Ver o Corinthians se torna espetáculo

Os jogos do Corinthians no Pacaembu voltaram a ser um dos grandes espetáculos da capital paulista. A contratação de inúmeros bons jogadores este ano fez, por exemplo, o casal de namorados Sergio Viana e Marina Ferreira de Souza desistir do teatro para comparecer ao estádio e ver o time de coração dos dois enfrentar ontem o Figueirense, pela Copa do Brasil. "E era apresentação de um amigão nosso", lembrou resignada a estudante de psicologia. Recompôs-se logo: "Mas ele (Gabriel é o nome do ator, amigo deles) vai ter de entender nossa ausência, o Timão está acima de tudo", emendou.Marina, sem qualquer receio, se sentou ao lado da torcida organizada Gaviões da Fiel. Foi com o "futuro esposo" (garante ela) e levou três amigas a tira-colo: Renata, Luciana e Andréia. Renata Lima, a mais falante e também a mais nova, de 19 anos, tinha os lábios contraídos, esfregava as mãos. "Minha primeira vez (em um estádio)", justificou. "Dá um certo receio né. Tenho medo de briga, essas coisas" comentou.Minutos antes, três policiais haviam passado próximos dali levando dois torcedores. Três degraus abaixo, um grupo de quatro rapazes fumava maconha. "Não estou acostumada com tudo isso, mas, pelo Corinthians, espero que valha valha a pena", disse quase aos berros - e ainda assim era bem difícil ouvir sua voz.O barulho feito pelos 34.277 torcedores era ensurdecedor. A torcida não ficou quieta um único minuto. Um garoto, com lágrimas nos olhos, se sentou ao lado da reportagem da Agência Estado. "Você está chorando?" Negou de pronto: "Não, é que tenho problemas nos olhos", respondeu Rodrigo Pinho, de 11 anos. A Gaviões, incansável, não parava de cantar. No momento do hino do clube, Renata se virou com os braços estendidos para o repórter. Queria mostrar que estava arrepiada. E olha que o jogo com o Figueirense não havia nem começado.Início da partida, os cantos isolados com breves momentos de silêncio deram espaço a um único som. Várias vozes se fundiam, pessoas empolgadas que não se cansavam de gritar, histéricas, e que criavam uma música desritmada, ininteligível na maior parte do tempo. "Timão eô, Timão eô", era das poucas coisas compreensíveis. O importante era vibrar, apoiar o time. "Deixa de ser burro Jô!", bradavam os corintianos cada vez que o mais perseguido dos atletas tocava na bola. Palavrões a toda hora, até no momento de pedir água aos vendedores ambulantes. Como toda grande torcida, a do Corinthians é também instável. Xinga aquele que havia acabado de elogiar. O clima já ia ficando tenso com o 0 a 0 no placar e o Figueirense começava a se arriscar nos ataques até que Rosinei sofreu pênalti no fim do primeiro tempo. Pena não ter sido instalado no Pacaembu um aparelho medidor da intensidade de decibéis.Carlitos Tevez, o mais querido em campo, bateu e fez 1 a 0. E lembram do garoto, Rodrigo, com "problemas nos olhos"? Soluçava, enxugava as lágrimas meio desajeitadamente como faz toda criança e, agora sim, chorava sem constrangimento.Daí para a frente, com o time vencendo o confronto, só se viram olas, bandeiras agitadas e muita vibração. Nesta quarta-feira, o Pacaembu daria inveja à La Bambonera do Boca Juniors ou a qualquer casa de shows do país.

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