Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

'Vamos ao Brasil!', o grito que une a nação bósnia

Seleção conquista vaga inédita e dá esperança a um povo dividido por questões étnicas e políticas

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 08h30

SÃO PAULO - Desta vez, o céu de Sarajevo foi iluminado por fogos de artifício e não por bombas. Nas ruas, o povo gritava de alegria, não de terror. A noite de terça-feira, 15 de outubro, foi de festa na Bósnia-Herzegovina. Foi de celebração daquele que talvez tenha sido o maior feito desses 21 anos de independência do país: a inédita classificação para a Copa do Mundo: "Nós vamos ao Brasil!", cantava a multidão.

A vaga foi garantida com a vitória por 1 a 0 sobre a Lituânia, em território inimigo. Mas jogadores como o lateral-esquerdo Lulic, os meias Pjanic e Misimovic e os atacantes Dzeko e Ibisevic (este o autor do gol histórico) conseguiram bem mais do que isso: reuniram na principal praça de Sarajevo croatas, sérvios e muçulmanos, os grupos étnicos que compõem o país. E em paz.

É lugar-comum dizer que há façanhas que só o futebol é capaz de conseguir. Às vezes, com algum exagero. No caso da Bósnia, parece ser real. A ex-república iugoslava, que enfrentou sangrenta guerra pela independência entre abril de 1992 e dezembro de 1995, com mais de 100 mil mortos, ainda convive com conflitos políticos, religiosos e étnicos.

Mas, quando a seleção se reúne, existe união. Nessas Eliminatórias Europeias, desde o início a equipe que junta o muçulmano Dzeko, o sérvio Misimovic e o croata Pandza já dava à torcida esperança de classificação. Está certo que o grupo, o G, não tinha grandes rivais (Grécia, Lituânia, Letônia, Eslováquia e Liechtenstein foram os adversários). Mas havia confiança no time.

A Bósnia apresentou um futebol ofensivo, sem se descuidar da marcação. Tem meio-campistas habilidosos e velozes e atacantes não muito técnicos, mas que concluem bem.

A campanha foi exemplar: 8 vitórias, 1 empate e apenas 1 derrota. Mas foi a vocação ofensiva dos bósnios que fez a diferença. A seleção fez 25 pontos como a Grécia, mas ficou com a vaga direta no saldo de gols. Marcou 30 e sofreu 6 gols, contra 12 e 4, respectivamente, dos concorrentes.

REVOLUÇÃO

A Bósnia foi ao ataque graças ao técnico Safet Susic, que assumiu em 2009 após uma das maiores decepções do futebol do país – perdeu na repescagem a vaga para a Copa de 2010 ao ser superado por Portugal.

Considerado o melhor jogador da história do futebol bósnio nos seus tempos de meia-atacante goleador – disputou duas Copas do Mundo pela antiga Iugoslávia, em 1982 e 1990, e durante 9 anos foi ídolo do Paris Saint-Germain francês –, Susic, de 58 anos, definiu a classificação como o melhor momento de sua carreira. "Esta é a recompensa apropriada para todo o trabalho duro que temos feito nos últimos quatro anos. Acho que merecíamos passar depois de marcar 30 gols em 10 jogos", disse.

Pelo passado e pelo presente, Susic foi um dos mais festejados pelos torcedores na volta para casa. Ele e os jogadores foram tratados como heróis. "Eles não têm ideia do bem que têm feito para o povo", disse chorando à agência Associated Press o torcedor Salih Redzic, de 52 anos. "Todos nós precisamos de algum ‘Brasil’ para nos dar alegrias. Não é apenas sobre futebol. É sobre esse sentimento que muitos de nós quase esquecemos e que os mais jovens nunca experimentaram: o sentimento de sucesso.’’

Perspectivas de sucesso de fato não parecem animadoras nesse país de 3,87 milhões de habitantes, que ainda sente os reflexos da guerra em sua economia e que hoje convive com dificuldades como uma altíssima taxa de desemprego, que bate em 45% segundo alguns institutos europeus – Redzic é dos milhares de desempregados.

Os próprios jogadores da Bósnia, para fazer sucesso, tiveram de se espalhar pelo mundo, sobretudo por países europeus. Dzeko, que passou bom tempo na Alemanha, está agora no Manchester City e tem a companhia, na Inglaterra, do goleiro Begovic, que atua no Stoke City. Lulic (Lazio) e Pjanic (Roma) estão na Itália. Na Alemanha jogam, entre outros, Spahic (Bayer Leverkusen), Ibisevic (Stuttgart) e Salihovic (Hoffenheim).

No exterior, ganham dinheiro, se livram do fraco Campeonato Bósnio (16 times), e tentam deixar para trás o sofrimento trazido pela guerra – Dzeko e sua família tinham dificuldade para conseguir comida, Medujandin teve o pai morto em combate... –, mas defendem a pátria com orgulho. "Nós mostramos o quão poderosa é a Bósnia’’, afirmou Dzeko.

Olho no futuro. O país, no entanto, ainda precisa de união e de resolver seus conflitos étnicos e religiosos – 50% da população é muçulmana, 31% sérvia (cristã ortodoxa) e 17% croata –, corriqueiros quando a bola não está rolando. "Esta é uma lição para todos na Bósnia, daquilo que pode ser alcançado com trabalho duro, persistência e talento", disse o diplomata austríaco Valetin Inzko, representante da comunidade internacional que supervisiona o acordo que pôs fim ao conflito na Bósnia. "Esta vitória vai além dos limites do esporte, é uma mensagem para todas as pessoas de boa vontade no país de que um futuro melhor é possível."

E o futebol está sendo utilizado como ferramenta para superar os conflitos internos, ainda que isso seja apenas para as próximas gerações.

Na Bósnia, o programa Open Fun Football Scholl, implantado em 1998, abriga hoje mais de 100 mil crianças de todas as etnias, em vários centros de treinamentos espalhados pelos 51.187 km² do território do país. "As diferenças étnicas sempre foram um problema significativo. Mas, no programa, as crianças jogam juntas e convivem normalmente’’, comemora Bogdan Ceko, diretor da federação bósnia.

O uso do futebol para unir o país é uma aposta. O Open Fun, no entanto, tem tudo para dar uma garantia: a de que as futuras gerações garantirão a Bósnia em muitos outros Mundiais.

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