Ana Sacoman/Estadão
Ana Sacoman/Estadão

Vendo o Brasil na sala de espera

Devia ter desconfiado que foi fácil demais marcar um exame para a manhã do dia 22 de junho

Ana Sacoman*, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2018 | 15h51

Sala de espera de laboratório é aquela coisa meio bege demais, silenciosa demais, impessoal demais. Afinal, a ideia é ficar ali o mínimo possível: entrar, fazer o exame, pegar lanchinho e sumir porta afora, sem pensar no resultado. Mas não nesta sexta-feira.

Há 15 dias, marquei vários exames justamente para o dia 22 de junho, a partir das 10 horas. Ou seja: bem no meio do segundo jogo do Brasil na Copa do Mundo, bem no meio do drama da classificação, bem no meio do berreiro do Galvão. Fora a droga do jejum. Devia ter desconfiado da facilidade de encaixar um na sequência do outro. E se chegar lá e estiver fechado? E se me esquecerem na máquina de ressonância, até que todos os meus piercings, tatuagens e órgãos estejam torrados? E se me trancarem no banheiro até o jogo terminar? Noiei.

Como o primeiro tempo foi aquela lenga-lenga, com o Brasil engrenando ali pelos 20 minutos, achei que não ia perder muita coisa. No intervalo, a pé até o laboratório a uns 10 quarteirões de casa, fui passando por ruas desertas e bares com alguma frequência (o que o pessoal estava tomando, eu não vi), enquanto passavam por mim raríssimos carros e ônibus vazios. Me senti um ET e poderia caminhar no meio da avenida em plena sexta-feira de manhã se quisesse. Manobristas de um estacionamento leram meu pensamento e aproveitavam os minutos finais do intervalo para uma peladinha na rua.

Chego ao laboratório já com o segundo tempo rolando. Não está cheio nem vazio. “Os malas”, pensei. “Todos os atendentes detestam a gente”, adivinhei. “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”, repetia mentalmente, à la Paulo Cintura, meio que para me convencer de que é um dia como qualquer outro.

O Alisson, xará do nosso goleiro, tenta fazer o meu cadastro enquanto eu estico o pescoço para ver o jogo e não presto a mínima atenção no que ele diz (ele poderia propor a retirada de um rim para venda no mercado negro, que eu aceitaria). A Mariana, a auxiliar, me leva até a salinha SEM TV e explica tudo que rolaria no exame. Cristina, a médica, nem pisca quando Philippe Coutinho faz o gol e nós só ouvimos os gritos vindos da sala de espera. Ainda tento balbuciar alguma palavra de simpatia e solidariedade, do tipo “eu também gostaria de estar vendo o jogo, desculpe” ou “sabe que eu também trabalho quando tem jogo”, mas ela nem dá espaço, concentradíssima no meu punho esquerdo. “É alemã, certeza”, viajei. Ela me libera na sequência.

De novo na sala de espera para o segundo round, faço amizade com uma adolescente e a mãe, que também aguardam a vez, também entre contrariadas e constrangidas por estarem ali. A menina é fã de Gabriel Jesus e me explicava alguma coisa sobre ele quando Neymar faz o segundo gol. Não aguentamos, gritamos e ensaiamos um abraço meio desajeitado. Um senhor que aparentemente reclamava à beça e, segundo testemunhas, chamava nosso atacante de Neymosca, é zoado. Ali na sala de espera, comemorei a vitória do Brasil com estranhos, entre sofás beges e lanchinhos. Mariana me chama para o segundo exame, desta vez com um sorrisão no rosto.

*JORNALISTA, ANA SACOMAN É EDITORA DO ESTADO

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