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Vanderlei Luxemburgo

Personagem nebuloso, treinador sempre surpreende e mantém poder de adaptação ao momento

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

22 de dezembro de 2019 | 04h00

Como tantas vezes já aconteceu, Luxemburgo é o homem do momento. E ele se adapta, aliás, a qualquer momento. Intui o que está em voga, vê para que lado pendem as tendências e imediatamente se põe em ação. Na primeira entrevista no Palmeiras, não se cansou de falar de futebol ofensivo. Numa época em que o Flamengo ganhou quase tudo apostando no futebol ofensivo, esse detalhe não poderia passar-lhe despercebido.

Diga-se em sua defesa que em nenhum time pelo qual passou usou de métodos defensivistas ou jogou “com o resultado”. Utilizou o mais que pôde os jogadores que tinha à sua disposição e valorizou o que tinha de melhor. Os altos e baixos da profissão não o amedrontam, o que o amedronta é ser esquecido. E isso parece estar bem longe de acontecer. De vez em quando há essa impressão, logo desmentida, para desespero dos críticos que creem, não no futebol-arte, mas no futebol ciência, para quem Luxemburgo é sinônimo do mal. 

Nada do que preconizam esses críticos parece impressioná-lo. Nunca, ao que me consta, deu qualquer bola para o futebol europeu e seus métodos de treinamento. Sua confiança exagerada em si mesmo levou-o, muitas vezes, a equívocos lamentáveis. Ousou apresentar-se ao Real Madrid sem se dar ao trabalho de sequer estudar espanhol, esquecido de que o jogador europeu não é um boleiro das periferias brasileiras. Confiou demais num portunhol grotesco que aprendeu provavelmente de expatriados uruguaios ou argentinos com quem topou nas andanças da vida. Pela primeira vez não sabia falar a língua dos boleiros. Foi demitido, mas isso o afetou pouco. 

Correm mil histórias sobre suas aventuras dentro e fora do campo, a maioria sem comprovação, mas que fazem dele um personagem nebuloso. Essas histórias têm uma particularidade única: não são histórias protagonizadas, em geral, por treinadores, mas por jogadores. É tal a imersão do treinador Vanderlei Luxemburgo no universo dos boleiros que não se sabe bem onde começa o técnico e termina o jogador.

Um impostor dura pouco tempo, um farsante menos ainda. É claro, nessa altura da vida, que, gostando dele ou não, ele não é nem uma coisa nem outra. Seus títulos falam por si e, principalmente, o fato de que, quando menos se espera, ele ressurge. Mesmo os que torcem o nariz quanto a seus métodos o fazem de uma maneira, eu diria, hesitante. O personagem mete medo, muita gente pode queimar a língua.

Seu último feito, que muita gente insiste em desconsiderar, foi ter chegado a um Vasco da Gama na última colocação na tabela, aposta certa para ser rebaixado, e levá-lo, quase com os mesmos jogadores, a uma posição digna.

Não é fácil gostar do homem, concordo. Para isso é necessário, às vezes, uma mudança de opinião ou de comportamento. Nada se pode esperar dele nessa vertente. Nunca mudou no transcorrer dos anos e não vai mudar. Talvez, então, eu tenha mudado, também por ação do tempo.

O fato é que muitas restrições que fazia a ele, não faço mais. Ao contrário, num momento da nação de salve-se quem puder, pelo menos ele, que já me deu muitas alegrias, está em posição de me dar outras mais. Comparado ao geral da sociedade brasileira, ele está longe de ser uma figura deplorável. Sei que terei um longo caminho para aceitá-lo sem restrições. Minha inclinação pessoal pelo aventureiro que não cessa de produzir surpresas pode me ajudar nessa tarefa.

Luxemburgo sempre surpreende. Sua biografia precisa de alguém de muito talento para avaliá-la em todos os seus termos. Por exemplo: quem imaginaria que Luxemburgo seria agraciado com a Medalha Machado de Assis, da respeitável Academia Brasileira de Letras? É uma distinção jamais conferida a qualquer outro treinador brasileiro, ainda que maledicentes possam pensar que, no caso, a medalha apropriada deveria ser a Medalha Macunaíma. 

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