o “quem pode mais chora menos”, parece que chegou para ficar. 

Para quem quiser ver há alguns exemplos clássicos. Vejamos o Santos. Grande fazedor de talentos, revelador de jogadores invulgares, foi sangrado sem piedade nos últimos cinco ou seis anos pelos endinheirados do momento. Não houve nenhuma hesitação em aliciar jogadores na frente de todo mundo, sem que houvesse qualquer voz de protesto. Afinal, não é assim que se procede no mundo das grandes corporações? Jogadores fundamentais do Santos estão hoje em times incensados pelo mundo do futebol, reverenciados até pela maneira atrevida como conduzem seus negócios, salvo quando passam dos limites aceitos até no permissivo mundo de hoje, como no caso da recente tragédia dos garotos do Flamengo.

Mas, voltando ao Santos, esse exemplo é bom porque ilustra também como uma vítima pode se transformar em algoz. O Santos, para se reforçar, valeu-se muito da penúria do resto da America Latina e foi buscar entre os menos poderosos os jogadores que precisava para sobreviver na competição do nosso futebol. Não hesitou em buscar em países mais indefesos jogadores que viraram ídolos na Vila Belmiro. O Fluminense foi outra vítima e algoz ao mesmo tempo.

Em suma, as máximas impiedosas dos negócios nunca estiveram tão em voga. Que se acautelem as partes mais vulneráveis, treinadores, por exemplo. A eles que se requerem os milagres que, como todos sabemos, não existem. Assim é o procedimento da maioria dos times. Há reações? Sim, algumas até importantes. O aparecimento de jogadores da base em equipes onde a base não vingava é algo muito elogiável. Todos os grandes times de São Paulo, numa rara unanimidade, contam, no atual Campeonato Paulista, com garotos da base jogando e aparecendo.

É só um sintoma, mas importante. O aparecimento de dirigentes de outra qualidade também. As maiores esperanças vem de gente como o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani. É um personagem tão invulgar que parece inventado. Reúne tantas qualidades que dá a impressão de personagem de ficção. Mas não é. E o que faz é admirável, sobretudo naquilo que completa e excede o que o time de futebol faz no campo. Cada vez que ouço esse dirigente falar me dá esperança que outro abismo, aquele que separa os times do Norte e os do Sul, talvez esteja se tornando menos profundo.

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