Paulo Liebert/Estadão
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Ugo Giorgetti
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Vestígios do futebol

Me encanta descobrir alguém, notável por outros feitos, revelar ligação com o futebol

O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2018 | 04h00

Sempre fui atento observador das coisas do futebol, principalmente, talvez, do detalhe, onde o futebol aparece obliquamente, quase escondido. Às vezes esses detalhes são fortuitos, mas reveladores. Lembro de um parente distante, já entrado em anos, cuja postura física e intelectual excluíam por completo o jogo da bola. Homem formal, de cultura europeia, parecia perdido quando o assunto ao seu redor era futebol. Calado, ouvia mais do que falava e sempre respondia com poucas palavras.

Não sei bem quantos anos tinha, mas para mim, um garoto, parecia um velho às portas da morte, coisa que absolutamente não era. Uma tarde em férias na cidade de São Vicente, estava eu batendo bola na calçada com a molecada quando vejo meu parente se aproximando, solene e sério, em nossa direção. Pensei em parar o bate-bola para evitar que uma bolada o atingisse, mas já era tarde. A bola veio torta e com força em sua direção e ele não a evitou. Tenho certeza de que, por puro instinto, ele matou com desenvoltura a bola que chegava cheia de curvas e que se aninhou docilmente nos seus pés.

Sem esperar um segundo, de trivela, devolveu o passe na medida, a bola agora reta, todos os efeitos do desastrado passe que recebera corrigidos. Fiquei petrificado. Aquilo era lance de quem sabia, e esteve lá. Não o deixei em paz.

O interroguei por dias e dias. Ele, com um sorriso, me declarava sempre que fora um acaso, que nada tinha sido premeditado, que não sabia jogar, etc.

Não tirei mais nada dele e a coisa terminou assim. Meu parente continuou o velho distinto e educado que nos visitava de vez em quando. Sobre futebol, mais nenhuma palavra.

De vez em quando me dava uma olhada como se entre nós existisse um segredo que devia ser conservado. É esse tipo de coisa que me encanta. Quando descubro a bola onde ela não devia estar. Ou por outra, onde ela estava oculta. O inverso também é verdadeiro.

Um amigo me contou de um conhecido cujo pai estava em estado grave num hospital. Ao visitá-lo, o filho, na intenção de alegrar o doente, sabendo-o torcedor fervoroso de um determinado time, disse que seu time acabava de ganhar um clássico, o que, aliás, era verdade. Para sua surpresa, o velho, talvez se acreditando nas últimas e para deixar tudo esclarecido enquanto estava entre nós, declarou que jamais torcera para o tal clube, jamais dera qualquer importância para o futebol, na verdade o detestava. Fingira durante anos e anos ser torcedor para impressionar o sogro que esse sim era um fanático. Conseguiu casar com a filha, mas nunca mais se livrou do time e da mentira. O pior é que recobrou milagrosamente a saúde, mas não o moral, tornando-se a piada da família.

Vou me alimentando desses vestígios, das pegadas que o futebol deixa pelo caminho. Me encanta descobrir alguém, notável por outros feitos, dedicado a tarefas que não permitiam nem de longe aproximá-lo do futebol, e que, de repente, deixam escapar sua ligação com a arte popular mais criativa. É preciso só atenção.

Dois ou três dias atrás, dei com o seguinte no site do Centro de Apoio à Dermatologia Sanitária: "Nota de Falecimento: Faleceu ontem na cidade de São Paulo, aos 91 anos, o Prof. Dr. Vicente Amato Neto, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP. Professor de Infectologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além de ser um grande infectologista, o professor era fanático pela Sociedade Esportiva Palmeiras. Montou, durante sua atividade acadêmica, poderoso time que disputava os campeonatos do HC FMUSP. Nossos sentimentos à família pela perda do Grande Mestre". A nota era assinada pelo Prof. Dr. Luiz Jorge Fagundes, Coordenador Cientifico do CEADS, um são-paulino fervoroso.

 
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