Veterano, Zé Roberto esbanja um preparo físico invejável aos 38 anos

Quando ele fala, mostra que não é só abdômen que foi bem trabalhado nesses anos e anos de carreira

GONÇALO JUNIOR, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2013 | 09h20

Como a gente faz para ter esses “gominhos” na barriga? Essa foi a pergunta que Zé Roberto ouviu de seus colegas depois de ter tirado a camisa em sua apresentação oficial no Grêmio em junho do ano passado.

Os curiosos, todos mais jovens, ficaram sabendo que são necessários 500 abdominais diários, além de não beber e não fumar. Se começarem hoje, poderão chegar ao estágio do Super-Zé que, aos 38 anos, tem um porcentual de gordura de 7%, o mesmo índice da juventude. “Pratico esses exercícios há muito tempo, desde que jogava na Alemanha. Chego antes dos treinos e sempre pratico. Alguns também estão me seguindo.”

No caso de Zé, quem vê cara (e os gominhos) vê o coração. A exemplo do abdômen, o camisa 10 do Grêmio também cuida do espírito. Foi assim desde a infância sofrida na Vila Ramos, zona leste de São Paulo.

A casa de Zé Roberto e seus cinco irmãos era a única que não tinha portão e as janelas tinham remendos com pedaços de madeira. O telhado era um zagueiro que não dava conta das habilidosas pingueiras. De dia, os meninos catavam lata, cobre e papelão para vender no ferro-velho e, com a renda, compravam bolachas. O almoço era arroz com ovo, o máximo que a dona Maria Andrezina da Silva conseguia colocar na mesa com os dois empregos. Uma vez, um dos irmãos queimou a boca ao tentar comer gengibre pensando que pudesse substituir uma batata. O pai? Bebia. E, quando bebia, ficava violento. Fogos de artifício imaginários explodiam na cabeça do menino quando um dos amigos o convidava para ir para casa. Sabia que conseguiria filar a boia. O próprio meia reconhece que foi por milagre que não virou assaltante, viciado ou traficante. Era o futebol que o fazia esquecer da vida.

SEM MISTURA

Dona Andrezina começou a ouvir as pessoas falando que Zé jogava bem e resolveu fazer o gosto do menino. Tirou o dinheiro da mistura para pagar a passagem de dois ônibus e metrô para o menino treinar no Pequeninos do Jockey, clube amador que alcançou grande prestígio no futebol europeu graças aos títulos nas categorias juvenis na década de 90 e que tenta entrar no Guiness por causa dos 220 troféus. “Hoje, ainda me emociono com os sonhos de algumas mães”, conta Zé.

A medida da importância de Zé Roberto para o Pequeninos está na saudação do fundador e presidente José Guimarães Junior. Antes de mais nada, ele manda. “O Zé faz aniversário no dia 6 de julho”, diz o septuagenário, com a memória nos trinques. E a língua também. “Ele é um dos orgulhos da minha vida.”

Com o dinheiro das rifas que a mãe organizava e dos empréstimos a perder de vista feito com familiares, o menino treinava, mas sabia que o futebol estava na corda bamba. Aos 16, desistiu e foi cortador de carne e office boy. A mãe foi mais insistente que ele e arrumou duas peneiras, uma delas na Portuguesa. E o resto já está na enciclopédia do futebol.

Participou do melhor time da história do clube, vice-campeão brasileiro em 1996 e está na seleção de todos os tempos escalada pela própria Lusa. Em 1997, voou para a Europa e jogou oito anos na Alemanha, no Bayer Leverkusen e no Bayern de Munique. Virou ídolo. Em 2007, voltou ao Brasil e foi campeão paulista com o Santos. Resistiu aos apelos da diretoria para renovar o contrato e foi para o Hamburgo. É o segundo estrangeiro que mais atuou na Bundesliga (o primeiro é o peruano Claudio Pizarro).

“Muitos veículos de comunicação pedem entrevistas. Na semana passada, pediram um depoimento sobre os 50 anos do Campeonato Alemão pela importância que eu represento para essa história. Fico orgulhoso”.

ESCRITOR

Faltou falar do livro. Sim, o jogador já virou escritor. Sua vida virou o livro Um sonho para a vida na Alemanha. E, no Brasil, virou Colhendo frutos em terra seca, cujo título foi sugestão da mulher, Luciana.

Quando a reportagem do Estado foi adquirir o livro, em uma loja especializada no centro de São Paulo, o volume estava com 80% de desconto. “Eles imprimiram bastante”, explica a atendente, justificando os seis mil volumes da primeira edição.

“A publicação foi importante para a Central Gospel, porque o livro apresenta uma linda história de superação. Seu testemunho tem causado grande impacto de fé”, afirma o gerente editorial Gilmar Chaves.

A terra seca não parou de dar frutos. Depois de ter sido reserva de Roberto Carlos na Copa de 1998, foi protagonista em 2006 como o único brasileiro da seleção daquele Mundial, feita pela Fifa. Zé confessa que não fica na expectativa pelas convocações da seleção e só pensa jogo a jogo.

Só para recuperar um fio que ficou solto lá atrás: os amigos contam que o inevitável acerto de contas com o pai, que tentou se reaproximar, aconteceu recentemente. Zé Roberto montou uma carpintaria para o pai, mas não quis tentar reatar a amizade.

Zé Roberto é evangélico fervoroso, mas está atento às “coisas do mundo”. Seu filme preferido, por exemplo, é À Procura da Felicidade, aquele em que Will Smith come o pão que o diabo amassou - não gengibre - como um pai solteiro que chega a dormir na rua como o filho, mas não perde a esperança. “Ele consegue o objetivo sem passar por cima de ninguém. É preciso valorizar isso. Por ser uma história real, também nos dá esperança de ir atrás dos nossos sonhos”, analisa o craque.

Zé entregou o final do filme com Will Smith, mas isso é o de menos: quando ele fala, mostra que não é só abdômen que foi bem trabalhado nesses anos e anos de carreira...

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