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Ugo Giorgetti
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Vantagens da televisão

De vez em quando, nesta coluna, me refiro à televisão, isto é, à maneira como a televisão transmite e comenta jogos de futebol. Talvez por ser um espectador antigo, de outras décadas, a televisão me irrita frequentemente ou, em outras vezes, até me diverte, conforme meu humor do momento. Por exemplo: outro dia ouvi um apresentador com a maior seriedade dar ao público a informação de que o Galatasaray tinha acabado de vencer o Fenerbahce por 1 x 0 pelo campeonato turco. Ou talvez tenha sido o inverso. Não sei, pois nem Fenerbahce nem o Galatasaray fazem parte das minhas mais modestas preocupações. O apresentador deu essa informação, porém, com a gravidade e o tom de voz com que informaria o resultado de um clássico entre, digamos, Palmeiras x Corinthians.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2016 | 03h00

Achei divertido que alguém julgue que o campeonato turco possa interessar a alguém neste país. Depois me deram a informação, pode ser que equivocada , que foi até exibido o tape dessa inesquecível partida. Também no que diz respeito à própria transmissão de um jogo há coisas que me incomodam. As transmissões em geral são preguiçosas e se repetem com imagens que podemos até antecipar, tantas vezes já as vimos. Tudo igual como há quarenta anos, quando havia apenas uma ou duas câmera no estádio. Hoje com trinta câmeras mostramos a mesma coisa. Será que ninguém vê a multiplicidade de atitudes de uma torcida, de alguns jogadores , da equipe técnica, ou da arbitragem, sei lá? Será que ninguém consegue mostrar uma imagem nova no campo? Bom, chega disso tudo, porque o que queria falar é sobre algo bom que nos dá a televisão. Com tantos canais de esporte, há sempre algum que mostra algo realmente interessante. A televisão, às vezes, se torna um veículo não desprezível de nostalgia e reencontro com o passado. 

Outro dia, por exemplo, mudando de canais topei com a outrora familiar imagem de uma camisa de listas horizontais, nas cores verde e vermelho. Era a gloriosa e perdida Portuguesa de Desportes que estava em campo. As cores me remeteram ao passado e revi a Lusa de meus tempos com grande satisfação. Nem sei em qual torneio competia, talvez fosse até uma equipe de juniores ou equivalente. Mas eram as velhas cores mitológicas. Ao promover o ressurgimento momentâneo da Lusa a televisão fez algo mais do que útil, necessário. O sinal de vida da Portuguesa, oferecido de surpresa, me jogou, a mim e a ela, num outro e muito melhor momento. 

Nesse caso, de trazer de volta o passado, houve outra experiência grata num jogo do Botafogo do Rio, pela série A, talvez de uma semana atrás. Comecei a ver a partida e notei logo algo fora do lugar, inesperado. Não tardei a descobrir o que era. Por alguma razão, o Botafogo jogava sem patrocinador, e o magnífico, antigo uniforme lá estava, intacto como há muitos anos. A farda do Botafogo sempre me impressionou como a mais bela do futebol brasileiro. Indecisa entre duas não cores, o preto e o branco, criou-se o cinza intermediário das meias, formando uma combinação de grande efeito plástico. E tudo se harmonizava com a nobreza do inconfundível distintivo de uma estrela , única, a Estrela Solitária. 

Num instante o Botafogo atual me colocou em sintonia imediata com Didi, Paulo Valentin, Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Cajú, Jairzinho. E a inesperada limpeza aristocrática do uniforme se destacava, em contraste com seu oponente, que jogava com a camisa recoberta pelos símbolos da mediocridade dos negociantes que se julgam mais importantes do que qualquer clube. Foi uma bela noite em companhia de um Botafogo reconciliado com sua grandeza. Talvez por causa do uniforme mitológico o time de hoje se viu compelido a honrar seus grandes craques do passado e ganhou o jogo. Graças à televisão, que costumo criticar com frequência , devo confessar que tenho vivido bons momentos.

 

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